Tarso: "Quem paga a conta é o andar de baixo"
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Tarso: "Quem paga a conta é o andar de baixo"

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Foto: Mauro Schaefer


Por Marco Aurélio Ruas
O ex-governador Tarso Genro, do PT, avalia que a crise brasileira faz parte de um contexto mundial em que a principal força é o capital financeiro internacional. Em relação à operação Lava Jato, ressalta ser importante o combate à corrupção, mas alerta que isso não pode ser uma bandeira para fortalecer determinadas correntes políticas e enfraquecer outras.

Correio do Povo: Qual sua avaliação sobre o atual momento de crise na política brasileira?
Tarso Genro: Nós estamos num momento muito particular da crise do Estado e da crise da democracia em todo o mundo, a medida que uma força superior à máquina estatal e à política vem ocupando e fazendo a pauta político-institucional do Estado. Que força é essa? É a força universal do capital financeiro, que cria normas de conduta para o Estado muito diferentes daquelas que deveriam regular seu funcionamento a partir da Constituição. Por quê? Porque os Estados, em regra endividados 90% dos Estados do mundo, com exceção dos países que controlam a economia mundial, começam a funcionar como máquinas pagadoras e reprodutoras da dívida pública que é controlada pela grandes agências internacionais e agências de riscos. Isso determina um sufocamento das funções públicas do Estado e atinge violentamente a eficiência e a eficácia da política para induzir uma sociedade mais livre e justa. Isso ocorre com os países que são dependentes para se financiar e funcionar. Atinge em cheio a sociedade brasileira.

CP: Quais são as suas considerações sobre a Operação Lava Jato?

Tarso Genro: Todo Estado democrático moderno, no momento de crise, desenvolve determinadas políticas contra a crise que hora se debruçam sobre a questão econômica-financeira, hora a outros temas, como a corrupção e a moralidade pública. Ambas as questões são verdadeiras. Elas convivem no Estado moderno uma com a outra. Em determinados momentos, como ocorre aqui no Brasil, a questão da moralidade pública e da luta contra a corrupção que é uma coisa, em princípio, sadia se torna a questão mais importante porque é instrumentalizada por forças políticas a quem interessa que isso seja uma questão concreta a ser resolvida. Por exemplo, foi desenvolvida toda uma campanha de deslegitimação do governo Dilma e a deslegitimação vem acompanhada de uma campanha extraordinariamente forte contra a corrupção, o que é uma coisa justa. Só que os propósitos desta campanha não eram lutar contra a corrupção, eram destituir um governo legítimo. Tanto é verdade que o governo da presidenta Dilma foi substituído por uma confederação de denunciados e investigados. Então, o que se pode dizer a respeito de operações como a Lava Jato? São operações importantes porque esse é um movimento sadio do Estado, mas a grande questão que se coloca é não permitir que isso seja um fim em si mesmo. Ou seja, que sirva apenas para fortalecer determinadas forças políticas e enfraquecer outras.

CP: Qual é a possibilidade de a crise nacional atingir a política gaúcha?

Tarso Genro: Acho que a política gaúcha já sofreu determinados reflexos desse processo, e isso é notório. Inclusive, aqui no Rio Grande do Sul o partido que é atingido por essas campanhas anticorrupção em escala nacional, o PT, é o menos atingido de todos. Tem muito poucas pessoas mencionadas. Mas eu não costumo emitir juízo definitivo sobre essas denúncias e investigações porque elas têm que ser primeiro provadas e ter definições de processos para que se possa culpar as pessoas. Mas o RS é um dos Estados menos atingidos entre os Estados importantes do país. Porque a elite política gaúcha, de todos os partidos, é de melhor qualidade, independentemente das convicções ideológicas e políticas de cada partido. Isso é uma coisa que deve orgulhar o RS. Assim como as pessoas e grupos que estejam envolvidas devem ser severamente punidos porque isso só pode melhorar o ambiente político do Estado.

CP: Qual sua avaliação sobre a atual condição do Estado?

Tarso Genro: Toda crise econômica e financeira de um país, Estado ou cidade, quando se tenta resolver, tem que se indicar quem paga a conta. Existem métodos de distribuição dessa conta com políticas sociais que façam contraponto ao desemprego, à ausência de desenvolvimento, à ausência de financiamento adequado para os negócios, mas alguém vai pagar a conta. Os métodos que estão sendo adotados no país e no Rio Grande do Sul é que quem paga a conta é o andar de baixo, é o porão do Titanic, do grande navio social que representa a sociedade. Por que estou dizendo isso? Porque a forma, no últimos 50 anos, com que as grandes corporações que controlam o Estado, a grande política e a mídia têm buscado para resolver essas crises não é reduzindo a taxa de lucro, não é cortando excessos de uma pequena ponta da sociedade que ganha milhões e milhões num dia girando o mercado financeiro, não é atacando a alta burocracia estatal com seus estipêndios extraordinários, é atingindo os assalariados de média e baixa renda. Esses é que estão pagando a conta. E isto não somente no Brasil ou no Rio Grande do Sul. É um método que orienta hoje o capitalismo em escala mundial. O que temos que fazer, nós que estamos na oposição, é mostrar como se pode fazer uma transição para fora da crise distribuindo as responsabilidades, o ônus dessa solução. Essa distribuição tem que ser inversamente proporcional ao poder aquisitivo das pessoas.

CP: Qual sua opinião sobre as propostas de reformas da previdência e trabalhista do governo federal?

Tarso Genro: Essas duas medidas são precisamente as que mais caracterizam como o grande capital financeiro e como os detentores do poder econômico e financeiro do Brasil pretendem resolver as crises. A reforma da Previdência, por exemplo, onera da classe média pra baixo. E a reforma trabalhista, na verdade, sucateia determinados direitos que foram conquistados no século passado e deixa o sistema de proteção da legislação trabalhista, e que gera um equilíbrio social mínimo, completamente dissolvido. Na base da pirâmide social, dos assalariados, da classe média, daqueles que dependem da subvenção pública inclusive para viver com mínima dignidade. Porque tudo isso é acompanhado, também, com a retirada de programas sociais, de inclusão social e educacional, que caracterizaram o Brasil nos últimos 15 anos.

CP: É necessária a criação de uma nova esquerda?

Tarso Genro: Há necessidade de reinvenção do processo democrático e dos partidos políticos, particularmente, no meu caso, da esquerda brasileira e mundial. Porque os valores e parâmetros da luta da esquerda e das lutas democráticas se deram a partir da estrutura socioeconômica da segunda Revolução Industrial. Daí que partiram partidos, organizações sindicais e grandes conflitos de classe. Hoje temos uma sociedade diferente, temos que reinventar os mecanismos de funcionamento dela. Por exemplo, com os avanços tecnológicos que dispomos, podemos submeter todas as grandes decisões públicas a consultas e plebiscitos. Isso seria reinventar a democracia. Ou seja, combinar a democracia representativa com a participação direta através desses mecanismos, que a nossa própria constituição prevê. Do ponto de vista dos partidos, eles vêm perdendo eficácia. As grandes manifestações populares convocadas contra o presidente Temer são feitas por sindicatos, artistas, associações culturais e outras organizações de movimentos sociais e não pelos partidos. Temos que repensar o funcionamento da sociedade política para que os partidos voltem a ter eficácia, porque não tem democracia verdadeira sem funcionamento verdadeiro dos partidos políticos.