Compra do material escolar como parte do aprendizado

Pais e filhos podem exercitar educação financeira antes do retorno às aulas

Exagero dizer que organizar o material escolar na volta às aulas é um momento mágico? Se a gente olhar para os olhinhos arregalados da criançada em meio a um mundo de cores de canetas, estojos e cadernos cada vez mais descolados, sim. E os pais que lutem para dar conta dos preços, porque eles subiram. A despesa está mais alta não só para a compra dos itens de escola. Serviços relacionados com a educação também aumentaram. Exemplos? De acordo com levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, os preços das despesas escolares que englobam mensalidades da creche à pós-graduação, materiais, livros, transporte e serviços associados registraram aumento de 6% no Brasil e de 4,9% na Região Metropolitana de Porto Alegre no acumulado de 12 meses até dezembro de 2025, superando a inflação oficial em ambos os casos.

Alguns itens especificamente registraram aumentos ainda mais expressivos como pré-escola e Ensino Fundamental (8,4%), Ensino Médio (7,7%) e papelaria (7,1%). E a tendência nesse período, faltando umas duas semanas para o recomeço do ano letivo, é de mais gastos. Dito isso, a pergunta que fica é: levar os filhos às compras na papelaria ou na livraria pode encarecer ainda mais o processo? É fácil negociar com eles quanto aos gastos ou não? E quando isso poderia se tornar mais difícil? Quando são pimpolhos da pré-escola ou quando são adolescentes?

Psicólogo e pesquisador da Universidade Federal Fluminense que atua com foco em finanças comportamentais, bem-estar financeiro e tomada de decisão, Nicolas de Oliveira Cardoso faz observações sobre o tema. Ele ressalta que levar a criança ou o adolescente para comprar o material escolar pode ser uma experiência educativa importante. A lista já pronta cumpre o papel de delimitar necessidades, enquanto pequenas escolhas dentro dela, como a capa de um caderno ou o modelo da mochila, ajudam a desenvolver autonomia, senso de responsabilidade e noção de valor. “Para adolescentes, esse momento pode ser ainda mais rico, permitindo conversas práticas sobre preços, marcas, diferenças de custo e decisões de consumo. O ponto central não é ampliar a lista, mas permitir escolhas possíveis dentro de limites previamente definidos”, ensina.

NA PRÁTICA

O psicólogo lembra que há que se considerar também que quando o orçamento é restrito e não há espaço para além do estritamente necessário, levar a criança às compras gera uma exposição a produtos que não cabem no orçamento, o que tende a trazer frustração. n Nicolas reforça que frustração ocasional é parte do desenvolvimento, mas quando previsível, deixa de ser educativa e vira desgaste emocional. “Nesses casos, não levar a criança não é falha na educação financeira. Pode ser uma forma de protegê-la de desejos que não poderão ser atendidos naquele momento”, observa.

O pesquisador, porém, ressalta que mesmo quando há condições de compras maiores o meio-termo deve ser valorizado. “Atender a todos os desejos não é educativo”, enfatiza, assinalando que esse comportamento poderia dificultar a aprendizagem quanto a limites.