Há um Século no CP

Alerta na Casa de Correção

A edição do dia 2 de junho de 1925, terça-feira, edição n. 129, noticiava

O presídio marcou a paisagem urbana da Capital por mais de um século. As oficinas da Casa de Correção produziam móveis que eram comprados pelo governo do Estado para equipar escolas públicas e até mesmo o próprio Palácio Piratini. Em 1954, os apenados iniciaram um incêndio como parte de um plano de fuga
O presídio marcou a paisagem urbana da Capital por mais de um século. As oficinas da Casa de Correção produziam móveis que eram comprados pelo governo do Estado para equipar escolas públicas e até mesmo o próprio Palácio Piratini. Em 1954, os apenados iniciaram um incêndio como parte de um plano de fuga Foto : CP Memória

“Às 18:30 horas de ontem, verificou-se um princípio de incêndio nas oficinas de marcenaria da Casa de Correção. Nessas oficinas trabalham diariamente numerosos presidiários, os quais, depois da terminação do serviço, são recolhidos, devidamente contados e revistados pelos guardas internos, às suas respectivas celas. As oficinas em questão acham-se situadas nos fundos do estabelecimento penal, a poucos metros distante do pavilhão onde funciona a usina elétrica, recentemente inaugurada, e ocupa uma área de 50 metros de comprimento por 20 de largura, pouco mais ou menos. [...]

Um pouco antes da hora acima mencionada, encontrava-se no seu gabinete de trabalho o dr. Plauto de Azevedo, administrador do estabelecimento penal [...] o dr. Plauto de Azevedo retornava aos seus afazeres, quando foi surpreendido por um grito de ‘às armas’. Apenas se levantara para sindicar sobre o que de anormal ocorria, outro grito de ‘às armas’, desta vez mais forte, se fez ouvir por toda a penitenciária. [...]

Nenhuma conjectura se podia fazer, no momento, pois do extenso paredão que separa o presídio propriamente dito do pátio da entrada principal, ignorava-se completamente o que se passava. Como era natural, o pânico entre os presidiários não se fez demorar. Apesar de estarem recolhidos à chave, em seus compartimentos, bradavam, a maioria em altas vozes, dando a impressão de uma revolta. Quinhentos e tantos reclusos ali estão recolhidos, e só a ideia de um incêndio os levaria a se manifestarem deste modo, na impossibilidade de fazê-lo por outros meios. Minutos após, esclarecia-se a situação. O oficial comandante da guarda dali voltara, esclarecendo o ocorrido.

Um princípio de incêndio lavrara nas oficinas de marcenaria. Imediatamente, o dr. Plauto de Azevedo avisou pelo telefone o Corpo de Bombeiros, comunicando também o ocorrido à 1ª delegacia. Em seguida, dirigiu-se ele para o local do sinistro, encontrando o fogo extinto, graças aos esforços dos guardas Alvarenga e José Martins, os quais, auxiliados por alguns presidiários, dominaram o terrível elemento a baldes d'água. Com a presteza habitual, compareceram duas prontidões do Corpo de Bombeiros, sob o comando do capitão Pozzo Bravo, sendo porém desnecessários os serviços dessa corporação. Momentos depois, compareceu, em automóvel, o dr. Pompílio de Almeida, delegado judiciário do 1º distrito. [...]

Sobre as causas do incêndio nada de positivo ainda ficou apurado. O soldado do 3º batalhão da Brigada Militar, de nome João Palmeiras, que ocupava a guarita n. 3, próxima às oficinas de marcenaria, foi quem primeiro deu o alarme, avisando a tempo o sentenciado José Christoffel, que por ali passava. O fogo destruiu a parte que dá para os fundos das oficinas, inutilizando alguns móveis. Os presos interrogados pelo dr. Pompílio declararam que às 16:30 horas deixaram a marcenaria, a qual foi devidamente fechada, e que nada de anormal notaram. Julgam, porém, tratar-se de um descuido dos presos, que ali trabalham, deixando por esquecimento algumas brasas acesas num pequeno fogão que serve para aquentar cola [...]”

A Casa de Correção de Porto Alegre, o “Cadeião”, foi a principal instituição penal da cidade por mais de um século: funcionou entre 1855 e 1962, substituindo a “cadeia velha”. Ficava ao lado da atual Usina do Gasômetro (as ruínas do portão de entrada do grande edifício foram recentemente reveladas durante a revitalização da praça Júlio Mesquita). Relato de um viajante alemão no fim do século XIX dizia que o presídio era “alegre”, com cantorias e brincadeiras entre os detentos. Décadas depois, com o crescimento exponencial da população carcerária, as condições dos detentos pioraram sensivelmente. A marcenaria referida na notícia foi uma das oficinas que integravam o complexo da Casa. Ali os presos aprendiam técnicas e ofícios e trabalhavam produzindo mobiliário. A Casa de Correção foi dinamitada em 1962.

Artigo de Mussolini

“O presidente do Conselho de Ministros, sr. Mussolini, publicou um artigo em seu magazine ‘Gerarchia’ [Hierarquia], no qual diz o seguinte: ‘O trabalho aufere maiores benefícios onde o capitalismo é mais poderoso. O capitalista inteligente é suficientemente avisado para não deixar de fornecer lares higiênicos e confortáveis aos operários’. Mais adiante, falando sobre o patriotismo, acrescenta o seguinte: ‘Ainda mais. A ideia de patriotismo significa a subordinação das massas sindicalistas às exigências de toda a nação, quer nas épocas pacíficas, quer no tempo de guerra. Em segundo lugar, os sindicalistas consideram o capital como um elemento que não pode ser suprimido, mas, pelo contrário, libertado e fortalecido’.”

Matteotti

“O primeiro aniversário do assassinato de Giacomo Matteotti [deputado socialista italiano assassinado por fascistas em 10 de junho de 1924], que ocorrerá a 10 do próximo mês de junho, será celebrado em toda a Itália com a cessação do trabalho durante 15 minutos. A oposição parlamentar vai reunir-se para assentar as homenagens que serão prestadas, nesse dia, à memória do malogrado ‘leader’ socialista. O sr. Turati encarregar-se-á de fazer, na sessão da Câmara, o elogio de Matteotti.”

Sentimento antijaponês

“Tendo um contramestre japonês matado um operário chinês, na recente greve dos tecelões, nesta cidade [Xangai], originou-se um movimento antijaponês. Numa manifestação, a polícia matou seis pessoas. A multidão maltratou os policiais britânicos.”

“Registrou-se sério tumulto devido à prisão dos cabeças de uma manifestação de estudantes de propaganda anti japonesa. A polícia fez fogo contra a multidão, matando seis pessoas e ferindo muitas outras. Foram feitas muitas prisões.”

Numa grande manifestação antijaponesa em consequência da prisão de grupos de estudantes que espalharam panfletos antijaponeses, a polícia atirou contra a multidão, matando seis e ferindo várias pessoas. Foram feitas muitas prisões.”

Lixeiras

“Não felicitamos o público de Porto Alegre pelo melhoramento introduzido nesta capital, com a ereção, nos cantos da praça da Alfândega, das caixas monumentais para depósito de papéis. É, sem dúvida, muitíssimo oportuna a lembrança do sr. dr. intendente de distribuir pelas principais ruas e logradouros pequenas caixas que, sem prejudicar-lhes a estética e a perspectiva, concorram para que lhes conserve o asseio e a limpeza necessários. Aplaudimos a ideia, sem reservas, mas protestamos, também sem reservas, os torreões espetados nos ângulos da praça da Alfândega e que estão ali como que a substituir os antigos quiosques onde se vendiam jornais, cigarros e gasosas. Com franqueza, em matéria de melhoramentos, poder-se-ia dizer, paradoxalmente, que este melhorou, piorando... E já que a edilidade deseja evitar os papéis inúteis que, atirados à rua, a enfeiavam, devia evitar igualmente o triste papel, que representam na estética urbana, as mastodônticas caixas, ora colocadas, a pretexto de asseio, no mais concorrido dos nossos jardins.”

O dia 2 de junho na história

  • 455 Roma é saqueada durante duas semanas pela tribo germânica dos Vândalos, originando o termo “vandalismo” para destruição gratuita.
  • 1882 Morre na Sardenha o general revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, “herói dos dois mundos”, central na unificação italiana.
  • 1896 O engenheiro elétrico italiano Guglielmo Marconi solicita a patente para o seu telégrafo sem fio, precursor da radiotelegrafia.
  • 1946 Referendo popular decide pela abolição da monarquia na Itália e a república é proclamada.
  • 1953 A coroação da rainha britânica Elizabeth II em Londres se torna um dos primeiros grandes eventos transmitidos pela TV.
  • 1962 EM partida pela Copa do Mundo, Chile e Itália protagonizam uma das partidas mais violentas da história, com diversas intervenções da polícia.
  • 1970 Morre em Milão o poeta, jornalista, crítico e escritor italiano Giuseppe Ungaretti.
  • 2003 A primeira espaçonave europeia a viajar para Marte, a Mars Express, é lançada do centro espacial de Baikonur, no Cazaquistão.
  • 2012 O ex-presidente egípcio Hosni Mubarak é sentenciado à prisão perpétua pela sua participação no assassinato de manifestantes durante a Primavera Árabe.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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