Dias tensos marcam o cenário mundial. Como se não bastasse a Europa em polvorosa há três anos com o confronto Rússia-Ucrânia, no Oriente Médio, Israel e os radicais do Hamas completaram dois anos de embate. E o Irã? Outra guerra se formou duas semanas atrás, quando Israel fez o primeiro ataque e logo depois os Estados Unidos entraram na briga para destruir usinas iranianas que teriam material para fabricar a bomba atômica. A agência da ONU que fiscaliza tudo isso não bate o martelo sobre o urânio produzido por lá ter fins militares, e a própria República islâmica nega esse objetivo, embora um acordo sobre o programa nuclear esteja difícil de acontecer. Conflito vai, conflito vem, para além da destruição das vidas das pessoas com bombardeios que atingem casas de famílias, hospitais, escolas e qualquer outra coisa que lembre um dia a dia “normal”, o dinheiro que vai pelo ralo é gigante. E é a economia que vai precisar de conserto depois que tudo terminar e os escombros estiverem ali, pedindo reconstrução.
Agora, na última quarta-feira, 32 países fecharam acordo para gastar mais com defesa até 2035. Entre essas nações está a Alemanha, com Produto Interno Bruto (PIB) estimado em quase 5 trilhões de dólares. Cada país deverá usar 5% de seu PIB com defesa. No exemplo alemão, o valor seria de 250 bilhões de dólares ou R$ 1,3 trilhão. O pacto foi feito na Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar da Europa e da América do Norte.
Hoje o gasto com defesa dos países da Otan é de 2,5% do PIB, em média, mas os conflitos e a pressão do presidente americano Donald Trump levaram à decisão que dobra índices. Será que essas quantias fabulosas não teriam mais serventia se aplicadas em educação e saúde? No cenário ideal e se o mundo não estivesse tão “nervoso”, sim, mas no mundo real o panorama é esse: os gastos militares com armas tiveram aumento recorde em 2024, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. O valor de 2,7 trilhões de dólares apurado no ano passado subiu 9,4% ante 2023, a maior alta desde 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim.
NA PRÁTICA
Gustavo Moraes, economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS, lembra que as guerras geram receita em países como EUA. “É um show room de capacidades armamentistas. Demonstrar o sistema de aviação, de mísseis. Isso faz parte de um aspecto de show room, há um cinismo no contexto”, avalia, mas não sem enfatizar que essa indústria que move 2,7 trilhões de dólares por ano, ou R$ 15 bilhões, também traz novas tecnologias e inovação. “Basta dizer que a Internet era um produto militar, e a partir do início da década de 1990 passou a ter aplicações civis”, recorda Moraes.
Sobre nações comprometerem orçamentos nas guerras, os EUA representam exceção porque a condição de primeira economia permite gastos sem maiores cortes em outras áreas. Ainda assim, parlamentares americanos divergem sobre o tema.
“A indústria militar cresce, gera empregos nesse ramo, mas a economia perde quando se destinam recursos que poderiam ir para outras atividades”, avalia o economista Jorge Ussan, professor da Fadergs.
Equação difícil? Se pensarmos que em alguns lugares em conflito não chegam nem comida e nem água, a guerra custa caro. E a paz, então, é caríssima.
