Cresce e aparece mundo afora o impasse ao redor dos preços dos combustíveis em razão da guerra no Oriente Médio. O governo do Rio Grande do Sul informou o uso de R$ 96,6 milhões de recursos do Orçamento para aderir à subvenção de R$ 1,20 no diesel, o que envolve governo federal e estados, sendo R$ 0,60 a parte estadual. A adesão, temporária, deve reduzir prejuízos. Do diesel depende quase tudo: a carga levada de um ponto a outro, o transporte no ônibus para chegar ao trabalho e por aí vai. Agora, temos outro capítulo: o querosene de aviação, o chamado QAV, reajustado em 54% para as refinarias. Uma das propostas da Petrobras é fracionar o aumento. Na edição anterior da Economia Simples o engenheiro eletricista Odilon Francisco Pavón Duarte falava sobre alternativas ao óleo, como as energias elétrica, solar e eólica. A transição para frotas elétricas de ônibus e caminhões diminuiria a vulnerabilidade no abastecimento, mas essa mudança exigiria reforço nas redes de distribuição urbanas e investimento massivo em armazenamento de energia. Ainda há muito trabalho pela frente, mas já se veem iniciativas nesse sentido. Já para o transporte aéreo a coisa muda de figura. Quais seriam as opções para abastecer aeronaves além do QAV?
“A alta de 54% no querosene de aviação expõe a fragilidade estrutural de um setor que depende quase integralmente de um único combustível fóssil e cuja transição energética avança muito mais devagar do que em outros modais”, enfatiza Pavón Duarte. “A aviação sempre operou com margens estreitas e altíssima sensibilidade ao preço do combustível. Quando o QAV sobe 54% não há mágica: as passagens sobem, a demanda retrai e o setor entra em modo defensivo”, acrescenta o engenheiro. “A aviação ficou dependente demais de um único combustível e de uma cadeia global vulnerável, enquanto outros setores, como o transporte urbano, já iniciaram movimentos concretos de diversificação energética”, compara. Além do QAV haveria o SAF, o combustível sustentável de aviação, mas é um produto ainda insuficiente em volume e custa caro. Duarte lembra que a Petrobras já produz SAF certificado, mas a oferta ainda é limitada e depende de políticas públicas para maior produção. “A tecnologia existe, mas o mercado ainda não”, observa.
NA PRÁTICA
- Se o QAV já é calculado em R$ 5,50 o litro para a refinaria depois dos 54% de aumento, o SAF, o combustível sustentável, custa entre R$ 10 e R$ 25 o litro, explica o engenheiro Pavón Duarte. E ainda: a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), lembra ele, define que a partir de 2027 o Brasil precisará cumprir compromissos ligados às metas climáticas e o SAF é um desses compromissos.
- O reajuste de 54% no QAV, avalia o engenheiro, pode funcionar como “um empurrão” para a busca de novas soluções.
- “No transporte urbano a transição energética exigiu redes de recarga, novos modelos de financiamento, políticas públicas e padronização tecnológica. A aviação terá de passar por algo semelhante, mas em escala global e com exigências de segurança muito maiores”, alertou o engenheiro.
