Quando se pensa nas relações entre os países, os blocos econômicos têm papel de peso. Quem negocia em parceria pode obter vantagem na movimentação de seus produtos. As transações tendem a ficar mais fáceis e melhores, assim como as taxas adotadas dentro do grupo, zeradas ou reduzidas.
No caso do Brasil e vizinhos, unidos pelo Mercosul, essas vantagens devem ser ampliadas a partir do acordo que foi firmado com a União Europeia (UE), formada por 27 países. Após mais de 25 anos o tratado foi oficializado este mês em Montevidéu durante a 65ª Cúpula do Mercosul, mas ainda é preciso que os parlamentos de cada país da UE votem e aprovem a iniciativa, ao menos 15 deles.
A França é uma das nações em oposição à iniciativa, já que as negociações poderiam afetar seus agricultores diante da possibilidade de produtos daqui chegarem lá a preços melhores para o consumidor. Em posicionamento semelhante estão Itália, Irlanda e Polônia.
O anúncio oficial foi feito, mas os efetivos resultados não serão vistos “para já”, tanto que o próprio governo brasileiro faz cálculos para 2044, daqui 20 anos. A expectativa é de um acréscimo de R$ 42 bilhões nas nossas importações de itens da União Europeia e ainda um incremento de R$ 52 bilhões nas exportações do Brasil para lá, o que nos dá uma espécie de “superávit”, já que o valor exportado é maior na projeção.
A União Europeia tem 27 países e o Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, e mais recentemente foi anunciada a participação da Bolívia como estado-parte. Há também os associados ao Mercosul: Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. Os estados-parte têm direito a voto e os associados participam das reuniões e têm preferências comerciais no bloco.
Considerando-se que além dos membros efetivos do Mercosul há seis países associados, temos 11 nações na América Latina que se beneficiariam da iniciativa além das 27 nações europeias. Quando a parceria estiver efetivamente funcionando, serão 38 países envolvidos em um comércio além-mar.
Na prática
Com mestrado em Integração Latino-Americana pela Universidade Nacional de La Plata, Argentina, e doutorado em Ciência Política pela Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha, a professora da Ufrgs Vanessa Marx está próxima do tema. Ela lembra que após 25 anos de negociações entre os dois blocos, hoje há outras realidades e cenários em questões como, por exemplo, o meio ambiente e a mudança climática, que pode comprometer a própria logística. Entre os itens do acordo estão estabelecer cooperação política e ambiental e harmonizar normas sanitárias. Os detalhes ainda serão formatados.
Além do objetivo de reduzir ou eliminar tarifas de compra e venda, entre os itens do acordo estão “estabelecer cooperação política e ambiental”, assim como proteger direitos de propriedade intelectual e facilitar compras governamentais.
A cooperação entre UE e Mercosul, assinala a professora Vanessa, deve ser “um acordo que respeite o meio ambiente além da economia”. Os pontos ligados à gestão e à proteção ambiental hoje trabalhados em todos os ramos, desde pequenas comunidades até empresas e governos, também deverão ganhar importância nos próximos capítulos dessa história.
