Há um Século no CP

A consolidação do regime ideológico de Mussolini

Da edição do dia 9 de julho de 1925, quinta-feira, edição n. 161

Após a ascensão ao poder, em 1922, os fascistas de Mussolini receberam o aval do regime monárquico italiano, ampliaram sua atuação sobre os mais diversos setores do governo e da sociedade e, passados três anos, puderam assegurar a formação de um Estado ideologicamente moldado em suas ideias
Após a ascensão ao poder, em 1922, os fascistas de Mussolini receberam o aval do regime monárquico italiano, ampliaram sua atuação sobre os mais diversos setores do governo e da sociedade e, passados três anos, puderam assegurar a formação de um Estado ideologicamente moldado em suas ideias Foto : CP Memória

“O sr. Benito Mussolini está no ápice do júbilo político, consolidada indisfarçavelmente a sua condição de duplo chefe: do ‘Fascismo’ e do Governo italianos. Ainda mais: a sua habilidade, nunca suficientemente celebrada, atuando num meio em franca e palpável decadência, determinou a materialização do seu maior sonho político: a organização do Estado ‘fascista’. E, já agora, a sua individualidade se agiganta como o único poder central na grande nação do Adriático, relegada à sua menor expressão toda a secular ação construtiva dos grandes homens do passado.

De feito, com as leis recentemente aprovadas na Câmara dos Deputados e que, seguramente, serão aprovadas também pelo Senado, ficou constitucionalmente estabelecida a legalidade do Estado ‘fascista’. O "Fascismo" já não é um partido — na acepção corrente do termo — que está no governo, pois se identificou com o Estado, ao qual só deixou fora do seu campo de ação, como valiosa e respeitada relíquia, o poder público constituído pela Coroa, porque a lei sobre o funcionalismo público tira ao poder judiciário toda a independência, não havendo do poder executivo para quem apelar. Como se vê, é completa a legalização do Estado ‘fascista’.

A radical transformação política italiana estava prevista, não constituindo por isso nenhuma surpresa. O programa ‘fascista’, rapidamente desenvolvido, deixava facilmente entrever os seus verdadeiros propósitos. E esta seção ocupou-se bastante de tudo isto, quando ocorreu a última crise ‘fascista’, no fim do ano passado, determinada pela publicação do célebre memorial do sr. Cesare Rossi, ex-chefe do ‘Bureau’ de Imprensa do ‘Fascismo’.

Esse documento, cujos principais termos foram publicados por este jornal, crivava de acusações algo fortes o atual poder civil da Itália, com a revivescência inopinada do principal fato incompatibilizador do ‘Fascismo’ com o povo: o assassinato do deputado socialista unitário Giacomo Matteotti. As acusações causaram impressão, pois quem as fazia era pessoa autorizada, ‘pars magna’ desse crime político. E as oposições se agitaram, surgindo da forte polêmica estabelecida nessa ocasião os propósitos verdadeiros do governo ‘fascista’, através da discussão acalorada das reformas projetadas e que, afinal, acabam de ser sancionadas legalmente.

Essa explosão oposicionista amedrontou o governo, que começou a dar mais importância ao caso Matteotti, entregando-o à justiça. Logo de início, surgiu a cumplicidade do general De Bono, que acaba de ser absolvido pelo Senado, reformando em alguns pontos a decisão da Alta Corte de Justiça e dando em causa o relaxamento do processo sobre o crime. Mas a decisão governamental de então convenceu aparentemente as oposições e, sobretudo, o partido socialista, que pretendeu comemorar o aniversário do crime na Câmara dos Deputados — a 10 de junho — e que, como detalhou o nosso serviço telegráfico, terminou pelo fechamento naquele dia do Palácio de Montecitorio.

À primeira vista, parecerá que o ‘Fascismo’, pelo exposto, tem atrás de si toda a opinião italiana. Nem tanto, porém. A inabilidade oposicionista foi quem criou esse prestígio monumental aparente. Ao invés do estabelecimento de uma ‘frente única’, recurso natural de toda a parte, as oposições constitucionais cindiram-se quanto ao encaminhamento da luta contra o inimigo comum; e, enquanto os outros partidos queriam a oposição encarniçada ao ‘Fascismo’ em todas as suas modalidades, os chamados ‘aventinistas’, que reúnem a maior força política, pela sua grande representação na Câmara dos Deputados, optaram pela abstenção nos debates parlamentares, oferecendo ensejo ao governo de anular o poder legislativo na discussão das leis que tornam nulo, de fato, agora, legalmente.

[...]”

Dificuldade de transporte

“As charqueadas locais [de Júlio de Castilhos] continuam a lutar contra dificuldades de transportes, trazendo-lhes isto consideráveis prejuízos. Somente a charqueada São João, de propriedade da firma Walhrich Irmãos e Azevedo, tem atualmente a seguinte existência, em toneladas: carnes, 2.198; couro, 352; gorduras, 510; miudezas, 330; formando no total de 3.430 toneladas. São necessários 141 carros de vinte e oito mil quilos para o transporte deste estoque. A fim de ficar a charqueada desocupada até 31 de dezembro vindouro, é necessário que a viação férrea forneça regularmente, a contar de agora, 23 a 24 carros da estação referida. Estou informado de que os charqueadores vão dirigir um memorial ao presidente do Estado, pedindo providências urgentes, no sentido de resolver esta oprimível situação, demonstrando que ficarão obrigados a não trabalhar na futura safra se não forem atendidos os seus reclamos.”

Espionagem

“A polícia de Berlim descobriu que o porteiro do grande ‘Palatz d'Unter den Linden’ instalou no seu quarto um aparelho de raios X, com o qual lia facilmente, sem abri-las, as cartas dirigidas aos moradores do hotel. Graças a essa espionagem, conseguia boas gorjetas dos hóspedes que tinham necessidade de ocultar algum ato de sua vida, ou que não possuíam os papéis em regra. E não poucas vezes o porteiro se apropriava das cartas que traziam dinheiro. No correr de uma investigação feita pela polícia, que desconfiava, sem razão, ser o porteiro um negociante clandestino de cocaína, o ‘truc’ foi descoberto: muitas cartas com endereço dos hóspedes estavam fixas no quadro do aparelho radiográfico. Esse porteiro científico e indelicado, foi condenado a seis meses de prisão. Na audiência, ele explicou que era doutor pela Universidade do Sena e que o destino cruel o transformara em porteiro. E, depois de jurar que não recomeçaria, deu este conselho: ‘As pessoas que quiserem pôr a sua correspondência ao abrigo dos raios X coloquem, entre a carta e o envelope, uma folha de papel de estanho, das comumente usadas no envoltório do chocolate’. Guarde-se o aviso.”

Frio serrano

“Tem feito aqui [Caxias do Sul] intenso frio. Na noite de ontem caiu neve em abundância. A cidade apresenta hoje um belíssimo aspecto: telhados e ruas eram um vasto lençol de neve de nitente alvura.”

“Esta vila [São Francisco de Paula] e os campos vizinhos amanheceram hoje cobertos de neve. O aspecto é deslumbrante pela alvura que apresentam os lugares planos. A camada de neve tem dez centímetros, chegando a trinta centímetros em alguns lugares. Durante sete anos não caiu neve neste município em quantidade como agora.”

Crime impressionante em Livramento

“Sobre estes dois horripilantes crimes, praticados há dias no município de Sant'Anna do Livramento, conforme noticiou o nosso serviço telegráfico, o nosso colega ‘Correio da Tarde’, daquela cidade, em seu último número, traz novos detalhes dos monstruosos delitos, cuja dolorosa impressão perdura ainda no espírito da população santanense, tanto da campanha como da cidade. O assalto à casa de Olintho Pereira, criador naquele município, foi feito às 19 horas do dia 25. Os bandidos atacaram a casa pela frente e pelos fundos, dizendo à senhora daquele infortunado patrício que a revolução havia rebentado e ameaçando-a, se as portas não fossem abertas, de atear fogo à casa. Aterrorizada, a mulher de Olintho abriu as portas da frente, enquanto os salteadores arrombavam as portas dos fundos. Senhores da casa, entraram, armados de espada e revólver, com lanternas acesas, e, dando uma busca nas diversas habitações, encontraram Olintho e seu filho. Apesar de todas as súplicas de esposa e mãe, os assaltantes levaram Olintho e seu filho para fora da casa e, a uns mil metros dali, mais ou menos, os degolaram, abandonando o local, em direção ao estabelecimento do sr. Isidoro Fernandes da Cunha, cuja casa o bando de feras apedrejou na passagem. O subintendente do 5º distrito de Livramento, sr. Luiz Menezes, conseguiu prender um peão do sr. Policarpo Duarte, de nacionalidade uruguaia. Esse indivíduo, sobre quem recaem suspeitas de cumplicidade no crime, declarou às autoridades que, pela madrugada de 26, de volta dos assaltos, os bandidos passaram por sua casa, mudando cavalos [...]”

O calçamento da rua Riachuelo

“À rua Riachuelo, está sendo feito o calçamento com paralelepípedos, trabalho este que vai adiantado. Sucede, porém, que as pedras retiradas do velho calçamento, algumas pesando vários quilos, são atiradas, sem mais nem menos, sobre as calçadas, quebrando completamente o ladrilho e também avariando a base das paredes das casas. E, como continue este abuso não obstante reclamações feitas pelos proprietários de prédios, pedem-nos eles que sejamos intérpretes de suas queixas a quem competir.”

O dia 9 de julho na história

  • 1763 Começa o “grand tour” de três anos da família Mozart apresentando-se pela Europa; Wolfgang tinha sete anos.
  • 1816 A Argentina declara independência da Espanha; data nacional argentina.
  • 1868 A 14ª Emenda à constituição americana confere cidadania plena a todos os afroamericanos.
  • 1877 Começa a primeira edição do torneio de tênis de Wimbledon, em Londres.
  • 1900 A constituição da Federação da Austrália recebe a sanção da rainha Vitória, da Grã-Bretanha.
  • 1932 Começa a Revolução Constitucionalista em São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas.
  • 1935 Nasce em San Miguel de Tucumán a cantora argentina Mercedes Sosa.
  • 1943 Começa a invasão aliada da Sicília durante a Segunda Guerra Mundial.
  • 1956 Nasce na Califórnia o ator americano Tom Hanks.
  • 1964 Nasce em San Francisco a cantora, guitarrista e atriz americana Courtney Love.
  • 1970 O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é fundado.
  • 1980 Morre no Rio de Janeiro o poeta, diplomata, letrista, músico e dramaturgo Vinicius de Moraes, ícone da bossa nova.
  • 2002 A organização União Africana é fundada em Adis Abeba, na Etiópia.
  • 2011 O Sudão do Sul adquire independência do Sudão.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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