Juro alto segura consumo?

Selic ainda está em patamar elevado e penaliza quem precisa de crédito para comprar até comida

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu sobre a taxa básica de Juros Selic na última quarta-feira, 5 de agosto. Baixou de 14,25% para 14% ao ano. É verdade que reduções vêm sendo feitas desde março, quando a taxa estava em 15%, nível recorde. Mas aqui entre nós, 15% ou 14%, o patamar ainda é um dos maiores do mundo, e é ele que serve de base para qualquer operação de crédito, seja a compra de uma roupa no cartão, um empréstimo para reforma da casa ou o financiamento de um carro.

O noticiário nos conta o tempo todo que é preciso manter a Selic nas alturas porque se o juro baixa muito o crédito fica fácil e o povo sai comprando, o que agravaria a inflação, já que muita procura aumenta preços. É isso mesmo? Até certo ponto, porque em algumas camadas o cenário é mais difícil. Para o trabalhador de baixa renda crédito não é ponte para realizar sonhos. É necessidade.

Na classe média a compra do carro novo e a reforma da casa ficam para depois e tudo bem, mas nas famílias mais pobres a fralda e o leite vão depender do uso do cartão em algum momento, e é justamente por isso que o juro alto penaliza quem mais precisa. “Para muitas famílias, especialmente as de faixa de renda menor, o crédito deixou de ser instrumento para antecipar consumo e passou a desempenhar um papel importante na administração do orçamento”, afirma Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian.

“Ao mesmo tempo, as instituições financeiras seguem bastante cautelosas na concessão, refletindo um ambiente de inadimplência que é bastante elevado”, acrescenta.

Sim, a inadimplência invade as casas. Entre a população adulta, 50,9%, mais da metade, estão com o nome negativado, segundo a Serasa. E ontem a pesquisa da CNC mostrou recorde de endividados: 82%. Aquele mesmo trabalhador que precisa do cartão de crédito para comprar itens de necessidade imediata com uma taxa elevada, logo, logo vai ter esse crédito cortado porque na primeira dificuldade que impedir o pagamento total da fatura, a taxa do rotativo vai fazer estragos. E assim vai pelos ares o pouco de solução que haveria naquela família para gastos que o salário não aguenta ao longo do mês. “O crédito deixou de ser impulsionador do consumo para se tornar cada vez mais instrumento de gestão do orçamento doméstico”, reitera a economista.

NA PRÁTICA

  • O consumo de bens duráveis como eletrodomésticos e eletrônicos até pode diminuir entre a classe média se as taxas para financiar esses itens estiver alta. Mas para os brasileiros que sobrevivem dentro da média de dois salários mínimos mensais, a fatura do cartão vem com gastos bem mais simples como comida e remédios, e na baixa renda qualquer imprevisto pode impedir esse pagamento em dia e trazer transtornos para novas compras.
  • O Mapa do Crédito da Serasa mostra que parcelar compras é rotina para 119 milhões de brasileiros: fatia de 57% da população usa crédito com frequência e para 48% esse crédito é indispensável no dia a dia. Em ano de eleição não tem jeito. Soluções para a redução dos juros vão ter que aparecer com bastante destaque em qualquer programa de governo.

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