O consumo das famílias brasileiras cresceu 0,5% enquanto os investimentos caíram 2,2% no segundo trimestre. Esses dados estavam entre os muitos que foram divulgados recentemente, quando o IBGE informou o Produto Interno Bruto (PIB) do período de abril a junho. No principal resultado do indicador havia uma tímida alta de 0,4%, frágil se comparada com o avanço de 1,3% visto entre janeiro e março. Mas iniciei essa reflexão destacando especificamente as famílias consumindo mais e os investimentos minguando porque essa contradição é especialmente intrigante. Fico me perguntando se esse aumento de 0,5% no consumo não deveria naturalmente provocar mais investimentos por parte de empresas, atendendo assim a mais sonhos e projetos da população. Afinal de contas, nesse momento haveria demanda.
O desemprego está em patamares mínimos, 5,8% no segundo trimestre, menor nível em 13 anos. Com renda certa todo o mês o trabalhador se anima a gastar, o que explica a alta no consumo das famílias. Entretanto, de outro lado o que vimos foi uma baixa de 2,2% nos investimentos das empresas. Seria excelente, por exemplo, uma indústria incentivar esse ritmo de consumo da população lançando produtos novos e mais modernos, seja qual for seu ramo de atuação. Possivelmente essa “novidade” venderia bem em meio a um momento em que as pessoas compram mais. Só esquecemos um detalhe. A taxa de juros Selic está em 15% ao ano desde junho, e é ela que serve de base para cálculos de financiamentos. Sendo assim, aquele dono de fábrica que tinha pensado em tomar um empréstimo para modernizar processos e entregar um produto melhor para seu cliente acaba puxando o freio porque contratar crédito ficou muito caro. Resultado: ainda que as famílias estivessem ali prontas para consumir, a diminuição nos investimentos aconteceu. E se esse patamar de 15% no juro definido pelo Banco Central estava elevado desde a metade do ano, antes não era muito diferente porque de janeiro para cá a Selic já mostrava um nível acima dos 13% ao ano, um dos índices mais altos do mundo.
NA PRÁTICA
“A queda de 2,2% nos investimentos compromete resultados futuros. O PIB deste trimestre também indica desaceleração para novos trimestres. A taxa de investimento certamente é prejudicada pela Selic alta, não há investimento rentável com juro de 15% ao ano”, assinala Gustavo Moraes, economista e professor da PUCRS. “Imagina você abrir um restaurante, comprar um caminhão. Quinze por centro de retorno ao ano? Muito difícil”, assinala.
Recapitulando, no 1° trimestre, quando a Selic era 13% ao ano, o PIB cresceu 1,3%. No 2° a Selic foi a 15% e o PIB subiu 0,4%, somando R$ 3,2 trilhões. Lembrando, PIB é toda a riqueza produzida: indústria, comércio, serviços e agro.
A intenção do Banco Central (BC) mantendo o juro alto é segurar a inflação, mas o fato é que a escalada do consumo alimenta a subida de preços. O IBGE mostrou na quarta-feira, dia 10, que a inflação de agosto até desacelerou em 12 meses, mas segue acima de 5% e acima do limite da meta de 4,5% perseguida pelo BC.
Que bom que o desemprego está em baixa e há renda para gastar, mas investimento em queda afeta o crescimento, tanto que a previsão de alta do PIB para o fim do ano é de 2,16%. Para 2026, menos ainda: 1,85%.
