O juro e os caminhos possíveis

Um dos temores é que desaquecimento econômico impacte na geração de empregos

Copom decidiu manter a Selic em 15% na última reunião
Copom decidiu manter a Selic em 15% na última reunião Foto : Leonardo Sá / Agência Senado / CP

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) manteve, nesta quarta-feira (17), a taxa básica de juros em 15%. Essa decisão é importante porque a Selic serve de base para empréstimos, financiamentos e outras operações de crédito. Há meses o juro já vinha em alta, tinha subido para 15% em junho e nada de recuar.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fez críticas a esse patamar, prevendo até que a criação de empregos poderia desacelerar. Se no ano passado, quando a Selic marcava 13%, 14%, já era considerada uma dos maiores do mundo, agora pior ainda. Marinho previu que, em função dessa escalada, a criação de empregos não deverá ser tão boa quanto no ano passado. Ele estima que até o final de 2025 teremos 1,5 milhão de postos de trabalho gerados, um número menor que o total de 1,7 milhão apurado em 2024.

A criação de vagas que o ministro cita é o chamado saldo de empregos do Caged. Quando há mais pessoas contratadas do que demitidas esse saldo é positivo. E no ano passado o Brasil teve 25,6 milhões de contratações, mais que os 23,9 milhões de demitidos, o que resultou no saldo positivo de 1,7 milhão de postos. Pensar agora em 1,5 milhão é retrocesso.

Com o juro alto, o empresário pensa duas vezes antes de pegar empréstimo caro para tocar um novo projeto. Com isso, novas contratações que poderia fazer na empresa para colocar em prática essas melhorias acabam não acontecendo. Essa seria uma das explicações para a previsão de menos vagas de empregos criadas.

E se olharmos o último levantamento do PIB, os investimentos das empresas diminuíram 2,2%. Selic em alta, investimento em baixa. E sabe o que mais? O economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Oscar Frank, lembra que quando o juro está elevado há competição desleal. “Quando a Selic sobe, ponho dinheiro para render. Quando a Selic cai, tenho que buscar rentabilidade e empreender”, exemplifica. Sim, aplicações remuneram melhor quando o juro está alto, e assim a baixa nos investimentos físicos das empresas também é relacionada com o mercado financeiro.

Na prática

  • Com uma taxa de juro elevada por muito tempo, o resultado é a população consumindo menos para não se perder em compras a crédito. E se as empresas também não planejam expansões por temer financiamentos caros, contratações de trabalhadores acabam igualmente comprometidas, o que, de novo, está relacionado à previsão do ministro do Trabalho sobre menor criação de empregos neste ano com a Selic nas alturas.
  • O consumo, no entanto, cresceu, segundo dados do PIB do IBGE. O movimento, diz Oscar Frank, é relacionado com desemprego abaixo de 6% e com políticas públicas adotadas.
  • “O governo estimulou a demanda com valorização do salário mínimo, crédito consignado para o trabalhador com novas regras desde março, Pé de Meia, Gás para Todos, ampliação no Minha Casa, Minha Vida”, exemplifica o economista.
  • Até o final do ano não se espera grande corte no juro. A aposta está no ano que vem, já que a edição mais recente do Boletim Focus do Banco Central reduziu a previsão, estimando a Selic em 12,38%, um pouco menos que os 12,5% projetados até então para 2026. Cabe aqui outra observação de Frank: “Mercado de trabalho aquecido e incentivos evitam cenário pior”.

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