Há um Século no CP

A China contra os estrangeiros

A edição do dia 7 de junho de 1925, domingo, edição n. 134, noticiava

A situação na China ameaçava se precipitar para confronto aberto contra os estrangeiros a partir do território internacional de Xangai. Crescia o sentimento de revolta em relação ao que os chineses viam como exploração imperialista abertamente praticada em seu próprio território. A Revolta dos Boxers (1899-1901) já havia manifestado essa indignação
A situação na China ameaçava se precipitar para confronto aberto contra os estrangeiros a partir do território internacional de Xangai. Crescia o sentimento de revolta em relação ao que os chineses viam como exploração imperialista abertamente praticada em seu próprio território. A Revolta dos Boxers (1899-1901) já havia manifestado essa indignação Foto : CP Memória

“Segundo informações recebidas nesta capital [Washington, EUA], é iminente uma luta armada para dominar a situação na China, com a participação direta da Rússia. Os preparativos em questão teriam por fim terminar com a guerra civil nesse país entre os generais Feng Yuh-Siang, apoiado pela Rússia, e Chang-Tso-Lin, apoiado pelo Japão.”

“Foram importados gêneros em abundância para consumo dos voluntários. Está declarado o estado de sítio [em Xangai], observando-se rigorosamente a lei marcial. Os voluntários ocuparam os telefones e o depósito de água de fornecimento à cidade. Tomaram a seu cargo o funcionamento de todos os serviços locais na cidade, como na Bolsa, na usina de força elétrica e outras dependências públicas. Acredita-se que o levante tenha sido planejado cuidadosamente há algum tempo, e que as intrigas dos russos fizeram eclodir o movimento, o qual tem a sua origem na latente agitação que prevalece nos centros industriais há muito tempo. Devido à agitação promovida pelos estudantes, estão mobilizados todos os estrangeiros em condições de pegar em armas, os quais constituem contingentes de 23.000 praças. Foi enviado um pedido de socorro a Hong Kong.”

“Quatrocentos policiais chineses aderiram à greve.”

“A greve alcançou a zona francesa, no Bairro Internacional. Um navio estrangeiro partiu para Chinkiang, onde um posto policial foi destruído. A agitação aumenta em toda parte, com as manifestações dos estudantes. Desembarcaram mil e quinhentos marinheiros estrangeiros. Nas províncias, circula um telegrama do chefe do governo, aconselhando os estudantes e comerciantes a esperarem calmamente pela solução da questão que deu origem aos acontecimentos.”

“A polícia deu busca nos círculos comunistas, apreendendo literatura bolchevista e realizando várias prisões.”

“O corpo diplomático entregou a resposta ao protesto da China. Tal protesto retraça as circunstâncias que justificaram a intervenção da polícia estrangeira. Declara mais, como únicos responsáveis pelo tiroteio, os manifestantes.”

“Os estrangeiros, que tomaram a seu cargo a defesa e a manutenção da ordem na cidade, demonstram excelentes condições físicas e morais, assim como o firme propósito de vencer na luta com os revoltosos. A Legião Estrangeira acha-se perfeitamente equipada e dispõe de adequadas reservas. O espírito de cooperação predomina por toda parte. Espera-se, com confiança, que a crise seja resolvida satisfatoriamente.”

“O ministro da Marinha [japonesa] anulou a ordem para que o cruzador Tatsuta se dirigisse a Xangai, considerando a sua presença ali desnecessária.”

“A imprensa anuncia haver o Japão dirigido uma nota a Pequim, dissimulando a ameaça a respeito do oferecimento de remessa de forças para dominar os insurretos. A Agência Reuter está informada de que os círculos oficiais britânicos desconhecem a transmissão de semelhante nota.”

“Receia-se aqui [Londres] que as desordens de Xangai possam reproduzir uma situação semelhante à dos boxers [levante antiimperialista e anti-estrangeiros ocorrido na China entre 1899 e 1901 que buscava encerrar o sistema de concessões a potências estrangeira; uma coalizão de 8 nações ocidentais venceu os revoltosos nacionalistas]”

A linguagem fascista

“Os ‘fascistas’ que se reuniram em Livorno no dia 24 de maio findo para comemorar o 10º aniversário da entrada da Itália na Grande Guerra atacaram e espancaram o Sr. Franklin Gowen, cônsul americano interino naquela cidade, e maltrataram-no até deixá-lo sem sentidos. Motivou a agressão inopinada o fato de haver passado o Sr. Gowen, na praça em que se realizavam as cerimônias cívicas, sem ter tirado o seu chapéu. Os ‘camisas-pretas’ deixaram o cônsul dos Estados Unidos estirado na rua, até que a polícia, reconhecendo-o, o transportou para o hospital. O Sr. Gowen tentou explicar a sua identidade e defender-se, mas isso de nada lhe valeu contra a exaltação dos ‘fascistas’. O prefeito de Livorno e as autoridades ‘fascistas’ apresentaram muitas desculpas ao ofendido. Diz-se que os governos de Roma e Washington concordaram em guardar silêncio sobre esse incidente.”

Greve dos sapateiros

“Declararam-se em greve os operários de calçados em obras de Luís XV e que trabalhavam em várias fábricas desta capital. São eles em número de 300, mantendo-se todos em atitude pacífica. Solidários com seus colegas, abandonaram também o trabalho os operários cortadores de calçados, costureiras de calçados, os assalariados por dia, os operários de calçados em salto direito e sola, e os montadores acabadores de calçados, atingindo assim a algumas centenas os operários desta classe e que deixaram o serviço.

As pretensões dos grevistas — Antes de explodir o movimento paredista, os operários sapateiros fizeram várias reuniões no prédio da rua do Parque, tendo sido elas dirigidas pelo Sindicato dos Sapateiros e Classes Anexas. Nessas reuniões, os operários de calçados em estilo Luís XV, alegando a carestia de vida, resolveram dirigir-se aos proprietários de fábricas, pedindo aumento dos seus salários, enviando-lhes, nesse sentido, um ofício [...]

A reunião dos fabricantes — Recebendo o ofício dos operários de calçados em obras de Luís XV, os fabricantes resolveram realizar uma reunião para estudar o assunto. Os debates correram animados, ficando resolvido que não se acatariam as pretensões dos operários em questão. Em vista disso foi que eles se resolveram declarar em greve, obtendo então a solidariedade de outros colegas [...]”

O dia 7 de junho na história

  • 1494 Portugal e Espanha assinam o Tratado de Tordesilhas na cidade espanhola, dividindo o Novo Mundo entre os dois países.
  • 1753 O Museu Britânico é fundado; será inaugurado seis anos depois.
  • 1848 Nasce em Paris o pintor, escultor, ceramista e escritor francês pós-impressionista Paul Gauguin.
  • 1892 O sapateiro e ativista americano Homer Plessy é preso por se recusar a ceder assento “exclusivo para brancos” em trem da Louisiana.
  • 1905 A Noruega dissolve sua união com a Suécia, em vigor desde 1814; plebiscito nacional em agosto confirmou a decisão.
  • 1929 O Tratado de Latrão é ratificado pelo parlamento italiano, fundando o Estado do Vaticano separado da Itália.
  • 1938 O governo nacionalista chinês provoca inundação do Rio Amarelo para deter as forças japonesas durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa; entre 5 e 9 mil pessoas morrem.
  • 1942 Soldados japoneses começam a ocupar as Ilhas Aleutas, no estado americano do Alasca.
  • 1946 O canal de TV da BBC retoma suas transmissões, suspensas desde o início da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939.
  • 1948 Edvard Benes se demite do cargo de presidente e a Tchecoslováquia se torna um país comunista.
  • 1952 Nasce em Ballymena, Irlanda do Norte, o ator Liam Neeson.
  • 1952 Nasce em Istambul o escritor e acadêmico turco Orhan Pamuk, prêmio Nobel de Literatura em 2006.
  • 1954 Morre em Wilmslow o matemático, cientista da computação e filósofo inglês Alan Turing.
  • 1958 Nasce em Minneapolis o cantor, compositor, músico e ator americano Prince.
  • 1962 O grupo paramilitar terrorista dissidente francês “Organisation Armée Secrète” incendeia a biblioteca da Universidade de Argel, destruindo cerca de 500 mil livros.
  • 1967 Soldados israelenses entram em Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias.
  • 1970 Nasce em Itaquaquecetuba o ex-jogador Cafú, campeão mundial com a Seleção em 2002.
  • 1975 A companhia japonesa Sony lança o Betamax, o primeiro formato de gravação de vídeo cassete.
  • 2015 Morre em Londres o ator britânico Christopher Lee.

O dia 8 de junho na história

  • 632 Morre em Medina o líder político e religioso Maomé, profeta e fundador do Islã.
  • 1914 Fundação no Rio de Janeira da Federação Brasileira de Sports, a primeira entidade poliesportiva de gerenciamento do esporte no Brasil.
  • 1928 O Exército Nacional Revolucionário chinês, braço do partido nacionalista Kuomintang, toma Pequim do governo de Beiyang na tentativa de reunificar a China.
  • 1929 A trabalhista Margaret Bondfield é designada para o Ministério do Trabalho da Grã-Bretanha, a primeira mulher indicada para o gabinete do país.
  • 1949 O romance distópico "1984", do escritor britânico George Orwell, é publicado no Reino Unido.
  • 1950 Nasce em Maringá a atriz Sônia Braga.
  • 1967 O navio-espião americano Liberty é atacado pela força aérea israelense por engano durante a Guerra , deixando 34 mortos e 171 feridos.
  • 1968 O assassino de Martin Luther King Jr., James Earl Ray é detido no aeroporto de Heathrow, em Londres.
  • 1970 Golpe de estado depõe o militar Juan Carlos Onganía, presidente argentino.
  • 1972 O fotógrafo Nick Ut registra o momento em que a menina vietnamita Phan Thị Kim Phúc corre desesperada após ataque com napalm na Guerra do Vietnã.
  • 1982 56 militares britânicos são mortos em ataque aéreo argentino em Bluff Cove, nas Malvinas.
  • 1984 A homossexualidade é descriminalizada no estado australiano de New South Wales.
  • 1987 O governo trabalhista da Nova Zelândia estabelece o país como zona livre de armas nucleares.
  • 1997 Gustavo “Guga” Kuerten conquista pela primeira vez o título do torneio de Roland Garros, na França.


* O jornal não circulou na segunda-feira, dia 8 de junho de 1925


** A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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