Há um Século no CP

A morte de Ruy Barbosa: uma perda imensa e irreparável

Não houve edição do Correio do Povo no dia 31 de Março de 1923

Ruy Barbosa (C) com a delegação brasileira em Haia
Ruy Barbosa (C) com a delegação brasileira em Haia Foto : CP Memória

O irreparavel luto nacional - a morte de Ruy Barbosa - A morte de Ruy Barbosa, cuja inesperada noticia tão funda e dolorosamente fere a alma do nosso povo, constitue em realidade, uma irreparavel desgraça nacional e abre, na vida da nacionalidade, um immenso vacuo que nenhum dos nossos homens publicos, nos dominios da politica, nenhum dos nossos mais notaveis juristas, dos nossos mais illustres intelectuaes, no dominio do pensamento poderá aspirar á honra de preencher. Com o desapparecimento do genial bahiano, como se extingue o pharol que esclarecia e orientava a consciencia nacional, quando ella parecia prestes a afundar-se na trama emmaranhada da politicalha. Instinctivamente, cada vez que uma crise mais profunda lhe abalava a serenidade e lhe conturbava o espirito, o povo brasileiro voltava os olhos para Ruy Barbosa e delle esperava, ardente de fé, a palavra da Verdade, a palavra que sentia cair do alto, muito do alto, verbo rutilante como um facho de luz, illuminando as consciencias e traçando-lhes o caminho recto da justiça e da liberdade. A miseria degradante dos nossos costumes politicos fez da calumnia o estalão por que melhor se póde aferir o valor dos homens publicos. E Ruy Barbosa, maior, immensamente maior que nenhum outro, viu, muitas vezes, crescer-lhe em torno a enxurrada do odio, das intrigas, das injurias. Nem a vasa o attingia, porém, nem conseguia occultar-lhe a figura apostolica á veneração fiel do seu povo. Houve uma accusação, porém, que mesmo os seus mais encarniçados inimigos, mesmo os seus mais irreconciliaveis adversarios, nunca puderam, nem tentaram siquer, levantar contra elle: a de ter, algum dia, prestado apoio á tyrannia, a de haver posto jamais, a sua palavra a serviço da Força, a de haver nunca, dado á violencia e á brutalidade o immenso prestigio do seu infinito saber. É que contra essa accusação protestava toda a sua existencia de velho liberal, todo o seu fecundo apostolado de mais de cicoenta annos. É que toda a sua vida foi um rude e incessante combate pela liberdade, um lidar incessante pelo fraco contra o forte, um continuo batalhar em defeza dos opprimidos contra os oppressores. Desde os bancos academicos, não houve no Brasil campanha liberal que o não tivesse como paladino. não houve attentado contra as liberdades publicas e os direitos de seus concidadãos que o seu verbo incandescente não profligasse inexoravelmente; não houve violencia criminosa, contra a qual não se insurgisse a sua grande consciencia de apostolo. E eram os seus proprios adversarios da vespera, os mesmos cuja furia lhe não poupára os mais caros sentimentos, aquelles a quem elle ia muitas vezes estender a mão, amparando-os contra a prepotencia, pondo-os sob o pallio sagrado de sua palavra, sem espontaneamente, sem esperar que os seus serviços fossem invocados, sem aguardar que se lhe fosse bater á pórta. Na campanha abolicionista como nas lutas contra a dictadura e o militarismo, em Haya como apostolo da Justiça que o povobrasileiro chora, hoje, com uma perda immensa e irreparavel.

A grafia da época está preservada nos textos acima.

Matéria publicada na edição de 03/03/1923

CRONOLOGIA

O dia 31 de março na história

1889 - Inauguração da Torre Eiffel. 
1963 - Jornais de Nova Iorque voltam a circular após 114 dias de greve. 
1964 - Inicia o golpe militar comandado pelo general Mourão Filho, o governador de Minas Gerais Magalhães Pinto, e com o apoio do governador da Guanabara, Carlos Lacerda.
1980 - Lançamento do jornal Voz da Unidade, do PCB.