Economia Simples

A luz e a dança das bandeiras

Em tempos de conta ‘salgada’, é importante economizar

A tarde era de pouco movimento, sem fila no caixa do supermercado, e sobrou um tempinho para aquela conversa sobre estar tudo caro. Alimentação, gás, energia elétrica e por aí vai. O assunto se populariza em tempos de bandeira vermelha na conta de luz. Enquanto passava os itens na leitora a funcionária da loja refletia. “Sei que a bandeira vermelha é ruim e a amarela é mais ou menos ruim”, comparou. “Não sou boa no Português para explicar, mas sei que a gente está gastando mais porque agora o aumento é muito grande”, arrematou a moça. É comum confundir cobrança extra com os aumentos anuais da tarifa de energia. Ambos deixam a conta de luz mais cara, é verdade, mas são coisas diferentes. Sempre que o sistema de bandeiras é acionado a fatura encarece, mas significa mais que um aumento. É cobrança extra o nome correto, porque aumento é só uma vez no ano, sempre no mesmo mês, conforme a operadora. Já a cobrança extra pode estar no boleto a qualquer momento quando, por exemplo, a estiagem afeta o país e os reservatórios de água baixam.

No Rio Grande do Sul seguimos com chuva e os reservatórios não estão assim tão baixos como em outras regiões, mas e daí? O sistema elétrico brasileiro é interligado, e se há seca no Norte, igual pagamos caro no Sul. Reservatórios “hídricos”, expressão que vem de “hidro” (água), geram energia por meio das águas e se não estiverem a pleno pode ser necessário acionar usinas movidas a calor. Gerar energia deste modo tem custo maior, e este pode ser um dos motivos para que a bandeirinha apareça na conta.

Até o início de 2025 é sombria a previsão da reguladora de energia, a Aneel, porque a tendência é de cobrança na cor vermelha patamar 2, a mais cara. “Se a estiagem (no país) persistir, é provável que a bandeira vermelha 2 siga vigente”, reitera o professor Odilon Duarte, engenheiro e coordenador do curso de Engenharia de Energias Renováveis da PUCRS. Dificuldades com o período seco levam o governo a cogitar o retorno do horário de verão, adotado pela última vez em 2019. “Mas só se for imprescindível”, disse nesta semana o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Ainda há dúvidas quanto à medida ajudar mesmo a reduzir a fatura da luz.

Cobrança extra aumenta os valores na tarifa da energia | Foto: Arte de Leandro Maciel

Na prática

Quando o sistema de bandeiras vigora, a cada 100 quilowatts/hora o extra na conta da luz é de R$ 4,46 no nível 1 e de R$ 7,87 no nível 2 da bandeira vermelha. Justamente o mais caro é o que está vigorando.

Dicas de consumo consciente são bem-vindas. Já é sabido que o ar-condicionado “come” um bocado da energia da casa: 171 quilowatts/hora (kWh) se ficar ligado por 6 horas durante 30 dias, segundo o simulador da RGE. E se pensávamos que o chuveiro era o segundo vilão, o gasto de 66 kWh por 15 minutos nos 30 dias do mês mostra que não. Logo depois do ar-condicionado vem a cervejeira com seus 129,6 kwh ligada nas 24 horas do dia. "Entender" cada eletrodoméstico e repensar o consumo pode ser vantagem. n No aplicativo da CPFL, por exemplo, a plataforma "Conta Fácil" traz orientações que ajudam a economizar.

Há relatos na agroindústria da zona Sul de Porto Alegre sobre tarifas mensais de R$ 600 em média. Com a bandeira vermelha 2, a expectativa com a tarifa de outubro que deverá ser paga no início de novembro é de gastos ainda maiores.

No comércio também cresce a preocupação com cobrança extra na conta de luz, e a adoção de eventual horário de verão seria bem-vinda não só por aliviar custos - se realmente baixassem - mas por alavancar vendas. “Além de ampliar o tempo de claridade, o que favorece a circulação de pessoas, aumenta a probabilidade de vendas e proporciona sensação de segurança”, considera o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do RS, Vitor Augusto Koch. “Pode gerar mais vendas em segmentos como bares e restaurantes e em lojas de artigos como roupas, calçados, acessórios e eletroeletrônicos”, conclui.

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