Há um Século no CP

A morte de um republicano ilustre

Da edição do dia 17 de julho de 1925, sexta-feira, edição n. 168

O médico, jornalista e político fluminense Lopes Trovão foi um dos mais importantes propagandistas da República e desenhou a primeira bandeira nacional utilizada pelo novo regime, depois preterida por decisão de Deodoro da Fonseca
O médico, jornalista e político fluminense Lopes Trovão foi um dos mais importantes propagandistas da República e desenhou a primeira bandeira nacional utilizada pelo novo regime, depois preterida por decisão de Deodoro da Fonseca Foto : CP Memória

“Todos os vespertinos desta capital trazem longos necrológios de Lopes Trovão, relembrando a sua atuação na propaganda da República e, bem assim, a vida honestíssima e o caráter indômito e impoluto do extinto. Referem-se, ainda, a episódios passados e nos últimos tempos da vida do grande propagandista da República. O governo federal ofereceu-se para fazer o enterro por conta da nação, tendo sido isto recusado pela família do morto. O governo do Estado do Rio e o Clube Fenianos, de que Lopes Trovão era sócio honorário, fizeram igual oferecimento. O corpo do ilustre extinto foi embalsamado na Saúde Pública e será sepultado amanhã, às 15 horas, no cemitério São João Batista. Estão preparadas várias homenagens a Lopes Trovão, por ocasião de seu enterramento. O governo do Estado do Rio decretou luto por três dias. Uma das primeiras visitas à casa mortuária foi a do secretário da presidência do Estado do Rio, o qual apresentou pêsames à família enlutada, em nome do presidente do mesmo Estado, sr. Feliciano Sodré.

Nos últimos momentos, Lopes Trovão mostrou-se perfeitamente calmo, morrendo sem agonia. Seu estado de enfermidade foi agravado ultimamente por um ataque de bronquite, que muito contribuiu para que ele viesse a piorar ontem à noite, apresentando logo grande dispneia que o impedia de falar. Mas o seu espírito conservou-se lúcido até o último momento, conhecendo todos, compreendendo tudo e fazendo-se entender por meio de gestos e do olhar. Pela madrugada, devido à baixa da temperatura, aumentou a dispneia, começando, sem agitação, o estado de coma. Assim, morreu ele lentamente, serenamente. O corpo de Lopes Trovão, conforme as suas últimas vontades, foi vestido como nos tempos da propaganda, de sobrecasaca preta, colete e gravata vermelhos. O colete é o mesmo usado no tempo do movimento abolicionista. Acompanha o corpo uma toalha de linho bordada para o seu batizado, pela sua progenitora. Na Câmara dos Deputados, o sr. Bittencourt Filho fez o necrológio de Lopes Trovão, sendo a sessão suspensa depois de aprovadas as homenagens daquela Casa do Congresso para o ilustre propagandista da República.”

“O vespertino ‘A Vanguarda’ publica hoje um clichê do sr. Lopes Trovão assinando o manifesto socialista, lançado em 1º de maio do corrente ano. Diz aquele vespertino que a assinatura de Lopes Trovão deixou de figurar nesse manifesto, porque o mesmo o assinara muito antes de ser lançado. Tendo piorado depois o seu estado de saúde, os organizadores do partido pensaram, por isso, em evitar as explorações. Quando assinava o manifesto, Lopes Trovão dissera nunca ter pensado que a fórmula atual seria a definitiva organização do partido socialista, acrescentando que chegou o momento de conduzir o povo pela estrada do socialismo. Ao baixar o seu corpo à sepultura, falará, em nome do partido, o sr. Evaristo de Moraes. O atestado de óbito da causa-mortis foi a arteriosclerose. O governo federal mandou suspender o ponto amanhã, nas repartições públicas, em homenagem ao ilustre morto.”

“N. da R. — De há alguns dias a esta parte, era grave o estado de saúde do velho republicano, cujo falecimento ora registra o nosso serviço telegráfico. Nascido em maio de 1848, em Angra dos Reis, onde o seu pai exercia as funções de cônsul de Portugal, veio a formar-se o ardoroso tribuno em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, depois de acidentado curso, pois que se envolveu, desde acadêmico, na propaganda republicana, tomando parte proeminente nas falanges políticas reacionárias. Isso lhe valeu sérias perseguições, forçando-o mesmo a exilar-se certa vez, quando levantou contra o Imperador a massa popular, que caminhou para o Paço, sendo detida ao chegar à Quinta da Boa Vista pela força armada. Espírito culto, dotado de qualidades de caráter primorosas, era o grande lutador uma das mais caras figuras da República, para a proclamação da qual não se deteve ante quaisquer sacrifícios. Com o advento do novo regime, foi o ilustre morto eleito para a Câmara dos Deputados por muitos anos, tendo sido renovado o seu mandato, passando mais tarde para o Senado. As renúncias parlamentares de Lopes Trovão assinalam rasgos da mais bela compreensão do dever de homem público. Os seus trabalhos nas duas casas do Congresso, na imprensa e consignados em várias obras, inclusive teses doutorais, revelam o quanto de preparo, de estudo e de acuidade de espírito tinha o eminente propagandista republicano. Também escreveu obras de caráter internacional, em que demonstrou ser consumado publicista. Perde a República, com Lopes Trovão, um dos seus mais brilhantes expoentes, um dos seus mais ardorosos batalhadores, e perde a Nação um dos seus mais talentosos políticos, tanto do antigo como do novo regime. [...]”

O médico, jornalista e político fluminense Lopes Trovão foi também o autor do desenho da primeira bandeira republicana do Brasil, desfraldada no mesmo dia da proclamação, 15 de novembro de 1889. A proposta de Trovão era uma cópia da bandeira norte-americana (em sintonia com a denominação oficial da República até 1968: Estados Unidos do Brasil), com treze listras em verde e amarelo, um quadro preto no canto superior esquerdo contendo 20 estrelas divididas em grupos de cinco. Variação desse mesmo desenho é atribuída a Rui Barbosa, substituindo o quadro preto por azul e acrescentando mais uma estrela (do Município Neutro da Capital). Essa segunda versão foi a bandeira oficial utilizada pelos quatro primeiros dias do novo regime. Em 19 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca vetou a proposta de Lopes Trovão por considerá-la demasiadamente similar à bandeira americana. O Marechal optou pelo losango ouro sobre o campo verde, não querendo se distanciar de sua tradição monarquista, já que a bandeira imperial utilizava essa mesma base — a esfera celeste (o globo azul estrelado) e o lema “Ordem e Progresso” foram acrescentados na sequência por influência positivista.

A travessia da Mancha

“Espera-se que as águas do canal estarão com a temperatura boa para o início do ‘raid’ da senhorita Lilian Harrison. Reina grande animação entre os afoitos sportmen, muitos dos quais têm a intenção de acompanhar a nadadora no começo do ‘raid’.”

“Estando o tempo e a temperatura favoráveis, a nadadora argentina Harrison resolveu realizar a sua tentativa de atravessar, a nado, o Canal da Mancha, atirando-se à água amanhã [16], pela madrugada.”

“A nadadora argentina Lilian Harrison lançou-se à água às 4 horas e 29 minutos, para iniciar a travessia do Canal da Mancha.”

“N. da R. — Harrison é tida pela mais jovem das atuais sportwomen, sendo, na opinião de abalizados estetas, a nadadora que reúne o mais belo conjunto de linhas harmônicas. Quanto à resistência física, além do seu professor e entraineur, que deposita as mais seguras esperanças sobre a realização feliz do ‘raid’, há a considerar as audaciosas provas a que se tem atirado a arrojada jovem argentina. O nosso serviço telegráfico vem acompanhando o projetado ‘raid’. Como se vê das edições de 3 e 5, especialmente, a senhorita Lilian apenas adiou a realização da travessia devido às fortes tempestades que reinavam no mar da Mancha.”

Varredoura mecânica

“No serviço de varrer as ruas, eram, até há pouco tempo, empregados veículos puxados por animais. Agora, a intendência municipal resolveu substituí-los por aparelhos mecânicos adaptados a tratores Ford. Para esse fim, com a firma Fleck & Cia., a municipalidade contratou, a título de experiência, uma varredoura mecânica, do tipo usado em outras capitais. Há dias, fez-se a experiência, varrendo-se a rua Voluntários da Pátria. Ontem, pela terceira vez, usou-se a varredoura mecânica na rua 7 de Setembro, em todo o largo fronteiro à Intendência Municipal, à praça Senador Florêncio e rua General Câmara, gastando-se nesse serviço cerca de duas horas. A varredoura mecânica tem uma vassoura de mais de dois metros de comprimento, colocada à frente do trator, o qual tem força para puxar até 8.000 quilos e um motor da potência de 30 cavalos. Com regular marcha, em sua passagem, deixa todo o lixo, formando extenso monte ao meio da rua, o qual, depois, é recolhido pelas carroças. Além da vassoura, o trator tem ainda um tanque para água, a fim de irrigar a rua em sua passagem pela parte que está varrendo. Os serviços de ontem, coroados de êxito, foram dirigidos pelo sr. Raul Macedo, diretor da Limpeza Pública, auxiliado pelos fiscais srs. Floriano Bastos e Olímpio Pires. Além da varredoura mecânica, havia oito carroças que, ao mesmo tempo, recolhiam o lixo.”

Da Caixa Urbana

“Recebemos a seguinte carta: ‘[...] Li no conceituado 'Correio', em sua edição de ontem, um telegrama procedente de São Paulo, a referência que, em sua recente mensagem ao Congresso paulistano, faz o sr. Carlos de Campos, presidente daquele Estado, relativamente à 'carência de habitações'. Ali, dita referência vem nos sugerir a ideia de pedirmos a atenção do nosso edil municipal para idêntico mal, de que andamos acometidos, pois, hoje em dia, qualquer 'cortiço', de viela infecta e que, por ironia, se lhe dá o pomposo nome de 'avenida', quando, no entanto, certo que não passa de verdadeiro foco, onde os maiores estragos produzem a bubônica, a varíola, o tifo e a tuberculose, está pela locação nunca inferior a 30$ ou 40$000 mensais, de sorte que o pobre operário ou jornaleiro, que tem de pagar pelo quilo do feijão 1$500 e, às vezes, até preço mais alto, vê-se em sérios apertos, no fim de cada mês. Não seria, a nosso ver, portanto de mais, que o ilustre dr. Otávio Rocha, que, incontestavelmente, tanto interesse tem tomado pela situação da vida econômica de seus concidadãos, na próxima reunião do Conselho Municipal lhe endereçasse mensagem, indicando medidas que remediassem o mal de que se trata. Ora, nenhum prejuízo adviria ao erário municipal, se se concedesse, por determinado número de anos, isenção de certos impostos àqueles que mandassem edificar grupos de habitações modestas, higiênicas, destinadas a locações baratas.’”

O dia 17 de julho na história

  • 1821 A Espanha cede o território da Flórida aos EUA.
  • 1902 O engenheiro americano Willis Carrier cria o primeiro ar condicionado em Buffalo, Nova Iorque.
  • 1932 Nasce em Mendoza o cartunista argentino Quino, criador da personagem Mafalda.
  • 1936 Rebelião militar contra o governo republicano inicia a Guerra Civil Espanhola.
  • 1944 O presidente americano Harry Truman, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stalin se reúnem em Potsdam para deliberar sobre o futuro da Alemanha.
  • 1944 Nasce no Rio de Janeiro o jogador Carlos Alberto Torres, o “Capitão do Tri”, líder da Seleção Brasileira na Copa de 1970.
  • 1967 Morre em Huntington, Nova Iorque, o saxofonista e compositor americano John Coltrane, um dos maiores nomes do jazz.
  • 1968 O partido pan-arábico e antiimperialista Ba’ath depõe Abdul Rahman Arif no Iraque e assume o poder com Ahmed Hassan al-Bakr como presidente.
  • 1973 Enquanto passa por cirurgia na Itália, o rei afegão Mohammed Zahir Shah é deposto pelo primo Mohammed Daoud Khan.
  • 1976 O Timor Leste é anexado pela Indonésia.
  • 1976 Abertura das Olimpíadas de Montreal; 25 países africanos boicotam o evento devido à participação da Nova Zelândia, que participou de eventos esportivos na África do Sul durante o apartheid.
  • 1979 O ditador da Nicarágua, general Anastasio Somoza Debayle, se demite e foge para Miami.
  • 1994 O Brasil conquista sua quarta Copa do Mundo vencendo a Itália, nos pênaltis, no Rose Bowl em Pasadena, Califórnia.
  • 1995 Morre em Buenos Aires o ex-piloto argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial de Fórmula 1.
  • 1998 Terremoto em Papua Nova Guiné provoca tsunami que destrói 10 vilas do país, matando cerca de 2700 pessoas.
  • 1998 A corte internacional é estabelecida em Haia, na Holanda, para processos contra genocídio, crimes contra a humanidade e de guerra.
  • 2007 O Airbus A320 do voo 3054 da TAM colide contra armazém da companhia vizinho ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, matando 199 pessoas.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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