Limpeza pós-Carnaval

Caminhões e batalhões de funcionários de prefeituras perdem horas na tarefa

O Brasil viveu sua festa mais popular essa semana, mas as lembranças da boa música e da animação do Carnaval não são as únicas. Na manhã seguinte às festas as equipes de limpeza precisam se desdobrar para recolher todo o lixo espalhado. A cena é parecida em qualquer lugar, principalmente capitais. Caminhões e batalhões de funcionários das prefeituras passam horas nessa tarefa, mais pesada no Centro do país. O noticiário reportou que São Paulo teve mais de 300 toneladas recolhidas. No Rio de Janeiro, mais de 80 toneladas só no Sambódromo.

Uma mudança de comportamento seria pedir muito? E o que mais dói é que lixo é sustento e ganho financeiro. Recolher toda essa tralha jogada sem critério nas ruas torna muito mais difícil a correta separação, o que prejudica não só quem faz esse recolhimento, mas o meio ambiente. No Centro de Porto Alegre mesmo, enquanto as pessoas bebem sua cerveja ou refrigerante, não seria exatamente um sacrifício colocar essas garrafas e latas nos contêineres de material reciclável, disponíveis a cada meia dúzia de passos. Mesmo assim, sacos e copos ficam espalhados.

EMBALAGENS

Faz tempo que bato nessa tecla e já citei em outros momentos o livro “Condição Pós-Moderna” de David Harvey. Numa edição de quase 30 anos atrás o autor já analisava que à medida que o lixo se acumula, relações se perdem. Famílias já não conseguem alinhar agendas para fazer refeições juntas, e em horários que nunca combinam cada um chega da rua trazendo uma embalagem com comida. Multiplicam-se caixas e bandejas enquanto momentos de cumplicidade encolhem. E o pior, convivo com amigos que nem lembram que reciclado existe e já frequentei restaurantes que cometem o mesmo erro: misturam lixo orgânico e seco.

As notícias que vêm do Japão são outras. Por lá não há nem lixeiras nas vias. É verdade que comer na rua não é costume, mas em eventual lanche fora de casa aquele povo educado já se prepara levando sacola na bolsa para descartar os pacotes depois em local adequado. E outra: quem deixa lixo no chão é multado e descartes errados de itens grandes como eletrodomésticos podem resultar até em prisão.

NA PRÁTICA

  • Porto Alegre adotou a coleta seletiva há 35 anos. A cada dia são recolhidas das residências mais de 1.200 toneladas de resíduos, e desse total mais de 73 toneladas são recicláveis. O restante vai para aterro sanitário, mas a questão é que esse material que vai para o aterro teria ainda 500 toneladas com potencial de reciclagem.
  • Sempre lembrando: na lista do lixo a ser separado entram plásticos como garrafas pet, papel, papelão, latas de alumínio e vidros, sejam potes ou garrafas.
  • Por que ainda é tão difícil absorver uma cultura depois ter sido adotada há décadas? Repetindo, separação de lixo é receita e é dinheiro. A solução talvez seja aumentar a fiscalização e reforçar a aplicação do Código de Limpeza, que prevê multa para quem descarta resíduos nas ruas. Está mais que na hora de aprender.