Há um Século no CP

A (im)pontualidade dos principais relógios da cidade

Da edição do dia 18 de julho de 1925, sábado, edição n. 169

Reportagem "cronométrica" verificou a falta de pontualidade e de sincronia dos principais relógios públicos de Porto Alegre
Reportagem "cronométrica" verificou a falta de pontualidade e de sincronia dos principais relógios públicos de Porto Alegre Foto : CP Memória

“[...] Na Força e Luz: +2 [minutos em atraso] — Eis-nos decididos a empreender uma pequena reportagem cronométrica. Rodamos nos calcanhares e fomos nos estatelar frente à Força e Luz. Adiantava de 2 minutos. Transpusemos uma das embocaduras e caímos no saguão. Lá dentro tem outro relógio. Mas isso sem deixarmos de nos identificar com a assistência: não se destacasse um mortal tétrico de trabuco à cinta... Era, porém, a fatal Força e Luz de sempre: o relógio 2 estava em desacordo com o relógio 1: adiantava de 3 minutos! Saímos. Fomos, decididamente, adiante.

Na Matriz: +8 — Embarafustamos Ladeira acima. À Matriz! Um bacharel saltitante, na lomba estafante, pretende deter-nos, mas não o consegue. E, lépidos, estávamos logo nos defrontando com a pré-histórica Sé, testemunha austera, secular e silenciosa, do ‘pinhão quentinho’ da roda do Divino… Adiantava, e adiantava vantajosamente: aumentava de 8 minutos. Mas... caluda! Nada de irreverências impensadas. Era a casa de Deus!

Na Intendência: ‘Eureka’! — Retrocedamos. Vencendo a antiga rua da Ponte, estávamos, num ápice, na de Bragança — que magnífica via para desastres, pela sua confusão veicular! Mas desciamo-la, resolutos, constatando o erro: poderíamos ter abreviado o caminho. Nada disso: a fatalidade nos impelia a um acidente… Curados, já então, da inadvertência, galgamos a rua, tradicional rua da Praia, deslizamos pela do Comércio, sempre apinhada, e estávamos, em três tempos, defrontando o palacete da Praça Montevidéu. Estava simpático o executivo e legislativo da cidade. Por isso, talvez, com a hora certa, num pêndulo verdadeiramente regulador. Salve-se, ao menos, isso...

Na Viação Férrea: + 3 — E agora? A ‘gare’ da estrada de ferro. O Caminho Novo é cronicamente hostilizante ao pedestre; mas... cavacos do ofício. Ainda assim, com toda a prevenção, levamos um ‘baita’ encontrão de carregador desabrido e quase resvalamos num lodaçal — coisa vulgar ali. Mas vencemos tudo e alcançamos a estação, de má catadura, num tumulto detestável de carroças e de vozes. O relógio adiantava 3 minutos, em contraste, certamente, com a Estrada, algo atrasada sempre horariamente. Valha-nos, porém, as... aparências.

Na Igreja das Dores: +9 — Faltava-nos ainda uma constatação. Era a Igreja das Dores, o templo das torres dominadoras da cidade. Mas mudamos de tática: embarcamos em dois elétricos, após outro, senão pela duvidosa velocidade deles, pelo alívio das pernas, já bem castigadas. E quase tivemos de nos arrepender: por um triz, e a pé, chegaríamos talvez antes… A altaneira catedral estava em clausura, no alto de suas escadarias ex-acidentadíssimas. Mais ao alto, acima do templo e na torre à direita, o relógio, de configuração agradável, adiantava-se de 9 minutos. Apenas: o ‘record’ da excursão. Venceu a Matriz por um... íamos dizer ‘goal’. Mas não: outro seio de Deus. Estava certo... adiantado.

Epílogo banal — O nosso ‘raid’, confortavelmente instalados em macios pneumáticos, atenuado, apenas, do Caminho Novo ao Quartel-General, por dois bondes que não valem um — nosso ‘raid’ jornalístico comprovou a vitória da Intendência. No torneio cronométrico, ao menos, tem ela o ‘record’ citadino assegurado. Não sabemos se isso influirá em alguma coisa no seu desenvolvimento administrativo. Depois, não há muita correlação, em rigor. Mas devemos proclamá-lo, alto e bom som: — Senhores! A nossa Municipalidade está na hora!”

Desaparecimento de crianças
“Os jornais continuam a registrar casos de desaparecimento de crianças em vários pontos da cidade [Rio de Janeiro]. A despeito das providências empregadas, a polícia não conseguiu esclarecer o mistério que envolve o estranho quão perverso procedimento, visto como está apurado, apenas, que tais desaparecimentos ocultam crimes odiosos. Uma quadrilha de indivíduos rouba os pequenos, não se sabendo com que fim. A gravidade, porém, está a exigir o emprego de medidas de excepcional rigor, no sentido de pôr termo a essa situação verdadeiramente misteriosa, por isso que o alarme já começa a se manifestar no seio da família carioca.”

Rebeldes desbaratados

“Há dias, comentam-se assiduamente os boatos, provenientes da região fronteiriça, sobre as possibilidades de uma nova incursão de forças revolucionárias em território do Estado. Essas notícias avultaram nos últimos dias, com a apreensão de grande quantidade de armamento na fronteira argentino-brasileira e com as informações alarmistas divulgadas por jornais do interior. Ontem, procuramos indagar do que havia de verdadeiro nesses boatos. De fonte segura, soubemos que, com efeito, se organizara em território argentino um contingente rebelde, cujo efetivo era desconhecido, assim como o nome do seu comandante. Essa força, porém, foi prontamente dissolvida e desarmada pelas autoridades argentinas, que mantêm severa vigilância em toda a fronteira.

O capitão Telmo de Oliveira, comandante de uma força da Brigada, que está em Erechim, recebeu ordem para combater os grupos de rebeldes que infestam aquele município. Essa ordem foi dada ao capitão Telmo de Oliveira pelo comandante do setor a que pertence a força que comanda. Esses rebeldes, ao que soubemos, pertencem às forças do coronel Leonel Rocha.”

Melhoramentos em Bagé
O dr. Carlos Mangabeira, atual intendente de Bagé, está tratando de dotar essa cidade de vários melhoramentos, tendo para esse fim se iniciado os respectivos estudos. As principais ruas serão mesmo todas calçadas com paralelepípedos e, nelas, colocados focos elétricos, do tipo dos usados em Montevidéu. As várias praças serão todas ajardinadas pelos sistemas mais modernos, sendo que uma delas servirá para parque de esportes para as crianças. Esta praça de esportes obedecerá aos moldes das existentes no Uruguai, sendo a primeira que se instalará no Estado.”

O dia 18 de julho na história

  • 1817 Morre em Winchester a escritora inglesa Jane Austen, autora de “Razão e Sensibilidade”.
  • 1841 O imperador do Brasil Pedro II é coroado na Capela Imperial da Catedral do Rio de Janeiro.
  • 1847 Morre em Pedras Brancas (atual Guaíba) o militar, político e líder revolucionário Bento Gonçalves da Silva, presidente da República RIo-Grandense durante a Revolução Farroupilha.
  • 1872 A Grã-Bretanha introduz por lei o voto secreto nas eleições parlamentares e locais.
  • 1913 A hora legal brasileira é fixada e o país é dividido em 4 fusos horários.
  • 1918 Nasce em Mveso o político e ativista anti-apartheid Nelson Mandela, presidente da África do Sul entre 1994 e 1999.
  • 1922 Nasce em Cincinnati o historiador e filósofo da ciência Thomas Kuhn, autor de “A Estrutura das Revoluções Científicas”.
  • 1925 Publicação do primeiro volume do manifesto autobiográfico “Mein Kampf” (Minha luta), de Adolf Hitler.
  • 1942 Nasce em Treviglio o jogador e dirigente italiano Giacinto Facchetti, ícone da Inter de Milão.
  • 1968 A organização paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invade o teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espanca o elenco da peça “Roda Viva”.
  • 1971 Pelé se despede da Seleção Brasileira com empate em 2 a 2 contra a Iugoslávia, no Maracanã.
  • 1975 Morre no Rio de Janeiro o militar e político Juarez Távola, membro da Coluna Prestes
  • 1976 Durante as Olimpíadas de Montreal, a romena Nadia Comaneci se torna a primeira atleta a obter a nota 10 nas provas de ginástica.
  • 1980 A TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora brasileira, sai definitivamente do ar após crise financeira e administrativa.
  • 1982 258 camponeses, a maioria mulheres e crianças, são torturados e assassinados por membros das forças armadas e paramilitares em Plan de Sánchez durante a guerra civil da Guatemala.
  • 1987 Morre em Recife o sociólogo, antropólogo, historiador e político Gilberto Freyre, autor de “Casa Grande & Senzala”.
  • 1994 Explosão na Asociación Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, mata 85 pessoas e fere 300.
  • 1994 O Fronte Patriótico de Ruanda toma a cidade de Gisenyi e o noroeste do país, forçando a fuga do governo para o Zaire e encerrando o genocídio dos tutsi.
  • 1995 O vulcão Soufrière Hills em Montserrat, um território ultramarino britânico no Caribe, entra em erupção, devastando a ilha e forçando a fuga dos habitantes.
  • 2013 O governo da cidade americana de Detroit declara bancarrota, com dívidas de US$ 20 bilhões, a maior da história dos EUA.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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