Economia Simples

Salário e aumento real

Cálculo do reajuste e efetivo ganho estão relacionados com taxa de inflação

Anos atrás, um convite para uma jornada acadêmica de uma universidade pública no Interior do Estado trazia desafios: levar a uma turma de 35 estudantes de Comunicação conteúdos sobre jornalismo econômico. O trabalho com os alunos começou com tópicos sobre inflação, assunto que a colega Karina Reif detalhou aqui na edição anterior. Indagados sobre o que conheciam sobre indicadores de preços, cabecinhas viravam para um lado e outro, procurando o colega que responderia sobre o tema. IPCA? IGP-M? INPC? Depois de leve apreensão, risadas. Os jovens rostos expressando surpresa pouco a pouco mudavam o olhar para o uso prático da coisa toda, e outra curiosidade tomava conta daqueles que já conciliavam estudos e emprego: aumento “real" de salário. A expressão também tem a ver com inflação.

Naquele grupo de estudantes, alguns já viviam as primeiras experiências na vida profissional e novas dúvidas surgiam. Para quem trabalha com carteira assinada, dependendo da profissão, há o sindicato de empregados que negocia com os empregadores os interesses da categoria quanto ao salário, vale-refeição, plano de saúde e outros pontos. Se, por exemplo, o pedido de reajuste for de 6% e a inflação daqueles últimos 12 meses desde o aumento anterior for de 4%, dos 6% pedidos, os 4% servem só para repor a inflação que engoliu o salário. Os dois pontos percentuais que sobram significam o ganho real. Postas na mesa as propostas, assembleias são organizadas para que os trabalhadores votem e decidam se aceitam ou não o aumento sugerido.

Então, lembrando de novo a oficina com os alunos naquela universidade anos atrás, outra pergunta surgia: como saber de onde tiram esses “tantos por cento” que são pedidos de aumento? Para isso é preciso usar um índice de inflação que vai servir para calcular o reajuste do salário. Em grande parte das profissões o índice de aumento proposto é baseado na inflação do INPC. Mas por que este indicador? Porque estaria mais próximo da maioria dos trabalhadores por causa da faixa de ganhos usada no levantamento.

Na prática

Sobre INPC: o IBGE mede a variação de preços para famílias que ganham de um a cinco salários mínimos. A maioria dos brasileiros vive nesta faixa, e aí está a razão de o indicador ser usado para definir aumentos.

O cálculo a partir do INPC deve ser capaz de corrigir o poder de compra, “medindo variações da cesta de consumo da população assalariada”, detalha o IBGE.

“O INPC é referência para efeitos de inflação, custos e tudo mais”, afirma Amarildo Cenci, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no RS.

Atualmente, o valor do salário mínimo dos brasileiros é de R$ 1.412 por mês.

A renda média per capita (por pessoa) no país é um pouco maior: R$ 1.848, conforme informa o IBGE.

Se pegarmos este ganho médio de R$ 1.848 e imaginarmos, por exemplo, uma casa de uma família composta por pai, mãe e um filho adulto, cada um deles ganhando esta média, o valor somaria R$ 5.544 e ainda estaria abaixo da faixa de cinco salários mínimos de R$ 1.412, que resultam em R$ R$ 7.060.

Para efeitos de aumento, as propostas levadas todo ano por trabalhadores a empregadores são calculadas pelo INPC justamente porque os salários com carteira assinada estão mais perto dessa realidade.

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