Enquanto na COP30, no Pará, os participantes discutiam possíveis soluções para as consequências da mudança climática, desastres se espalham pelo planeta. Relembrando, não faz um mês que o furacão Melissa levou estragos à América Central. Dias atrás um tufão arrasou as Filipinas. E se nesses lugares sofrer com essas tempestades já é “rotina”, essa rotina vai pesando mais a cada dia porque os fenômenos se mostram mais violentos. A essa altura alguém já se pergunta o que isso tem a ver com economia. Tudo. E trazendo um exemplo para mais perto, daqui da nossa região Sul, os prejuízos em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, eram calculados em R$ 114,5 milhões depois do tornado. Para quem teve o alívio e a felicidade de ver todos a salvo na família e na vizinhança, ainda assim é preciso encarar o fato de que mais de 1,5 mil casas desapareceram de uma hora para outra na cidade, e essa sensação de “vida em suspenso” vai levar muito tempo até que tudo se reconstrua.
Triste é lembrar que antes eventos tão violentos não eram constantes no Brasil. Agora, imagine já ter na rotina há décadas os desastres climáticos, como no caso do Caribe, e perceber que ao longo dos anos tudo se torna mais devastador. Falei faz poucos dias com o Werner Garbers, jornalista, pesquisador e especialista em estudos literários que é diretor do Instituto Brasil-Haiti e mora em Porto Príncipe, a capital haitiana. Ele vive por lá desde 2012, ano do grande terremoto. Mais recentemente o furacão Melissa se popularizou pelos estragos que fez na Jamaica, mas passou também pelo Haiti a 300 km/h. “Aqui sentimos mais os ventos”, relembra Garbers, ressaltando que as chuvas não chegaram a causar enormes enchentes, mas mesmo assim o Melissa deixou 43 mortos. Garbers acredita que essa quantidade de vítimas seja maior porque o país vive uma guerra civil, o que dificulta a contagem.
Além de tudo que é preciso recuperar sempre que uma tempestade avança, o Haiti é uma nação pobre, e nas famílias, os filhos ainda adolescentes partem para outros países para estudar e trabalhar e mandar dinheiro para os pais. Essa prática de enviar recursos de fora, a chamada “diáspora”, sustenta 22% do Produto Interno Bruto (PIB) haitiano. Falando não só desse ponto específico, mas de toda uma cultura, Garbers lembra que o Haiti é um país “solidário e construtivo”. Virtude que se não existisse, essa população possivelmente não estaria lá hoje.
NA PRÁTICA
A expressão “diáspora” é relacionada com a dispersão de um povo de modo forçado em razão de conflitos, guerras ou fenômenos do clima. E no Haiti, para quem se aparta da terra natal, fica o compromisso de ajudar os outros. O valor de 1 gourde, a moeda local, equivale a 0,0076 centavos de dólar, segundo conversores. Filhos que mandam, por exemplo, 100 dólares para casa, sustentam a família.
As dificuldades financeiras e econômicas se acumulam quando o aquecimento global vai mostrando as garras e derrubando tudo com ventos de 300km/h, principalmente em países pobres como alguns do Caribe. E mesmo em economias mais sólidas como na América do Norte, em países da Ásia ou no Brasil, os desafios sopram cada vez mais forte. Como foi dito essa semana na COP30, o aquecimento global já ultrapassou seu limite seguro.
