Novas 'fases' no comércio global

Após pausa de 90 dias, períodos de negociação vão se desenhando

Anúncios de sobretaxas levaram impacto aos mercados financeiros do mundo todo
Anúncios de sobretaxas levaram impacto aos mercados financeiros do mundo todo Foto : Hector RETAMAL / AFP / CP

A iniciativa de um governante de proteger a produção de seu país aplicando taxas de importação sobre aquilo que é vendido por outras nações não começou “ontem”. A prática é antiga, mas raras vezes provocou tanta agitação. O quadro desta semana que se encerra mostrava bolsas e empresas perdendo valor em quase todos os cantos do mundo em razão do aumento de tarifas por parte do governo dos Estados Unidos. E no final das contas foi o próprio produtor ou fabricante norte-americano que se viu desprotegido ao perceber que peças e insumos que precisaria comprar, por exemplo, da China, para confeccionar seus produtos, ficariam mais caros com os novos percentuais. As taxas para a China chegaram a 125% mais 20% aplicados no âmbito do combate ao fentanil. O país asiático revidou afirmando que lutaria “até o fim”. O desgaste só crescia com o presidente Donald Trump enfatizando “falta de respeito”. Horas depois, porém, Trump se referiu ao presidente chinês Xi Jinping como “um cara inteligente”. “Gosto dele, é meu amigo, e acho que chegaremos a um acordo”, arrematou.

A aparente “disposição” de Trump de negociar com a China, e também com outros países como os da União Europeia, tem particularidades. O economista Martin Kirsten, especializado em macroeconomia, acredita que o ciclo americano está se esgotando. “A economia americana está há muitos anos num crescimento bastante robusto. Há toda essa onda de empresas de tecnologia, mercado de trabalho aquecido. Eles (EUA) viraram o epicentro do progresso tecnológico global junto com a China. E agora a curva está se invertendo. Já não conseguem mais sustentar um crescimento tão grande, o mercado de trabalho vai começar a dar sinais de desaceleração com essas políticas que são inflacionárias”, prevê. Se os produtores americanos precisarem pagar tão mais caro por aquilo que importam para continuar fabricando seus itens, a inflação viria a galope e o Fed, o “BC” americano, ficaria sob o dilema de não poder baixar juros para conseguir segurar preços. “Isso colocaria a economia americana num cenário com baixo dinamismo”, reforça Kirsten.

NA PRÁTICA

As taxas de importação impostas pelos Estados Unidos à China superam os 100%, mas para o Brasil a regra é diferente: 10%, como é o básico estabelecido para itens vendidos por países parceiros, além de 25% no aço e alumínio. Apesar da pausa de 90 dias anunciada por Trump nas tarifas, conversas com Washington estão previstas pelo governo brasileiro.

Mas e os vizinhos dos norte-americanos? Canadá e México também foram tarifados, ainda que determinados produtos do acordo de livre comércio não entrem na dança.

“Até mesmo os carros que já são montados nos EUA necessitam, e continuarão a necessitar, do aço e do alumínio importados do Quebec e de peças manufaturadas em Ontário e no México”, diz Oscar Berg, doutorando em Ciência Política na Universidade do Quebec, Canadá.

O índice de volatilidade nas bolsas do mundo explodiu nos últimos dias. Costurar acordos planeta afora promete ser tenso e intenso. “Xi Jinping (presidente chinês) é meu amigo”, afirma Trump. Se essa “amizade” servir para apaziguar a guerra comercial, já estaria de bom tamanho.