A ‘guerra’ dentro do ônibus

Dificuldades de abastecimento de combustível pedem debate sobre mobilidade

Em meio à guerra no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos e Irã desde o final de fevereiro, nos percebemos envolvidos numa dificuldade econômica que atravessou o planeta, deixando os preços do petróleo em um grande sobe e desce especialmente nos últimos dias, sempre rondando os 100 dólares o barril. Ontem pulou para 108 dólares na Bolsa de Londres. Resultado? O abastecimento de combustíveis como diesel e gasolina comprometeu inclusive o transporte coletivo no Rio Grande do Sul. Dificuldades para adquirir o produto são relatadas diariamente por prefeituras à Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs). Dependência de somente um produto pode dar nisso.

Em Porto Alegre há ônibus totalmente elétricos circulando em algumas linhas. Para outros veículos movidos a diesel na Capital há contratos diretos com grandes distribuidoras, o que evita escassez e consequente redução de horários ou suspensão de rotas. No Interior, entretanto, temos centenas de municípios que dependem do diesel e relatam dificuldades de abastecimento. Ontem eram 170. E essas prefeituras precisam gerir não apenas o transporte coletivo, mas também vans escolares, já que muitas crianças moram longe, em zonas rurais, e nem sempre é possível ir à aula a pé.

Não há aqui a ilusão de que o combustível fóssil possa desaparecer assim, num “zás”, e ser substituído totalmente, da noite para o dia, por fontes como sol, vento ou hidrelétricas. Entretanto, é preciso, sim, aprofundar o debate sobre mobilidade. Odilon Francisco Pavón Duarte, engenheiro eletricista e mestre em Engenharia Elétrica, assinala que não há “uma bala de prata”, mas sim complementaridades. Se for preciso reduzir a dependência de combustíveis fósseis, observa ele, a resposta técnica passa pelo equilíbrio entre as fontes. Pavón Duarte enfatiza que a energia solar fotovoltaica “é a mais democrática e escalável”. No Rio Grande do Sul, assinala o especialista, o potencial de geração é bastante elevado e a vantagem é que garagens de ônibus que possuem grandes áreas de telhados podem ser transformadas em usinas, já gerando a energia no próprio local de consumo.

NA PRÁTICA

  • Além de citar as complementaridades iniciando pela energia solar, o engenheiro também dá destaque à eólica, que tem o vento como fonte de geração. “É fundamental para o período noturno, quando a solar não gera. Como muitos ônibus carregam durante a madrugada, o vento é o parceiro ideal para carregar as baterias sem sobrecarregar o sistema”, acrescenta Pavón Duarte. Já as hidrelétricas, explica o especialista, atuam como “bateria” do sistema e dão estabilidade quando o sol não aparece ou quando falta vento.
  • Resumo da ópera, o melhor “gerador” é híbrido, conforme orienta, ressaltando que para uma frota urbana a energia solar combinada com sistemas de armazenamento (baterias) dá mais autonomia e resiliência frente a crises. Crise, essa é a palavra. Chegou atravessando o mundo movida pela questão geopolítica. Ao mundo, agora, resta gerenciar e buscar alternativas.