Há um Século no CP

A lama paralisa o centro comercial de Porto Alegre

Da edição do dia 1º de setembro de 1925, terça-feira, edição n. 207

A precariedade do pavimento das principais vias da Capital gaúcha era a norma numa era anterior ao tráfego de automóveis. O comércio se ressentia sobretudo da lama nas ruas, que impedia a circulação das carroças responsáveis pelo abastecimento e escoamento da produção da cidade
A precariedade do pavimento das principais vias da Capital gaúcha era a norma numa era anterior ao tráfego de automóveis. O comércio se ressentia sobretudo da lama nas ruas, que impedia a circulação das carroças responsáveis pelo abastecimento e escoamento da produção da cidade Foto : CP Memória

“É de todos conhecido o estado lastimável em que fica a rua Voluntários da Pátria em dias de chuva. Pode-se dizer que aquela parte da cidade se transforma num verdadeiro lamaçal, havendo pontos em que só com dificuldade se vai de uma para outra calçada. Não é preciso falar das reclamações, não de hoje, mas de há tempos. As promessas por parte dos poderes competentes se repetem seguidamente, mas o caso é que a rua mais movimentada da zona comercial continua no mesmo estado. Entretanto, outra rua há que lhe faz concorrência. É um trecho do começo da rua da Conceição, fronteiro ao armazém da Viação Férrea, no lugar chamado ‘quadro das cargas e descargas’ de vagões procedentes de vários pontos do Estado. Este trecho vem da rua Triunfo, esquina da rua acima, e até a praia, numa grande extensão, isto é, num ponto onde diariamente há extraordinário movimento de carroças.

A presença de um repórter — Passavam das 14 horas e meia de ontem, quando, pelo telefone da redação desta folha, foi solicitada a presença urgente de um repórter naquele local. Os proprietários de carroças — dizia o informante — estavam agitadíssimos e nos convidavam para vermos um espetáculo verdadeiramente inédito. [...]

Local — Uma vez no local, fomos cercados por um grande número de proprietários de veículos, grandes e pequenos. ‘Veja, sr. repórter, estão as nossas carroças. Não há forma de poder trafegar. Algumas, vazias, encostaram no armazém a fim de receberem cargas da linha de Caxias, mas quando pretenderam sair, ficaram atoladas, não havendo meio de safá-las. E olhe que, como medida de prudência, os condutores de nossos veículos tiveram ordem de receber a metade dos volumes do costume. Mesmo assim, ficaram ali ‘encalhadas’, não havendo nada que as faça sair.’ Estas eram as queixas daqueles que haviam mandado os seus veículos vazios. Vieram após as reclamações dos que haviam ido com os seus veículos carregados, para deixá-los presos no lamaçal. Era, sem dúvida, um quadro contristador pela incúria que revelava. Para satisfazermos a curiosidade de jornalista, demo-nos ao trabalho de contar o número de veículos que permaneciam completamente parados. Eram nada menos de 36, entre as chamadas carroças ‘fundas’ e carretões de 4 rodas. Continuamos a palestra perguntando, então, aos reclamantes, se há muito tempo estavam ali. ‘Sim’, responderam-nos todos. ‘Há veículos que estão ‘enterrados’ há mais de duas horas, não havendo nada que possa safá-los. Reclamamos da Intendência Municipal, a quem cabe a conservação deste trecho de rua, há algum tempo, providências. Mas, por enquanto, têm ficado em projeto e, se não fora a espontânea iniciativa da direção da Viação Férrea em mandar aterrar com cascalho a parte mais próxima do armazém, então a coisa seria pior.’

Declarações de comerciantes — Ao grupo de proprietários de carroças, juntaram-se negociantes que haviam ido à estação da Viação Férrea a fim de despacharem as suas mercadorias: uns para recebê-las e outros para embarcá-las. A sua indignação não era menor do que a dos carroceiros. Um deles nos declarou: ‘Com este estado de coisas, que se registra sempre que chove, são contínuos os prejuízos que temos. Diariamente, no armazém em questão, há um movimento de 30 a 40 vagões de cargas que vêm e outras que seguem para o interior. As primeiras, não podendo sair, estão, como é natural, sujeitas a armazenagens e, às vezes, prolongando-se o trabalho, temos de pagar serviços extraordinários, porque são feitos depois do horário’. [...]”

Armamentismo e ‘pseudo-federação’

“Em artigo publicado n’‘O Jornal’, sob os títulos ‘Armamentismo policial’ e ‘Pseudo Federação’, o senador Barbosa Lima condena a organização dos exércitos estaduais, que, a seu ver, inicia a obra da prematura e funesta desagregação do Brasil. Diz que os Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, os quais anexaram os frágeis Paraná e Santa Catarina, constituíram o bloco imperial que acabou sobre a posse dos demais Estados brasileiros, já agora seus resignados vassalos e tributários. A igualdade e o equilíbrio federativo, sonhados pelos constituintes de 1891, desapareceram e, em seu lugar, surgiram a Prússia militarizada do Tamanduateí e a Baviera da Mantiqueira, observadas à distância, com soberana displicência, pela Saxônia das coxilhas, quase independente e cada vez mais distanciada do desconjuntado Brasil. O sr. Barbosa Lima aprecia as polícias estaduais, aparelhadas com os mais modernos e poderosos engenhos de guerra, que ‘defrontam e dissolvem o Exército Nacional’. [...]”

Seca em São Paulo

“O prosseguimento da estiagem tem alarmado novamente a população, que se julga breve privada de eletricidade e de serviço de bondes. O fornecimento de água já está grandemente reduzido na capital, devendo tal medida se estender a vários pontos do Estado.”

“A Secretaria de Agricultura distribuiu uma nota à imprensa comunicando que a autorização para iluminação de vitrines continua proibida, assim como a iluminação de fachadas de casas comerciais e particulares e anúncios luminosos. O superintendente do serviço de distribuição de energia elétrica fez sombrias previsões a respeito da estiagem. Diz que esta será prolongada em S. Paulo, continuando a fazer baixar a porcentagem dos kilowatts de força que deveria ser fornecida pela Light. Basta dizer-se, acrescenta, que todas as fontes de energia reunidas, que deveriam fornecer 92.000 kilowatts, não chegam a dar sequer 21.000.”

“A questão do fornecimento de energia elétrica continua a se agravar de momento a momento, em consequência do esgotamento contínuo dos reservatórios. A vazão dos rios decresce de volume e a situação torna-se verdadeiramente angustiosa. Hoje pela manhã, foi sustado o fornecimento de força para quase todas as fábricas de S. Paulo, parecendo que serão inevitáveis novos cortes na corrente elétrica. O governo apela para o comércio e para a boa vontade de todos, a fim de pouparem o mais possível o gasto de energia.”

O dia 1º de setembro na história

  • 1529 Sancti Spiritu, a primeira fortificação construída pelos espanhóis no território da futura Argentina, é destruída por povos indígenas.
  • 1715 Morre em Versalhes o “rei sol” absolutista francês Luís XIV.
  • 1870 O imperador francês Napoleão II é capturado e feito prisioneiro na Batalha de Sedan, durante a Guerra Franco-Prussiana.
  • 1906 A Nova Guiné Britânica passa para a administração da Austrália e se torna o Território de Papua.
  • 1914 São Petersburgo, na Rússia, muda o nome para Petrogrado.
  • 1916 A Bulgária declara guerra à Romênia.
  • 1922 Nasce em Gênova o ator, diretor e roteirista italiano Vittorio Gassman.
  • 1923 O Grande Terremoto de Kanto arrasa Tóquio e Yokohama, matando cerca de 105 mil pessoas.
  • 1928 A Albânia se torna um reino, com Zogu I como rei.
  • 1938 Benito Mussolini anula os direitos civis dos judeus italianos.
  • 1939 A Alemanha invade a Polônia e ataca a Cidade Livre de Danzig, iniciando a Segunda Guerra Mundial.
  • 1941 Judeus alemães passam a usar uma estrela de Davi amarela como insígnia.
  • 1946 Os gregos votam pela monarquia em plebiscito.
  • 1962 Nasce em Amsterdã o ex-jogador e técnico holandês Ruud Gullit.
  • 1969 O militar Muammar Gaddafi ascende ao poder na Líbia após golpe de Estado.
  • 1974 O Lockheed SR-71 Blackbird realiza voo de Nova Iorque a Londres em 1 hora e 54 minutos a uma velocidade de 2908 km/h.
  • 1981 Golpe militar na República Centro-Africana destitui o presidente David Dacko.
  • 1982 Nacionalização dos bancos mexicanos pelo presidente Lopez Portillo.
  • 1985 Os destroços do Titanic são descobertos a quase 4 mil metros de profundidade por expedição franco-americana.
  • 2004 Terroristas islâmicos invadem e mantêm mais de mil pessoas como reféns em escola de Beslan, na Rússia.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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