Há um Século no CP

A quadrilha fluminense organizada por ex-senador da República

Da edição do dia 24 de junho de 1925, quarta-feira, edição n. 148

Um ex-senador da República e seu filho são acusados de comandar uma organização criminosa que praticava extorsões, roubos, furtos e assassinatos no interior fluminense. O alegado chefe criminoso não teve a identidade revelada, mas seu alto cargo motivou um escândalo nacional
Um ex-senador da República e seu filho são acusados de comandar uma organização criminosa que praticava extorsões, roubos, furtos e assassinatos no interior fluminense. O alegado chefe criminoso não teve a identidade revelada, mas seu alto cargo motivou um escândalo nacional Foto : CP Memória

“O vespertino ‘A Noite’ publicou, hoje, o seguinte tópico: ‘A denúncia era gravíssima. Imediatas providências se impunham por parte das autoridades policiais fluminenses. Uma perigosa quadrilha estava operando no 2º distrito do município de Sapucaia [no interior fluminense], dizendo-se até que com conivência de políticos do lugar. O chefe de polícia mandou então abrir um rigoroso inquérito. Tudo estava sendo operado naquele recanto do território fluminense, quando um acontecimento sensacional veio dar-se, justamente na ocasião em que o processo devia ser remetido ao juiz de direito: o escrivão da polícia fugira, desaparecendo com os autos! Há pouco tempo, chegou ao conhecimento do sr. Oscar Fontenelle, chefe de polícia do Estado do Rio, que no lugar chamado Anta, 2º distrito de Sapucaia, um senador, que mais tarde se fizera negociante e depois fazendeiro, organizara uma quadrilha, tendo a seu serviço empregados para furtar nas fazendas da localidade, casas de negócio e particulares, tudo que representasse valor, começando pela criação de aves, vasilhames para fabricação de açúcar, como talhas, etc. Passando depois ao roubo de cavalos, bois, carneiros, nas fazendas a indústria desenvolveu-se e, desde logo, o perigoso bando dividiu-se em vários outros, cabendo a chefia de um deles a um filho do senador, que se fizera fazendeiro, e de um outro a um filho de um fazendeiro de uma vizinha localidade.

Estabelecida a concorrência entre os pequenos grupos, eles se digladiavam, chegando-se a registrar conflitos sangrentos, dos quais a polícia não chegava a ter senão vagas notícias. Passaram assim do terreno da pilhagem para o do assassinato. Vários viajantes, assaltados em plena estrada, não tinham tempo para reagir, entregando aos salteadores a carteira recheada que levavam. Tão frequentes foram se tornando os assaltos, que a polícia não os pode mais esconder, principalmente quando se divulgou a notícia de um assalto e roubo a um negociante que conduzia a soma de 12 contos. Esse negociante, que devia ser assassinado para lhe ser roubado o dinheiro, chamava-se João Garcia, estabelecido com casa de calçados, mais conhecida por 'Casa Ernesto Medeiros'. O plano, porém, fracassara, pois um freguês que estava no balcão da referida casa atrapalhara o serviço de um dos mandatários, segundo se refere em seu depoimento, livrando com pena o felizardo negociante. Assim se salvou João Garcia da morte. Em Anta, apura-se não só aquele fato, como ainda todos os roubos e crimes praticados, ficando assim tudo convenientemente esclarecido. Estavam, desse modo, desmascarados os chefes e outros elementos das perigosas quadrilhas.

Foi nessa altura que fugiu o escrivão, desaparecendo com os autos. O escrivão, que se chama Casemiro da Silva Rosa, foi quem se encarregou de fazer desaparecer os autos, fugindo com eles para lugar ignorado. O fato, que causou escândalo, chegou ao conhecimento do governo fluminense. Aberto inquérito administrativo, por determinação do sr. Arnaldo Tavares, secretário do Interior e Justiça, foi Casemiro Rosa, que também exercia o cargo de escrivão de paz, exonerado desse cargo, a bem do serviço público. Nessa mesma ocasião, o sr. Oscar Fontenelle, chefe de polícia, mandava chamar a Niterói o subdelegado de Anta, determinando-lhe a abertura de novo inquérito. Por outro lado, o chefe de polícia determinava novas diligências para captura de Casemiro da Silva Rosa, as quais foram coroadas de êxito, pois foi ele preso quando, numa mesa, bancava o jogo de cartas. Levado para Niterói, foi ele recolhido ao xadrez da polícia central, onde se encontra à disposição das autoridades judiciárias.’”

Imunidades?

A polícia fluminense anda aos tombos com uma perigosa quadrilha de larápios e facínoras, que, do distrito de Anta, irradia para as zonas vizinhas, enchendo-as com as suas façanhas rocambolescas. Com efeito, há muito se vinham sucedendo no Estado do Rio, afirma um diário carioca, os roubos, os ataques de emboscada, os assassinatos em condições misteriosas. A polícia não conseguia deitar mãos aos meliantes, que cada vez operavam com mais desembaraço. De pequenos furtos passaram a depredações de maior vulto, ao roubo de gado e de toda a sorte de valores, não falando, por último, da tocaia na estrada, a mão armada, com a clássica imposição: a bolsa ou a vida. Não raro, tiraram da vítima, para mais segurança, uma outra coisa. Tudo isso era mais ou menos cinematográfico. Como, porém, houvesse desacordos entre os personagens da fita, representada ao vivo no silêncio da noite, e como, por fim, o bando, já numeroso, se dividisse em grupos rivais, que entraram a se digladiar, pode a polícia encontrar um indício para esclarecer o caso alarmante. E tanto o esclareceu que chegou a descobrir que o chefe, que recrutou a malta e a mantinha sob suas ordens, era nada mais, nada menos, que um ex-senador da República, sob cujo nome o jornal informante guardou sigilo. Por quê? Será que esse ex-órgão da soberania nacional tenha apelado para as imunidades parlamentares?...”

Morte acidental de um acadêmico

“O acadêmico Urbano de Vasconcellos, filho do finado senador Augusto de Vasconcellos, foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas no Laboratório de Histologia Patológica da Escola de Medicina [do Rio de Janeiro]. Acredita-se que o jovem acadêmico, fechando-se no laboratório a fim de fazer qualquer preparação, tenha aberto o bico de gás, intoxicando-se.”

“Parece afastada a hipótese do suicídio do acadêmico Urbano de Vasconcellos. Os antecedentes da vítima revelam o seu grande amor aos estudos. O fato, melhor explicado, adianta que Urbano ficara só na escola, dentro do laboratório. Tão distraído estava nos seus estudos que não se apercebera de ter anoitecido. Parece que foi por essa ocasião que a intoxicação produziu seus efeitos. O isolamento do laboratório não permitiu que qualquer pessoa notasse anormalidades, tanto mais que todos supunham que a escola estava deserta. Esta manhã, como o professor pedisse ao bedel a chave do laboratório, declarou este que a chave não estava em seu poder. Intrigado, o professor subiu ao laboratório, encontrando o seu aluno moribundo. Diante dos demais alunos aterrorizados, o professor Osório de Almeida declarou que só existia um recurso: o da transfusão de sangue. Diante disso, todos os colegas do infeliz acadêmico se ofereceram para a operação, sendo dentre eles escolhidos dois: os jovens Vital Brasil, filho do cientista do mesmo nome, e Annibal Pereira. A operação foi tentada imediatamente, chegando Urbano a reanimar-se. Apesar dos esforços empregados, recaiu no estado de prostração, vindo a falecer às 13 horas, cercado por todos os professores e alunos da Faculdade. Os colegas resolveram custear todas as despesas do funeral, saindo o féretro da Faculdade.”

“Foi realizado, com grande demonstração de saudade dos seus companheiros e professores, o enterro do acadêmico Urbano Vasconcellos. Todos contestam a ideia de um suicídio, declarando a própria família que nenhum motivo havia para isso. Os acadêmicos que deram o seu sangue para a transfusão vão passando bem.”

Amundsen vai voar novamente ao ártico

“O explorador Roald Amundsen, lacônico na sua comunicação, declarou que reencetará o voo ao Polo Norte. Os demais membros da missão estão, igualmente, animados desse desejo. Seis componentes da expedição chegaram, em aeroplano, próximo a King’s Bay, sendo recolhidos por navios de pesca, que os levaram até esse ponto.”

O continente ártico não existe

“O sr. Peter Freuchen, famoso explorador dinamarquês e que se acha intimamente ligado à expedição de Roald Amundsen, declarou que, antes de regressar, a mesma procurou fazer observações, por meio de uma sonda, a 3.700 metros, sem atingir fundo, o que indica a não existência de continente ártico, justificando-se as conclusões do explorador norte-americano almirante Peary, que, quando descobriu o Polo Norte, também afirmou não haver terra naquela região.”

Greve boliviana

“A situação da greve dos ferroviários agravou-se com os atentados criminosos verificados. Os mais importantes destes são os seguintes: o incêndio de duas pontes de madeira nas proximidades desta capital [La Paz]; o descarrilamento de um trem internacional de Antofagasta, próximo de Oruro; a tentativa de descarrilamento do trem noturno de La Paz a Oruro, nas proximidades dessa última localidade; o descarrilamento do trem de Oruro a Cochabamba, no quilômetro 102, no qual, felizmente, não se deram desgraças pessoais. Um batalhão ferroviário repara os danos em todas as linhas. Todos os trens circulam com tropas. [...]”

O dia 24 de junho na história

  • 1793 A primeira constituição republicana é adotada na França revolucionária.
  • 1812 O exército francês de Napoleão atravessa o rio Neman, iniciando a invasão da Rússia.
  • 1821 O exército venezuelano, liderado por Simón Bolívar, vence as forças espanholas na Batalha de Carabobo, confronto decisivo na guerra de independência da Gran Colômbia.
  • 1880 Nasce em Encruzilhada do Sul o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata (1910).
  • 1894 O presidente francês, Sadi Carnot, é assassinado a facadas em Lyon pelo anarquista italiano Sante Geronimo Caserio.
  • 1911 Nasce em Balcarce o piloto argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial de Fórmula 1.
  • 1911 Nasce em Rojas o escritor, médico e pintor argentino Ernesto Sabato.
  • 1916 Mary Pickford se torna a primeira estrela de cinema mulher a assinar contrato de um milhão de dólares.
  • 1932 Golpe de Estado não violento liderado pelo grupo Khana Ratsadon encerra a centenária monarquia absoluta no Sião (atual Tailândia).
  • 1938 Pedaços de meteorito caem sobre a vila de Chicora, na Pensilvânia: se estima que o meteorito pesava 450 toneladas quando atingiu a atmosfera terrestre.
  • 1939 O Sião é renomeado Tailândia por Plaek Phibunsongkhram, terceiro primeiro-ministro do país.
  • 1944 Nasce na Grande Londres o músico inglês Jeff Beck, um dos maiores guitarristas da história.
  • 1945 O primeiro desfile do Dia da Vitória é realizado na Praça Vermelha, em Moscou, comemorando a vitória soviética sobre o nazismo.
  • 1947 O aviador, empresário e político americano realiza o primeiro relato público de um avistamento de OVNI próximo a Mount Rainier, estado de Washington, EUA.
  • 1948 COmeça o Bloqueio de Berlim: a URSS impede o trânsito entre as zonas ocidental e oriental da cidade alemã.
  • 1950 O grupo de leis chamado Group Areas Act é aprovado na África do Sul, segregando formalmente negros e brancos no sistema de Apartheid.
  • 1963 A Grã-Bretanha confere autogoverno ao arquipélago de Zanzibar, hoje pertencente à Tanzânia.
  • 1978 Nasce em San Fernando o ex-jogador Juan Ramón Riquelme, atual presidente do clube Boca Juniors.
  • 1987 Nasce em Rosario o jogador argentino Lionel Messi, um dos melhores futebolistas da história.
  • 1990 O Brasil é eliminado da Copa do Mundo na Itália ao perder para a Argentina por 1 a 0 em Turim.
  • 1995 A África do Sul vence a Nova Zelândia em Joanesburgo na final da Copa do Mundo de rugby e Nelson Mandela entrega o troféu ao capitão Francois Pienaar em imagem icônica pós-apartheid.
  • 2012 Morre com mais de cem anos George Solitário, o último indivíduo de subespécie de tartaruga de Galápagos.
  • 2013 O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi é condenado a sete anos de prisão por abuso de poder e sexo com uma menor.
  • 2023 O grupo mercenário russo Wagner, liderado por Ievguéni Prigójin, lança uma insurreição contra o governo russo.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios