Há um Século no CP

A crítica do Correio ao relatório financeiro da Intendência de Porto Alegre

Da edição de 4 de dezembro de 1925, sexta-feira, n. 288

O Correio criticou severamente a apresentação das contas públicas da Capital e a administração de Otávio Rocha
O Correio criticou severamente a apresentação das contas públicas da Capital e a administração de Otávio Rocha Foto : CP Memória

“A fantasia dominante em todas as iniciativas municipais é que se retraça, a vivo espelhante, na gestão financeira da comuna, embalada com ilusões delirantes de saldos e reduzida à amarga prova de ‘déficits’, que ameaçam de se eternizar. Justamente esse caráter perigoso e comprometedor das diretrizes municipais tem sido uma preocupação constante nos ataques produzidos por esta folha contra a administração municipal. Não foi outra senão essa a origem de todos os contratos lesivos e extorsivos firmados pela Intendência na sua nova fase. Na miséria em que vivemos, não há razão de se entrever riquezas que se possam esbanjar sem peso e sem medida. É o que tem feito a municipalidade. E talvez inconsciente do seu erro, o relatório do intendente revela, uma vez mais, essa tendência de disfarçar misérias com arranjos de frases e explanações sobre o regime financeiro dos mais importantes municípios brasileiros. À leitura do relatório, apreende-se com facilidade a exata situação financeira do Distrito Federal, de S. Paulo, de Santos e de Recife. Mas, quem quiser conhecer a de Porto Alegre terá de fazer o que nós fizemos: esmiuçar as cifras, para chegar a conclusões próprias e verdadeiras, já que o intendente não foi capaz de ostentá-la com a clareza necessária. Se, por um lado, o edil soube, a capricho, exibir o exercício da situação de 1924, último ano do governo [José] Montaury, quando lhe coube a vez só procurou diluir e espalhar as cifras efetivamente expressivas por várias páginas, sem apresentá-las lado a lado, propiciando o confronto. De duas uma: ou o intendente agiu de má-fé, ou ingenuamente acredita na excelência das condições financeiras do município. Seja qual for a hipótese, não há nenhum benefício público nessa duplicidade. Haveria, sim, na exposição leal, sincera e honesta dos negócios administrativos do município. Foi isso que o intendente não fez. Na qualidade de orientadores da opinião, nós lhe suprimos a falta. A própria ‘Federação’, só depois de dois dias de discussão conformou-se em afirmar que o ‘déficit’ orçamentário persiste no corrente exercício. Persiste, apesar da enorme majoração de impostos. Se o vespertino oficial pretende exculpar o intendente desse resultado com o exibir um saldo entre receita e despesa comuns, isso nada explica, porque o exercício anterior já registrava saldo, e apenas o orçamento extraordinário estava desequilibrado. A transposição de despesas do orçamento extraordinário para os orçamentos ordinário e especial, que poderia parecer argumento decisivo, está largamente contrabalançada pela majoração dos impostos da última natureza. Outro tópico da ‘Federação’ que não tem a menor procedência é a citação do trecho do relatório edilício em que se diz que o intendente espera cobrir as despesas extraordinárias, avaliadas em 6.000 contos, com as operações de crédito já autorizadas. A impressão de sinceridade desse trecho logo é desfeita pelo outro tópico, em que o relatório anuncia um SALDO REAL de 900 contos. Estas duas afirmações contraditórias estão contidas na mesma página 19 do relatório. Em que ficamos, portanto: há saldo real ou há ‘déficit real’? Preferimos aceitar a realidade do ‘déficit’, que essa é patente. Até a ‘Federação’ já o confessa, após dois dias de resistência teimosa e renitente.”

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Diretório militar

“O general Primo de Rivera, chefe do Diretório Militar, ao sair do palácio real, hoje, falou aos representantes dos jornais, confirmando a notícia de que dentro em breve será formado um novo governo, mas não disse o dia, sequer aproximadamente.”

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“O novo governo terá o sr. Primo de Rivera na presidência; na pasta do Interior e na vice-presidência, o sr. Martinez Anido; na pasta da Fazenda, o sr. Sotelo; na da Justiça, o sr. Galoponte; na do Fomento, o sr. Guadalhorce; na da Instrução, o sr. Callejo; na do Estado, o sr. Yanguas; na do Trabalho, o sr. Aunos; na da Guerra, o sr. Duque, e na da Marinha, o sr. Cornejo.”

“O novo governo será presidido pelo general Primo de Rivera. Consta que o sr. Martinez Anido, além de exercer a pasta do Interior, será o vice-presidente do governo. A notícia de novo governo foi bem recebida pelo povo.”

“Continua a censura da imprensa.”

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França paranormal

“No tribunal de Assises apresentou-se um caso assombroso. Um homicida alega haver matado, em defesa própria, um evocador de espíritos malignos. As testemunhas declaram que toda a aldeia de Uttenheim vivia presa de terror, pois forças satânicas visitavam frequentemente a aldeia, pondo os seus habitantes à borda da loucura. Um gendarme local, acusado de assassínio, era, segundo se afirma, a vítima principal dos espíritos malignos, os quais, em forma de gatos, cães e outros animais, invadiam as casas durante a noite, ainda que as janelas e portas estivessem trancadas, e convertiam as casas em verdadeiros manicômios com os seus alaridos e gritos infernais. As mulheres ficavam horrorizadas ante essas visões terríveis e eram vítimas de ataques histéricos. O terror chegou a tal ponto, que os aldeões mais valorosos empenharam-se em organizar, durante horas do dia, expedições armadas contra as aparições sobrenaturais. Durante uma dessas expedições, o gendarme acusado matou com um balaço um jovem, cujo semblante assemelhava-se aos animais que visitavam os lugares à noite. O gendarme foi sentenciado a dois anos de prisão.”

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Primeiras edições

Da edição de 4 de dezembro de 1895, quarta-feira, n. 54

Restauração

“Os monarquistas de S. Paulo, em reunião efetuada hoje, deram organização definitiva ao partido restaurador. Para o diretório central foram eleitos os drs. João Mendes de Almeida, Souza Queiroz, Eduardo Prado e outros. A esse diretório foi delegada a faculdade de agir como melhor entender em benefício da propaganda monárquica.”

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O dia 4 de dezembro na história

  • 1791 Começa a publicação do jornal inglês The Observer, o primeiro jornal dominical da história.
  • 1872 A embarcação comercial americana Mary Celeste é encontra à deriva na costa dos Açores; sua tripulação jamais foi encontrada.
  • 1892 Nasce na Galícia o general e ditador espanhol Francisco Franco.
  • 1931 O presidente de El Salvador, Arturo Araujo Fajardo, foge para a Guatemala após ser derrubado do cargo por um golpe militar.
  • 1943 O líder da resistência iugoslava, Marechal Tito, proclama um governo provisório.
  • 1969 Fred Hampton e Mark Clark, membros do partido Panteras Negras, são assassinados pela polícia em Chicago.
  • 1975 Morre em Nova Iorque a historiadora e filósofa teuto-americana Hannah Arendt.
  • 1977 O Império Centro-Africano é instituído quando o presidente da República Centro-Africana, Jean-Bédel Bokassa, se autoproclama imperador.
  • 1980 A banda britânica Led Zeppelin comunica oficialmente o fim do grupo.
  • 1982 A República Popular da China adota sua atual constituição.
  • 1991 A companhia aérea americana Panam encerra suas operações após 64 anos.
  • 1993 Morre em Los Angeles o músico americano Frank Zappa.
  • 2005 Centenas de milhares de pessoas protestam em Hong Kong por democracia e sufrágio universal.
  • 2011 Morre em São Paulo o ex-jogador e médico Sócrates.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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