Desprender-se

Desprender-se

Por
Alina Souza

Cada dia da quarentena é como uma folha em branco.


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Frente à reclusão, temos sempre um ponto de partida. Neste período em casa, passei a ouvir melhor as vozes dentro de mim e a encontrar novidade mesmo quando as notas da melodia não variam. Faço ligações com mais frequência para os meus pais, sem que haja um fato novo para contar. Tão somente para escutá-los. Amá-los. Com a urgência que percorre a corrente sanguínea e supera a sombra da melancolia. Cada dia em isolamento nos aguarda tal qual uma folha em branco à espera de algo pleno que preencha sua extensão. Ela observa, confronta, revela que só nós podemos ser autores do hoje e fazermos a diferença na sequência de páginas parecidas. A folha em branco nos responsabiliza, propõe contra-atacar o medo da monotonia. Dependerá da força de vontade escolher entre tecer um conteúdo profundo ou apenas palavras repetidas. Dependerá da sensibilidade e da coragem entregá-la intensa, autêntica ou ainda incompleta, vazia.