A inadimplência cresceu no país e o governo lançou um programa de renegociação de dívidas. O Desenrola 2.0, que teve a medida provisória assinada no início da semana, é uma espécie de reedição do Desenrola de 2023, no início do governo Lula. Com o objetivo de criar condições para que o consumidor pague seus débitos em atraso, os juros foram reduzidos e os descontos deverão ser de 65%, em média, sobre o valor original das dívidas de famílias, empreendedores, produtores rurais e estudantes que usaram o Fies. E esses descontos podem, inclusive, chegar a 90%. Tudo muito bom, mas enquanto descontos e prazos de até quatro anos de pagamento vão facilitando a reorganização da vida financeira da população, em outro extremo seguimos com um problema estrutural. A taxa de juros nas alturas é uma dificuldade que está na vida do brasileiro desde 2021 na história mais recente.
Em meio à emergência o trabalhador renegocia suas pendências no Desenrola, acerta as contas e volta a sonhar. Mas e aí? Do lado de fora do universo do programa, botar em prática um pequeno projeto de melhorias em casa ou de compra de um carro simples - muito útil e não um luxo para quem tem filhos pequenos - pode se transformar de novo em dor de cabeça caso seja preciso financiamento para isso. A taxa de juros Selic está em 14,5% ao ano, é uma das mais altas do mundo e é só um parâmetro para o cálculo de empréstimos. Se pensarmos que dentro do próprio Desenrola - que tem garantias e subsídios para baixar valores - a taxa é de “até” 1,99% ao mês, isso não é exatamente barato.
E quanto aos descontos, uma dívida, por exemplo, de R$ 10 mil que está atrasada e recebeu 80% de abatimento vai cair para R$ 2 mil. Entretanto, é bom lembrar que possivelmente aquele valor emprestado pelo banco no passado era bem menor que R$ 10 mil e só chegou a esse ponto porque os juros e a correção monetária foram inflando o débito. Resumindo, mesmo com desconto essa quantia pode significar uma prestação de mais de R$ 100 e um total de R$ 2,5 mil no final de, por exemplo, dois anos. Para quem ganha salário mínimo de R$ 1.621 é pesado do mesmo modo. Muitos perguntariam: mas o que fazer então? Deixar de renegociar e ficar com o nome sujo? Claro que não.
NA PRÁTICA
- É importante, sim, a oportunidade de negociar dívidas, mas é certo que o trabalhador vai precisar de crédito de novo, seja no cartão ou limite da conta corrente, principalmente se surgir emergência.
- Quando o governo federal reconhece que estuda renegociação para quem ainda não atrasou prestações nos bancos, fica clara a pressão que o juro alto exerce sobre a população.
- O Ministério da Fazenda admite que é preciso pensar também em quem ainda tem contas em dia, mas paga taxas bem maiores que essa de até 1,99% ao mês oferecida no Desenrola. O programa vai durar 90 dias. Que o consumidor aproveite para se organizar, mas por ora é melhor evitar ao máximo novos parcelamentos, porque a previsão é a Selic cair pouca coisa, 13% até o fim do ano, segundo o Boletim Focus do Banco Central. Cautela. Sempre bom.
