Diálogos

Zico: “Única coisa que sabemos da Fifa é a corrupção”

Portal da Capa / Divulgação / CP Zico pede mudanças no sistema de eleições da CBF e da Fifa - Portal da Capa / Divulgação / CP Memória


O técnico do Football Club Goa, da Índia, e ídolo do futebol Brasileiro, Zico, não conseguiu as cartas de indicações necessárias para concorrer à presidência da Fifa e desistiu antes da confirmação dos candidatos. O ex-meia do Flamengo, da Udinese e do Kashima Antlers concedeu entrevista ao programa Esporte na Boa, da Rádio Guaíba, e falou sobre as dificuldades para entrar no mundo das instituições que comandam o futebol pelo mundo. Arthur Antunes Coimbra, de 62 anos, comenta também as dificuldades de lutar pela presidência da Confederação Brasileira de Futebol e as lições que tirou da campanha a pré-candidato da Fifa. Confira a entrevista na íntegra:

Rádio Guaíba: Zico inicia falando sobre o terremoto na Índia

Zico: O pessoal ficou preocupado com o terremoto na Índia. Lá onde está o Roberto Carlos (lateral), coitado, tomou um susto danado, mas aqui em Goa, bem longe do problema. Dali para Delhi são quase quatro horas de avião.

Rádio Guaíba: Por que você não conseguiu as cinco indicações para concorrer a presidente da Fifa?

Zico: Porque existe hoje um sistema, que vinha falando sobre desde o início... Porque pessoas com grande história no futebol precisam ter as cinco cartas. Acredito que a partir daí é que começam os acordos. Se você ganha e acontece alguma coisa em favor do país que te deu a carta, vão te dizer que foi do país que te deram a carta. Se outro ganha e comete um ato contra, vão dizer que é represália porque deu a carta para o outro. Acho isso um grande erro. Tive a oportunidade de ser recebido pelo presidente das reformas da Fifa, François Carrard, e espero que as boas intenções sejam implementadas, mas isso precisa mudar. Para ser candidato, tem que ter história no futebol e não ser indicado por alguém. Algumas pessoas que conseguiram as cartas ninguém conhece e não sabem o que eles pensam sobre futebol. A gente sabe que existem acordo e que eles geram corrupção. Estou bem tranquilo. Sabia dessa dificuldade, mas temos que tentar. Ainda por ser quem eu sou e ter espaço na mídia mundial. Pude falar sobre as coisas que são necessárias hoje. Temos que acabar com esse antro de corrupção que existe. A cada dia um escândalo na Fifa. Essa falta de transparência e credibilidade que tem na entidade. O que tem que mudar é o mundo do futebol.

Rádio Guaíba: Quais foram as tuas maiores dificuldades para sair como candidato? 

Zico: Por trabalhar no futebol, não posso sair de jatinho particular para visitar presidente de federações. Acabamos constatando coisas que todos sabem que acontece, mas precisamos ver para crer. Assim como tem intermediário de jogadores, tem também para conseguir cargos e votos. Os caras pedem mesmo na cara dura. Tem aquela coisa de você falar com o presidente, apresentar as ideias e ele fica esperando, tipo: “E aí? Que mais? O que você vai dar em troca?”. Essas coisas a gente precisa ver para crer. Conversei com muita gente. Na véspera, acreditávamos ter as seis cartas, mas, na hora, houve uma mudança geral e um bloqueio da Uefa, pois a retirada do Platini e um plano B fez com que todo mundo ficasse apavorado. Porque a carta agora é pública e notória, todo mundo sabe quem deu. Na hora do voto secreto, em fevereiro, todo mundo muda de lado. Agora, não. Ele tem que mostrar a cara e é aí que surge o grande problema para quem é fora do sistema, como é o meu caso.

Rádio Guaíba: Além de decepcionado, você sai descrente em uma mudança no futebol?

Zico: Não, saio fortalecido, principalmente pela minha história no futebol que fez com que as pessoas do mundo do futebol acreditassem. Sejam de outras modalidades e de outras áreas. Seja da música, das artes, do esporte, torcedores, fãs e gente que foi lá mostrar a cara e me apoiar. Isso mostra como fui importante durante a minha carreira. O quanto eu passei segurança e credibilidade para as pessoas. Então, saio fortalecido. Decepcionado não, pois sabia que aconteceria. Como seria a candidatura, mas a gente não pode ficar de braços cruzados. O mundo do futebol está de braços cruzados. O mundo do futebol está de braços cruzados com tudo o que está acontecendo e com quem está atuando. Se todo mundo ficar quieto, esse mundo nocivo vai continuar dominando e não queremos isso. Queremos o jogo limpo e um futebol limpo. Se o mundo está atento, é preciso transparência e se tem coisa que a Fifa não tem é transparência.

Rádio Guaíba: As federações que abriram apoio foram São Tomé e Príncipe e Angola. De que forma a CBF se posicionou?

Zico: Não, não vou falar de nenhuma confederação e nem federação. Até porque não recebi nenhuma carta. Então, não posso dizer quem apoiou ou não apoiou. Não apresentei carta nenhuma, então, não vou citar nenhuma.

Rádio Guaíba: Você falou com o presidente Marco Polo Del Neto?

Zico: A CBF foi segura até o fim com aquilo que prometeu. Se eu apresentasse quatro cartas, a quinta era da CBF. Eu não apresentei, mas eles estavam prontos para fazer a carta a hora, desde que eu chegasse com as outras quatro. Sempre contei com o apoio da CBF. Isso foi garantido pessoalmente, por escrito e confirmado. Então, quanto a essa questão, não tem nenhum problema.

Rádio Guaíba: Você acredita que o favorito, o secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino, será o presidente da Fifa?

Zico: Com todo o respeito com os outros candidatos, a briga vai ficar entre ele e o príncipe (da Jordânia) Ali (Bin Al Hussein). Não vamos esquecer que na última eleição com o Blatter, ele tinha mais de 70 votos. Acho que ele e Infantino vão brigar. A Uefa é forte. Pelo que me foi dito, até pelo presidente da CBF, a Conmebol está com a Uefa e com o Platini. Toda ela fechada. Não preciso eu dizer, pois o presidente da Conmebol deu uma coletiva dizendo que todos os votos são do Platini. A Uefa tem um grande poder na Ásia e acho que os dois vão brigar.

Rádio Guaíba: E os demais?

Zico: O (ex-diretor de relações internacionais da Fifa, Jerôme) Champagne tem uma experiência de Fifa e tal. Pode correr por fora. Conhece muito dos outros países. Agora, quem está com a África, que tem uma boa quantidade de votos, pode chegar melhor. Quem chegar melhor na África pode decidir a candidatura à presidência. Mas acho que o príncipe Ali e o Infantino é que vão decidir.

Rádio Guaíba: Zico pode tentar algo na CBF?

Zico: Posso, mas a tentativa (para chegar a presidência da) CBF é, talvez, muito mais difícil que a Fifa. Na Fifa, você tem 209 federações e se não tivesse esse sistema de bloco seria bem mais fácil. Se tivessem independência para a livre e espontânea escolha, o que não existe. Infelizmente, quem manda são as confederações. Quem elas escolhem é que as federações votam. Na CBF, você tem 20 clubes da primeira divisão e 27 federações, ou seja 47 votos. E você tem que ser lançado por oito federações e cinco clubes, então, tem que ter 13 cartas de apoio. Com isso, a eleição tem, no máximo, três candidatos. Então, acho que é muito difícil, na atual circunstância, com todo esse comprometimento que existe entre federações, clubes e CBF que surja algum candidato que não seja lá de dentro. Dentro da minha previsão, não acontecendo problemas extra-futebol, questões levantados todos os momentos pela imprensa, acho que o Del Nero ficará mais 12 anos na CBF. Como ficou o Ricardo Teixeira, João Havelange e como ficaram outros. Pela forma de eleição que existe. Seria o ideal, antes de tentar chegar na Fifa, tentar presidir a confederação do meu país. Mas acho que é praticamente impossível.

Rádio Guaíba: Existe um constrangimento pelo presidente da CBF não poder acompanhar a seleção e, sabendo que ele pode ficar mais 12 anos, você não acha que deveria partir dele o afastamento?

Zico: Lógico. Além de tudo, é o cargo e a representatividade que ele tem na Fifa. Ele foi colocado pela Conmebol. O Brasil precisa ter um representante pela sua história no futebol. A cadeira do Brasil não pode ficar à deriva nas decisões da Fifa em relação ao futebol. Isso é, sem dúvida, muito ruim. Como jogador gostava de ver o presidente dando apoio para nós. É sempre importante saber que o presidente está ao lado da Seleção. Ele precisa repensar todas está coisas que estão acontecendo na CBF.

Rádio Guaíba: Você chegou a se animar com Platini e com Blatter fora da corrida pela Fifa, sabendo que o nome do Zico era um dos mais conhecidos, pela história no futebol?

Zico: De maneira nenhuma. A história não conta muito nesta hora. Se tivesse uma história dentro do sistema deles, contaria. Só com a história e sendo um peixe fora da água, eu acho difícil. Não tinha dúvida que a Uefa iria apresentar um plano B. Principalmente, depois que a Inglaterra e a Alemanha vieram a público falar que não iam mais votar no Platini. Conversei com um presidente de uma federação de um país da Europa e ele me disse que todos estavam fechados com a Uefa, independente da decisão, mas que o Platini estava fora. Isso fez com que mudasse totalmente a situação daqueles que dependiam de cartas, como era o meu caso. Os outros tinham conseguido. Aí foi o grande problema.

Rádio Guaíba: O que precisa mudar, são as pessoas ou os pensamentos?

Zico: São os sistemas. A democracia e transparência precisa existir nestas instituições. A começar pela forma de eleição. A Fifa elege o melhor do mundo e votei diversas vezes. Os capitães votam, os técnicos votam, os jornalistas votam e a torcida vota pela Internet, então, por que isso não acontece quando é para presidente? Tem uma série de regras. Isso não é transparência. Isso é uma das coisas que precisam mudar. O dia que a caixa-preta da Fifa for aberta, vai dar exemplos para confederações e federações. Todos os dados que ela têm servem de exemplo para as outras. Se é uma ditadura, as outras vão ser também. Se ela presta contas com o mundo do futebol, as outras vão prestar também. A única coisa que a gente sabe da Fifa é a corrupção, mais nada.


Rádio Guaíba: As investigações vão nos apresentar mais surpresas nos próximos dias?

Zico: Surpresa não, pois aboli essa palavra do meu dicionário do futebol. Para mim, não tem supresa em nada. Nem dentro, nem fora, de campo. Agora, que podem surgir mais situações, principalmente, se tratando de eleição… Não tenho dúvida que as denúncias contra o Blatter e do Platini só vieram a público pela eleição. Quando tem eleição, em qualquer lugar do mundo, as coisas aparecem.

Rádio Guaíba: O recado do Zico foi dado nesta corrida para ser presidente da Fifa?

Zico: Entendo que sim, pois não foi só no Brasil que tive espaço. Foi na Ásia, na Europa, na África e todos os locais quando tive a oportunidade estar presente, principalmente, quando estive em Zurique, pois era um dever de hombridade de você comunicar a Fifa e ao presidente da Fifa que queria ser candidato. E ter a oportunidade de conhecer e enviar cartas ao conselho de ética. Conhecer o presidente do comitê de reformas. É um dever nosso ter ética e moral para tomar as decisões. De qualquer maneira, o conselho de ética é um órgão importante e que mostrou força ao tentar clarear as situações para todo mundo. Acho difícil que nos próximos anos alguma coisa mude dentro deste sistema. Tomara que queime a língua, mas acho difícil por tudo que está acontecendo hoje em dia.

Rádio Guaíba: Como foi o encontro com o presidente da Fifa?

Zico: Foi simpático, me recebeu muito bem. Com muito respeito. Ficou feliz de eu ter sido o único pré-candidato que foi direto nele comunicar o interesse. Respeitando a entidade e o seu presidente. Achei ele muito acabado. Diferente de quando tive com ele algumas vezes na Copa do Mundo. Ele já estava com os problemas (da Fifa). Acho que ele subestimou muito, talvez pelo poder e cargo, no momento que ele disse que renunciou e depois disse que não. Ali ele tinha que ter tirado o time de campo e pronto. Acho que dificilmente as coisas poderiam acontecer como aconteceram. Cada um sabe as decisões que toma. Um cara que tem 40 anos dentro da entidade e sair desta forma. Acho que é inédito um presidente ser suspenso da Fifa por corrupção. Para quem gosta de futebol é duro de aguentar.

Escute a entrevista:



Por Rádio Guaíba