Há um Século no CP

A alteração da lei eleitoral e o nº 2 do fascismo italiano

A edição do dia 17 de fevereiro de 1925, terça-feira, edição n. 41, noticiava

As maquinações fascistas prosseguiam na Itália e Mussolini conseguia uma decisiva alteração na lei eleitoral que aumentava seu controle sobre o processo democrático, que se fragilizava a olhos vistos. Enquanto isso, um obscuro membro do partido ascendia a segundo na hierarquia fascista: Roberto Farinacci representava a ala mais extrema de uma ideologia já radicalizada
As maquinações fascistas prosseguiam na Itália e Mussolini conseguia uma decisiva alteração na lei eleitoral que aumentava seu controle sobre o processo democrático, que se fragilizava a olhos vistos. Enquanto isso, um obscuro membro do partido ascendia a segundo na hierarquia fascista: Roberto Farinacci representava a ala mais extrema de uma ideologia já radicalizada Foto : CP Memória

“Na sessão de hoje do Senado, que foi presidida pelo Sr. Tittoni, iniciou-se a discussão da lei eleitoral. Os debates começaram de forma violenta.

O discurso do sr. Abbiate — O senador Abbiate, em discurso de oposição, declarou que a readoção do antigo sistema significava um retrocesso em face de todas as nações progressistas, que já implantaram a votação proporcional. Acrescentou que não era possível discutir o assunto quando a liberdade de imprensa estava coarctada e terminou sua oração no meio de interrupções, sendo muito aplaudido e felicitado. Em seguida, falou o senador Ruffini, que pronunciou outro longo discurso de oposição à lei, dizendo que ela colocaria o povo italiano na situação de uma inferioridade política, se porventura fosse aprovada. [...]

A aprovação secreta — O Senado aprovou, em escrutínio secreto, por 214 votos contra 58, o projeto de reforma da lei eleitoral que determina a volta ao sistema do voto uninominal.

“A votação, no Senado, da lei eleitoral foi secreta, ficando porém evidente que muitos senadores dos partidos de Giolitti, Orlando e Salandra votaram a favor do governo. [...]

O fascismo e a situação — O deputado Farinacci, recentemente nomeado secretário geral do ‘fascismo’, declarou que sua nomeação, em consequência da situação política do país, era também um aviso amigo de que o ‘fascismo’ vai cumprir o seu programa dentro dos seus princípios originais. ‘É necessário — disse — que a nova campanha eleitoral seja combatida com as armas do puro idealismo com que sempre conquistamos as posições.’ O novo cargo dá ao sr. Farinacci todos os poderes antes exercidos por um diretório composto de seis membros, sendo ele portanto a primeira personalidade do partido depois de Mussolini. O sr. Farinacci é geralmente apontado como responsável pelas últimas medidas de arrocho contra a imprensa e as associações políticas, ficando assim o ‘fascismo’ insulado por outros partidos. E a decisão dos liberais, recentemente adotada para destruir as suas últimas ligações com o sr. Mussolini, remata essa obra da nomeação do sr. Farinacci, que é considerada, portanto, como um ato de lógica partidária.

Roberto Farinacci (1892-1945) foi dirigente do Partido Nacional Fascista e o principal incentivador das ideias antissemitas do regime. Era considerado também intransigentemente xenófobo e anticlerical. Farinacci liderou a ala mais radical do partido fascista, sendo considerado por Mussolini demasiadamente violento e irresponsável. Durante a Segunda Guerra apoiou com entusiasmo os aliados nazistas. Foi julgado por uma corte partigiana e executado por fuzilamento na praça principal da cidade de Vimercate (próxima a Milão) em 28 de abril de 1945.

Contágio ocular?

“A epidemia da influenza continuando assustadoramente, o médico militar dr. Lindop, tratando do assunto no ‘British Medical Journal’, diz que a propagação da influenza se transmite pelos olhos e aconselha a população a usar grandes óculos nas viagens e a evitar de absorver germens transmitidos pela tosse.”

Feijão aristocrático

“O feijão, o modesto feijão preto, está a fazer uma revolução nas leis econômicas, assumindo altitudes verdadeiramente tirânicas. Não há muitos dias, a democrática leguminosa gritava terrivelmente contra o Comissariado de Alimentação, que, no seu zelo de baratear a vida, a reduzira a um preço degradante. Então, o saboroso alimento contava-se a oitenta mil réis o saco. Por tal preço, já a feijoada era evidentemente um prato respeitável e pouco acessível, sem contar, naturalmente, com o acréscimo [...] de todos os ingredientes sem os quais não há feijoada possível. Mas tal foi a grita que o Comissariado abriu mão das requisições. O feijão teve o seu dia de liberdade: emancipou-se. Apenas sentiu-se livre, o retraído ‘phaseolus’ [...] elevou-se às alturas de noventa e cinco mil réis o saco. [...]”

Líder rebelde

“Corre insistentemente a notícia, ainda não confirmada, de haver Abd-el-Krim falecido em consequência de ferimentos que teria recebido. — N. da R. Positivamente, uma nuvem de infelicidade está eclipsando a estrela dos chefes mouros no protetorado africano da Espanha, os quais se acham em posições opostas: Abd-el-Krim é o chefe da insurreição, o inimigo feroz da Metrópole; Raisuli estava aliado à Espanha, governador que era da parte ocidental. Dias atrás, o Raisuli era desalojado do seu domínio legal, em Tasarut. Chegou-se a anunciar a sua morte, o que não se confirmou. Agora, é a vez de Abd-el-Krim, embora a notícia ainda não esteja confirmada.”

Abd el-Krim el-Khattabi (1882-1963) liderou as tribos berberes da região montanhosa do Rife, no norte do Marrocos, contra o domínio colonial espanhol na Guerra do Rife (1921-1926). Utilizando táticas de guerrilha — inspirando líderes posteriores como Ho Chi Minh, Mao Tsé-Tung e Che Guevara —, teve sucesso em estabelecer um estado independente durante o conflito, a República do Rife. Com o apoio francês à Espanha a partir de 1924, Abd el-Krim foi derrotado e exilado pelos franceses na longínqua Ilha Reunião, no oceano Índico, até 1947.

O dia 17 de fevereiro na história

  • 1600 Morre em Roma executado pela Inquisição o filósofo, poeta e esoterista italiano Giordano Bruno.
  • 1673 Morre em Paris o dramaturgo, ator e escritor Molière.
  • 1753 A Suécia adota o calendário gregoriano, passando do dia 17 de fevereiro para 1º de março.
  • 1905 O grão-duque Serguêi Alexandrovich é assassinado em Moscou pelo revolucionário socialista Ivan Kaliáiev.
  • 1909 Morre em Oklahoma o líder e curandeiro do povo originário Apache, Gerônimo.
  • 1947 As Cataratas do Niágara, entre os EUA e o Canadá, congelam com o frio intenso.
  • 1949 Chaim Weizmann inicia seu mandato como primeiro presidente do Estado de Israel.
  • 1959 O primeiro satélite climático, Vanguard 2, é lançado para medições da cobertura das nuvens.
  • 1963 Nasce em Nova Iorque o ex-jogador de basquete Michael Jordan, considerado o melhor de todos os tempos.
  • 1964 O presidente do Gabão, Léon M’ba, é derrubado e seu rival, Jean-Hilaire Aubame, é empossado.
  • 1972 As vendas totais do Fusca superam aquelas do histórico Ford Modelo T, o primeiro automóvel de massa.
  • 1972 Nasce na Califórnia o músico e ator Billie Joe Armstrong, líder da banda Green Day.
  • 1973 Morre no Rio de Janeiro o compositor, maestro, flautista e saxofonista Alfredo da Rocha Vianna Filho, Pixinguinha.
  • 1979 Começa a Guerra Sino-Vietnamita; durará menos de um mês.
  • 1982 Nasce no Rio de Janeiro o ex-jogador Adriano “Imperador”.
  • 1982 Morre em New Jersey o pianista de jazz e compositor Thelonious Monk.
  • 1995 Guerra de Cenepa: Equador e Peru lutam em curto conflito junto à fronteira.
  • 1996 O russo Gary Kasparov vence o supercomputador Deep Blue em partida de xadrez disputada na Filadélfia.
  • 1997 Morre em Brasília o antropólogo, sociólogo, historiador e político Darcy Ribeiro.
  • 2008 O Kosovo declara independência da Sérvia.
  • 2011 Começam os protestos contra o regime de Muammar Gaddafi na Líbia durante a Primavera Árabe.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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