Dissolvida
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Dissolvida

Por
Alina Souza

Chuva em Porto Alegre.

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Encontro a calma quando o tempo pesado, abafado, dissolve-se em gotas de chuva. Abranda a atmosfera densa, tensa, deveras intensa. Passeio em pensamentos e toda a estridência de outrora torna-se fluida. As nuvens destilam o furor reprimido, pouco a pouco esvaziam-se, desfazem-se, abrem espaço para o sol brilhar no dia seguinte. A água reaviva os tons desbotados, a natureza inspira, respira. Luz suave, paisagem sem sombras, devaneios soltos. Algumas poças interrompem o caminhar apressado, subitamente espelham a imagem de nós mesmos, revelam identidades líquidas. Guarda-chuvas e sombrinhas com diferentes estampas enfeitam a multidão como um mar de ondas coloridas. Alegria inesperada. Se fossem todos os dias ensolarados, as expectativas e os desejos silenciariam, não sentiríamos a falta, o contraste, a saudade. Necessária pausa, profundo verso no inverso da folha. Vivemos dentro de ciclos, escorrem as instabilidades tal qual o alívio de uma lágrima incontida, que liberta o tempo e nos desanuvia.

Texto e fotos: Alina Souza