O dólar e o piso psicológico

Cotação ficou nos R$ 4,99 por quatro dias seguidos

A agitação toda em volta do câmbio essa semana trouxe uma expressão que marcou o noticiário. O dólar que vinha cotado ao redor dos R$ 5 e mais alguns centavos nos últimos meses abriu essa semana valendo menos. Por quatro dias seguidos ficou na casa dos R$ 4,99. A moeda americana “rompeu o piso psicológico” ao ficar abaixo de R$ 5, menor valor em mais de dois anos. Pois então, se a expressão da semana foi o “piso psicológico”, nada melhor que ouvir um psicólogo especialista em investimentos com certificação pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Nicolas de Oliveira Cardoso diz que os comentários vistos no mercado ao redor dos R$ 4,99 são provas de que “a economia não é feita apenas de números, mas de como nós os percebemos”.

Quando há algumas semanas a tensão relacionada ao conflito no Oriente Médio se mostrava mais “pesada”, o investidor puxava o freio nos negócios mais arriscados como as ações e se protegia comprando moeda, movimento que encarece o dólar. Entretanto, depois que sinais de negociações na guerra entre Estados Unidos e Irã começaram a surgir, a procura por dólares como refúgio nos negócios perdeu ritmo e o preço baixou.

O economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS Gustavo Moraes lembra que a valorização do real nesse momento se deve, entre outros fatores, a um mundo onde há conflitos e insegurança, e o Brasil acaba se tornando um país capaz de atrair capital. “Você tem que fazer operações dentro da economia brasileira, comprar moeda brasileira, e isso valoriza o real”, reitera. Moraes também lembra que o mercado brasileiro nos últimos anos, 2024, 2025, esteve desvalorizado e que as empresas brasileiras mostravam um valor de bolsa abaixo do que deveria ser. “Posso ter um valor como empresa, mas daqui a pouco posso ter poucos compradores por eu estar num ambiente econômico visto como ruim, e foi o que aconteceu nos anos de 2024 e 2025”, afirma. “Nesse período os mercados mundiais se valorizaram, o mercado brasileiro estava subvalorizado e agora as ordens se invertem. O mercado lá fora se desvaloriza e então isso atrai capital”, observou. É esse movimento que também ajuda a valorizar o real.

NA PRÁTICA

As percepções mudam, sim, mas a realidade é que ainda temos um câmbio que nos mostra uma moeda quase cinco vezes menor frente à divisa que dita os negócios no mundo. E mais do que isso, o economista Gustavo Moraes enfatiza que há um ponto de resistência estabelecido para a cotação, na faixa dos R$ 4,97. “Bate em 4,97, aparecem compradores. O ponto de resistência é o ponto máximo que os investidores começam a perceber como ponto arriscado de se manter uma posição melhor. No jargão do mercado é melhor realizar o lucro que você já teve a arriscar-se a movimentos de desvalorização”, analisa. De fato, ao longo das sessões de câmbio a chamada “mínima”, ou seja, o menor preço verificado no dia, independente do valor de fechamento, tem ficado nos R$ 4,98. Seguimos acompanhando os próximos capítulos.