Conflito versus desenvolvimento

ONU estima 123 milhões de deslocados à força este ano no mundo, 7 milhões mais ante 2024

Confrontos agravam pobreza e instabilizam economias
Confrontos agravam pobreza e instabilizam economias Foto : Bashar TALEB / AFP / CP

Guerra, guerrilha, guerra civil, tudo é prejuízo. Na edição anterior da coluna falávamos de perdas econômicas nos grandes conflitos. Agora, para além de casos mais “visíveis” como EUA interferindo em confrontos pelo mundo, ou ainda Israel e Hamas e Rússia e Ucrânia, em minúsculos países as lutas agravam a pobreza. A Acnur, agência da ONU para refugiados, estima 123 milhões de deslocados à força este ano no mundo, 7 milhões a mais ante 2024, um aumento recorde. À medida que fogem, essas pessoas ficam sem casa ou emprego, o que reduz desenvolvimento.

“Há exemplos de risco país em guerras civis, caso de países africanos, República Democrática do Congo e outros menos desenvolvidos, mais expostos politicamente”, exemplifica Gustavo Moraes, economista e professor da Escola de negócios da PUCRS. O risco país mede a capacidade de uma nação de pagar dívidas e manter estável o ambiente de negócios. Na República Democrática do Congo, o país poderia ser atrativo por suas terras raras e por um elemento usado na indústria eletrônica: o lítio. Mas que empresa se habilitaria em meio a rebeldes de metralhadora na mão? E em alguns casos o próprio produto a ser explorado desperta disputa.

Quem assistiu Sal da Terra, documentário de Wim Wenders e Juliano Salgado sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, morto em maio, lembra disso. Salgado retratou trabalhadores rurais e indígenas cruzando fronteiras e fugindo de lutas civis para vencer outra luta: sobrevivência. “Poucas pessoas abandonam a terra natal por vontade própria”, escreveu o fotógrafo no livro Êxodos.

“O impacto sobre a economia depende de fatores como duração do conflito e grau de envolvimento”, assinala Martin Kirsten, graduado e mestre em Ciências Econômicas pela Ufrgs e consultor na área de finanças. “O mercado começa a ter a leitura de que aquele país vai entrar numa espiral de aumento de gastos e vai pondo preço nessas coisas antes de acontecerem de fato”, avalia, referindo-se a conflitos mundiais em geral, cenário diferente de uma grande potência que não chega a ser afetada economicamente.

NA PRÁTICA

Longe dos gigantes ricos, o Haiti seria um dos países que poderia explorar o turismo em meio às praias desenhadas no azul do mar caribenho. Entretanto, “grupos criminosos controlam 90% da capital Porto Príncipe”, informou a ONU na quarta.

A violência de gangues piorou desde a renúncia do então premiê Ariel Henry em 2024. O Brasil chegou a liderar a operação de paz da ONU no Haiti, a Minustah, mas a tarefa realizada de 2004 a 2017 foi em vão.

Na mesma época da reorganização política, ONGs internacionais atuavam na reconstrução social. Lembro de ter entrevistado pesquisadores da Sociologia que viveram no Haiti. Na pequena população de 11 milhões, 10 mil ONGs se estabeleceram.

Tanta disposição de ajuda revelava desvio de verba. Enquanto filhos de famílias haitianas iam trabalhar no exterior para enviar dinheiro aos pais e aliviar a pobreza, a corrupção aplicava novo golpe e anos depois a violência se reapresentava.

Seja em economias frágeis ou em potências que engordam a atividade com venda de armas, o confronto é quase um ciclo, um vai e vem de populações em fuga, geralmente na base da pirâmide, pegando a estrada sem destino e sem saber se voltam a ter emprego ou moradia.