CP: O que mudou neste Wander de "WanClub" e de projetos mais atuais?
Wander Wildner: Quando eu comecei a compor, eu fazia do jeito que os Replicantes compunham. Era punk, era balada e brega, mas era punk, era quatro por quatro, aquelas rimas no final da fase. Isso eu já fiz, agora quero compor diferente. Vou estudar melodia. Comecei a descobrir umas bandas que faziam de outro jeito. Eu lembrei do Bob Dylan, que no começo da carreira ouvia os discos emprestados ou roubados dos amigos até entender como o cara fazia aquela música. Eu ia para o YouTube e pegava The Wave Pictures. Eu via eles tocando e as mudanças da música, da voz. Tiveram que desenhar para mim. A melodia era outra história que ia além do que eu sabia. Comecei a trabalhar nos dois últimos discos desta forma. Tem a ver com o presente. Eu aprendi mais música. Eu toco com amigos, a gente convive tocando e vivendo, viajando e jogando conversa fora. É uma química muito grande. Viajo com pessoas que conheço há muito tempo como o Arthur de Faria e o Jimi Joe, mas também com gente mais nova como o Luke Faro, o Gustavo Chaise. Isso alimenta muito. Tu vai procurando e vai surgindo mais coisas e pessoas. Agora estou fazendo um trabalho de criar parcerias.
CP: O Wander se purificou, deixou de ser punk?
Wander Wildner: Fiquei um ano e meio morando em Porto Alegre e agora estou há uns três meses morando numa aldeia de pescadores, qualquer praia. De janeiro para cá, eu nunca mais entrei no ritmo da cidade. Eu não fico na cidade. A cidade não me interessa mais, nenhuma delas. Fico no Bom Fim. Daqui eu me movimento para os lugares que me interessam. O Brasil se movimentou muito neste março e abril, isso chacoalhou com as pessoas. Estão todos muito loucos. Isto é engraçado, é um caos total. Não tem mais lei. Aí vão vir as respostas. Não existe mais o país, o Brasil. Se alguém acredita, vai continuar votando nas mesmas coisas. Se ninguém for trabalhar amanhã, tudo para. Sociedade Alternativa, de Raul Seixas já tocava no assunto. Eu não moro em algum lugar, eu não tenho uma vida comum. O conceito social de polis não me interessa. O mundo acabou, isto é velho, não nos pertence. Os vermelhos e amarelos estão contra tudo. Os dois estão certos. Num país Macunaíma, os índios já explicaram o que estava certo. Tem que aprender a ser selvagem. Por isso que o Nordeste é mais rico, é mais pé no chão, o corpo dentro d´água. Eles continuam fazendo o presente, apesar da fome. Nas grandes cidades, está todo mundo vivendo o passado. A minha vida não é para frente ou para os lados, a minha vida é em volta de mim.
CP: E estas novas parcerias, como estão sendo?
Wander Wildner: No "Caminando y Cantando", rolou uma abertura do caminho das parcerias com o Arthur de Faria. Logo com o Arthur que é o cara que me apresentava para tocar com pessoas diferentes. Eu acabo tocando com gente que eu não tocaria, que eu seria muito punk para tocar com eles. Ele sabe que vai rolar a história, eu não sabia. Veio uma verve de criar com outras pessoas. Tudo de uma forma nova, que veio desde o aprender a melodia. Dessas novas parcerias, tem o Gustavo Kaly, o parceiro de "Boas Notícias". Ele foi para Dublin e ficamos trocando mensagens de Facebook. Comecei a compor em inglês. Depois eu passei nomes de Bukowski, Bill Murray e ele fez uma música. Veio "Colonos em Chamas". A música vai ser a base da minha vida daqui pra frente. Ela vai me levar para todos os cantos do mundo, mais do que a minha cabeça planejando agenda. Recebo um e-mail da Lulina. Três anos e meio ela me responde o e-mail com aquela letra. No outro dia, o Juvenil posta um negócio sobre o Lineker no Facebook a respeito da versão da música "Desapego". O Juvenil escreve os posts poeticamente. Comecei a fazer uma música na hora. Gravei e mandei a música para ele. Estas músicas são todas pós-"WanClub".
CP: O que representou a morte do Júpiter Maçã para a tua geração do rock gaúcho?
Wander Wildner: Não foi só o Júpiter que morreu. Todo mundo morreu. Morreu o Brasil. Eu morri. Aceitar a morte é fundamental. Eu morro a cada vez que me mudo. Eu saí da minha cidade natal (Venâncio Aires) com quatro anos e até os 18 eu morei em oito lugares e estudei em sete colégios. Eu sou um Wildner, é uma família que não tem terra, de origem nômade. Eu tenho isto muito comigo, que um tio, irmão mais velho do meu pai, tinha. Não tem lugar. Eu viajo muito nesta minha história. No meu mundo. É como se eu fosse um planetinha e seguisse andando. Eu sempre me transformo. Posso estar em qualquer lugar, mas não vou me colocar em nenhum conceito desta sociedade.
Por Luiz Gonzaga Lopes

