As cenas dos agricultores franceses escrevendo “Mercosul” sobre um caixão são fortes. Como se não bastasse, na semana anterior a imprensa internacional mostrou ruralistas despejando esterco, repolhos inteiros, galhos e lixo em frente à casa de praia do presidente da França, Emmanuel Macron. Tanta revolta é relacionada com o acordo União Europeia-Mercosul. O pacto foi tratado no final de 2024, passou por avaliações no Parlamento Europeu e agora falta assinar. Cresceram expectativas quando os dois blocos agendaram a assinatura na cúpula do Mercosul no último dia 20, mas com os protestos na França, ficou para janeiro.
Mais um pouco de ansiedade com a negociação que começou em 1999 e ainda não se consolidou, muito por causa da oposição de agricultores de lá, que não querem seus produtos concorrendo com itens que sairiam daqui para o bloco europeu. E o agro é um setor de muita força na França. Oscar Berg, gaúcho que é professor de Teorias da Democracia na Universidade Laval em Quebec, Canadá, e doutorando em Ciência Política na Universidade do Quebec, faz algumas observações sobre o tema.
“A França é o principal país agrícola da União Europeia em termos de área cultivada e de produto interno produzido pela agricultura”, enfatiza Berg. Entretanto, outro ponto abordado por Berg nos mostra que se pensarmos em pecuária especificamente, a França representa uma fração de 1,25% a 2% do total de produtos bovinos sul-americanos na União Europeia. Sendo assim, o barulho das mobilizações parece desproporcional, mas há muito mais questões entre o céu e a terra, como diria aquele ditado. “Não se esperava que a França fosse aprovar o acordo, mas ele poderia passar, mesmo com a França votando contra”, assinala Berg. Só que a França, para aumentar a oposição contra o Mercosul, lembra o professor, criou alianças com Itália e Hungria, países também desfavoráveis ao pacto. E é aqui que está o lado irônico da coisa. Macron vive agora sob pressão do partido Reunião Nacional (RN), de ultradireita e não só adversário de Macron, mas simpático aos governos da Itália e da Hungria e que venceu o primeiro turno das eleições legislativas na França. Embora não tenha chegado ao poder, a sigla amiga de Itália e Hungria incomodou no último pleito francês.
FRANÇA NO RADAR
O partido centrista de Macron seguiu no governo naquela eleição legislativa ocorrida no meio do ano. Apesar dos 33% de votos da ultradireita, esquerda e centro, com respectivos 28% e 20%, mantiveram no cargo o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, do centrista Macron, embora Lecornu tivesse pedido renúncia por conta de dificuldades em aprovar o orçamento. Além disso, o partido do governo ficou em terceiro lugar nas legislativas, o que gerou mais confusão.
E no meio desse entrevero francês de crises partidárias, orçamento e agricultores nas ruas estamos nós, sul-americanos, à espera do acordo UE-Mercosul. Lembrei agora de um pesquisador de Relações Internacionais que entrevistei faz alguns anos, e ele costumava dizer que decisões econômicas são antes de tudo políticas. Seguimos à espera da assinatura, e que venha janeiro.
