Há um Século no CP

A crítica do Correio ao primeiro ano da gestão Otávio Rocha

Da edição de 27 de novembro de 1925, sexta-feira, n. 282

O Correio do Povo chocava-se frequentemente com o diário 'A Federação' acerca do trabalho do intendente
O Correio do Povo chocava-se frequentemente com o diário 'A Federação' acerca do trabalho do intendente Foto : CP Memória

“Nunca hipotecamos ao atual intendente, por elogios prematuros, o aplauso a que por vezes alude o órgão oficial [referência ao jornal “A Federação”]. À sua ascensão ao governo da comuna, apenas publicamos alguns comentários de expectativa, e isso mesmo quando nos referíamos aos trabalhos das comissões extra-oficiais, de que ele se cercou no propósito, dizia, de ter a colaboração das individualidades mais destacadas, como expoentes que eram da população. Quando, porém, aludíamos à sua pessoa, sempre tivemos a previdência de usar de expressões que nos deixassem livres para quaisquer críticas prováveis. Por mais de uma vez, acentuamos que ‘era de confiar’, que ‘era de esperar’ em sua administração. Confiar em absoluto, nunca o fizemos, porque não nos impressionavam bem tanta encenação, tantas promessas, tantas iniciativas e medidas. Era um louvar a Deus por tanta atividade exteriorizada. No geral, os que prometem muito são os que coisa alguma fazem. E muita coisa fazem os que, sem ruído, sem tubas de reclamo, vão se impondo por atos sóbrios e não por gestos sedutores. ‘Facta e non parole’. [...] Eis por que, não nos deixando intimidar, aqui estamos, rechaçados, a analisar-lhe a administração de um ano, a apontar-lhe os erros e a maneira por que vai sobrecarregando a população, rapidamente esquecendo-se de suas palavras iniciais que eram relativas a um governo de interesse geral. Em menos de seis meses, deu-nos a renovação do contrato da Força e Luz e o calçamento por um preço de arrepiar cabelos. Começou a desapropriar sem espírito de equidade, antes de conseguir o empréstimo que vai nos onerar com trinta e cinco mil contos. Ontem, especificamos como o intendente desperdiça os dinheiros da comuna. E bastou que opusemos reparos à gestão do novo intendente para aumentarem os murmúrios. À boca pequena se diz que nossa campanha a favor dos interesses públicos já ameaçados em grande escala fez sustar as liberalidades. Como passou a época das gordas vacas, se anuncia que muita cousa será denunciada, para demonstrar que o governo do município vai com a agulha desnorteada, não se sabendo a que influência se atribuir o desgoverno, a que estranhas atrações magnéticas. O órgão oficial tenta desculpá-lo, eximindo de seus ombros as responsabilidades que deviam acurvá-los. Será crível que o edil, tão cheio de ideias e de planos quando se guindou ao poder, tão autônomo que se fazia, dando impressão de que era uma personalidade afirmada, esteja agora na penosa situação de irresponsabilidade, pois o ‘leitmotiv’ — que para música é dissonante nos ouvidos — se obstina em confessar que ele declinou de sua pessoa nas comissões, nos auxiliares, comendo pela mão de todos?! A defesa é comprometedora, é daquelas que aumentam a aflição ao aflito [...]”

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Incêndio

“O Império do Sol Nascente tem sido cruelmente martirizado pelos cataclismos sísmicos. Há poucos meses, novo terremoto parecia dever repetir a terrível tragédia de 1924, que ocasionou prejuízos formidáveis, além de inúmeras vítimas; mas o fenômeno declinou, afinal, logo depois, destruindo as previsões ventiladas. Tóquio, a grande cidade asiática das ‘gueixas’ e dos ‘chariots’, foi há pouco — 18 de setembro — teatro de espetáculo grandioso, impressionante, que um literato impenitente classificaria de ‘belo-horrível’: colhido pelas chamas, o soberbo edifício do Parlamento — cuja denominação lá é Dieta, como em muitos países do Oriente europeu — o foi avassaladoramente e, dentro em pouco, não era mais que um grande montão de ruínas. Ainda assim, conseguiu-se salvar apreciável cópia de documentos importantes, grande biblioteca completamente destruída. Os prejuízos foram calculados em 100.000 libras esterlinas. A pujante atividade nipônica, sagaz e empreendedora em todos os ramos — o que arrojou o Japão para o rol das maiores e mais fortes potências do mundo — não deixou perdurar a impressão do famoso espetáculo. E, procurando amenizá-la, idealizou a rápida construção da sua Dieta, moldando-a no novo Capitólio que Washington se ergue em magnífico, nas suas impecáveis linhas arquitetônicas. Os trabalhos terão rápida duração, à moderna, estando em vias de iniciação. Há, porém, no sinistro, uma ponta de suspeita. Já no outro incêndio, brevemente subsequente — a 20 do mesmo mês — na faustosa residência do príncipe Tokugawa, as autoridades da grande e encantadora metrópole do Arquipélago Asiático quiseram vislumbrar indícios de criminalidade. E, no edifício do Parlamento, essa hipótese também está robustecida…

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Calor

“O calor em Buenos Aires foi, nos últimos dias, verdadeiramente tropical, dizem os jornais platinos. Na primeira quinzena deste mês, esse calor foi tão asfixiante que, nos dias 13 a 16 do mês corrente, a temperatura, à sombra, chegou a 39,6, dando-se vários casos de insolação e obrigando uma grande parte dos homens que se viam forçados às suas ocupações, nas ruas, a transitar em mangas de camisa. No dia 15, por exemplo, esgotou-se o gelo produzido pelas fábricas, apesar destas terem fabricado em larga escala. Nesse mesmo dia foram, pela sua população, consumidos 677.000.000 litros de água, acabando também em muitos cafés e restaurantes, todo o depósito das várias marcas de cerveja nesses estabelecimentos existentes. Os balneários e as casas de gelados tiveram também uma frequência desusada. Esse excessivo calor, todavia, durou apenas alguns dias, baixando a temperatura a 35,5. E há ainda quem se queixe dos nossos dias quentes!”

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Primeiras edições

Da edição de 27 de novembro de 1895, quarta-feira, n. 48

Ponte

“O dr. Prudente de Moraes sancionou a resolução do Congresso autorizando a Estrada de Ferro Southern a construir uma ponte sobre o rio Quarahy.”

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Atraso

“Noticia a Federação que os empregados do hospital militar desta capital não recebem seus vencimentos há seis meses.”

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O dia 27 de novembro na história

  • 1895 O químico e engenheiro sueco Alfred Nobel assina seu testamento, em Paris, instituindo o prêmio que leva seu nome.
  • 1895 Morre em Yvelines o escritor e dramaturgo francês Alexandre Dumas filho, autor de “A Dama das Camélias”.
  • 1912 A Espanha declara um protetorado sobre a costa norte do Marrocos.
  • 1918 A Makhnovtchina, sociedade anarquista liderada pelo revolucionário Nestor Makhno, é fundada no leste da Ucrânia durante a guerra de independência.
  • 1935 A Intentona Comunista, tentativa de golpe contra o governo Getúlio Vargas, eclode no Rio de Janeiro.
  • 1940 A Guarda de Ferro, movimento e partido político fascista romeno, executa 64 oficiais e dignitários dissidentes prisioneiros.
  • 1940 Nasce em San Francisco o mestre de artes marciais, ator e filósofo Bruce Lee.
  • 1942 Nasce em Seattle, EUA, o lendário guitarrista Jimi Hendrix.
  • 1956 Adhemar Ferreira da Silva conquista a medalha de ouro nas Olimpíadas de Melbourne e se torna bicampeão olímpico no salto triplo.
  • 1971 O módulo do programa espacial soviético Marte 2 se torna o primeiro artefato humano a tocar a superfície de Marte.
  • 1978 O prefeito de San Francisco, George Moscone, e o vereador Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay a ser eleito nos EUA, são assassinados pelo vereador Dan White.
  • 1983 Grande manifestação das Diretas Já acontece na praça Charles Miller, em São Paulo.
  • 1992 Pela segunda vez em um ano, as forças armadas tentam derrubar o presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez.
  • 2020 O Monolito de Utah, bloco de metal misteriosamente colocado em área remota do estado americano em 2016, é removido.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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