Há um Século no CP

Associação comercial da Capital pede o fim das feiras livres

Da edição de 11 de novembro de 1925, quarta-feira, n. 268

Apesar de reconhecer a importância das medidas organizadas pelo poder municipal a fim de combater a carestia, a associação comercial da Capital solicitou à Intendência o fim das feiras livres argumentando concorrência desleal
Apesar de reconhecer a importância das medidas organizadas pelo poder municipal a fim de combater a carestia, a associação comercial da Capital solicitou à Intendência o fim das feiras livres argumentando concorrência desleal Foto : CP Memória

“A Associação Comercial dos Varejistas, em várias reuniões, tem tratado do funcionamento das feiras livres criadas pela Intendência Municipal, alegando, sócios daquela associação, fazer-se necessária a extinção em vista da concorrência que elas estão fazendo ao comércio varejista. Na última sessão de diretoria, este assunto foi objeto de discussão, ficando, então, resolvido enviar-se o seguinte memorial ao intendente municipal: ‘Exmo. sr. dr. Octavio D. d. Francisco da Rocha, intendente municipal de Porto Alegre. A Associação Comercial dos Varejistas, no intuito de harmonizar, tanto quanto possível, os interesses do comércio varejista da capital com as disposições que v. exc. houve por bem tomar em defesa do consumidor dos gêneros de primeira necessidade, resolveu dirigir-se a v. exc. expendendo algumas considerações na parte que concerne ao funcionamento das feiras livres. Peça de relativa importância do vasto mecanismo que v. exc. organizou para dar combate incessante à carestia da vida, as feiras livres tiveram, é certo, a sua oportunidade, e a Associação dos Varejistas, que tem acompanhado sempre com o interesse que a magnitude do assunto requer, a patriótica ação por v. exc. tão bem orientada nesse sentido, reconhece que, se na esfera do honrado comércio varejista elas nunca tivessem produzido o resultado milagroso que muitos esperavam, ao longe, nos centros produtores e atacadistas entretanto se refletiram eficaz e beneficamente os intuitos altamente nobres que presidiram à criação das referidas feiras livres. Atualmente, porém, que a época mais calamitosa passou, cedendo lugar a uma perspectiva de melhores dias para a nossa população, já pela ação sempre vigilante de v. exc., já pela baixa natural e bastante sensível que têm sofrido certos produtos de primeira necessidade, restabelecendo pouco a pouco o equilíbrio tão necessário entre o comerciante contribuinte e o povo em geral, estamos certos de que, por essência mesmo de sua atual prescindibilidade, pouco a pouco as feiras livres irão naturalmente se extinguindo. O que, porém, esta Associação pede agora a v. exc., que é mesmo o único objeto da presente petição, é a cessação do funcionamento das ditas feiras livres aos domingos, pois que, de acordo com leis sabiamente votadas nos últimos anos pelo meritíssimo Conselho Municipal, o comércio varejista em geral de secos e molhados não pode nem deve abrir suas portas nesses dias, respeitando assim as leis do descanso dominical, hoje, como aliás, entre nós, universalmente respeitadas. São, portanto, perfeitamente justas e cabíveis as constantes queixas que a esta Associação são dirigidas pelos comerciantes assim lesados, e estamos certos de que ao esclarecido espírito de v. exc. não será indiferente tal circunstância, que, cremos, será prontamente sanada por v. exc., em quem esta Associação continua cada vez mais a confiar, prestigiando em tudo, em que estiver ao seu alcance e de seus sócios, a profícua e frutuosa gestão que v. exc. vem evidenciando para a felicidade e bem-estar da coletividade porto-alegrense. Sirva-se aceitar v. exc. os nossos permanentes protestos da maior estima e apreço. Pela Associação Comercial dos Varejistas — José da Costa Dias, presidente. Porto Alegre, 11 de novembro de 1925’. Ontem, uma comissão esteve na Intendência Municipal, entregando o memorial ao intendente municipal, que prometeu estudá-lo, dando, após, uma solução.”

_

Moralização

“O juiz de menores, tendo recebido denúncia de que as escolas de danças [no Rio de Janeiro] eram frequentadas por moças de menor idade, pediu providências ao chefe de polícia, que encarregou o segundo delegado de proceder a diligências e averiguar o fundamento da denúncia. Ontem à noite, o delegado surgiu com o juiz de menores em algumas dessas escolas, onde encontrou mais de vinte menores em promiscuidade com mulheres de conduta duvidosa e homens conhecidos como libertinos. Todas as menores foram acompanhadas e entregues às respectivas famílias, sendo as proprietárias das escolas intimadas a não admitir menores, sob pena de fechamento das escolas. Numa dessas casas, um indivíduo que se dizia alto funcionário do Itamaraty protestou escandalosamente contra o ato da polícia, como violador das disposições da Constituição. Foi ele convidado, por isso, a ir à Polícia Central para dar explicações. Os jornais aplaudem o gesto da polícia, que consideram moralizador para a família brasileira.”

_

Campeão pastoril

“O último recenseamento registrou as seguintes cifras de gado bovino, ovino e caprino, a saber: ovino, 7.933.000 cabeças; bovino, 34.271.000 e caprino, 5.058.000 cabeças. De todos os Estados, o mais rico é o do Rio Grande, que possui um rebanho de 8.489.000 cabeças de gado bovino, 4.858.000 ovinos e 94.413 caprinos. O segundo Estado é o de Minas, com 7.333.000 bovinos, 310.000 ovinos e 205.000 caprinos. Em terceiro lugar aparece Goiás, com um total de 3 milhões de cabeças, vindo em quarto lugar Mato Grosso, com 2.800.000; em quinto, Bahia, com 2.689.000; e em sexto, São Paulo, com 2.441.000 cabeças. Em gado caprino, a Bahia ocupa o primeiro lugar, com 1.419.000 cabeças. A porcentagem maior em gado leiteiro é composta de mestiços holandeses.”

_

Praça Quinze x Praça da Alfândega

“Em disputa do campeonato anual do ‘sport’ bretão, deverão encontrar-se sexta-feira pela manhã, no campo do Cruzeiro, gentilmente cedido pela diretoria alviazul, os ‘teams’ compostos dos ‘chauffeurs’ [taxistas] das praças Quinze de Novembro e da Alfândega. Como nos anos anteriores, haverá uma festa campestre em seguida ao ‘match’, devendo ser servido abundante chope com sanduíches, etc. Aos vencedores serão oferecidas, por um conhecido ‘sportman’, onze medalhas de prata. Amanhã daremos a publicação dos ‘teams’ contendores, bem como de outros detalhes dessa festa anual.”w

_

Inferno

“Diz o Estado de S. Paulo: ‘Ser juiz de uma partida de ‘foot-ball’, em S. Paulo, é um perfeito inferno. A esses moços que se prestam a entrar num gramado não bastam mais as atribulações do cargo, a responsabilidade das decisões, o pesado fardo de uma constante pressão que, insensível e naturalmente, sobre eles se exerce, desde que sejam obrigados a apitar uma falta contra este ou aquele dos adversários. No seu apito, muitas e muitas vezes, se concentra a vitória de um dos bandos contendores e eles portanto precisam, para agir bem e com imparcialidade, de uma atmosfera, pelo menos, de cortesia e delicadeza. Tal, entretanto, não sucede em nossos campos; não sucede há muito tempo. Passamos alguns meses sem que tivéssemos fatos notáveis a apreciar quanto a este ponto. Ontem, porém, durante a partida que se travou no campo do Corinthians entre o Auto F. C. e o Santos F. C., novamente a falta de cortesia se fez sentir poderosamente. O conceito muito pequeno da sua posição, que fazia uma parte da assistência, veio prejudicar sensivelmente a perfeita atuação do árbitro dessa partida. Os nossos leitores conhecerão o incidente em suas minúcias: deixamos de lado o que se passou entre jogadores no campo [...] O que houve fora, entre assistentes, mereceu da nossa parte o devido reparo. Falta apenas comentarmos o que sucedeu com o árbitro que, graciosamente, e depois de insistentes pedidos de diretores de ambos os ‘clubs’ — ou do ‘club’ da capital — se prestou a atuar nesse jogo. Em certo momento, descontente, a assistência vaiou-o; a vaia tem um efeito contraproducente em casos tais; e o que aconteceu ontem foi isso mesmo: o árbitro da partida deixou-se influenciar pelas vaias e, nervoso, por certo ficou, como se diz vulgarmente, tonto. Infelizmente, esse mal não tem remédio. Contentemo-nos em afirmar, ainda uma vez, que ser juiz de um encontro de ‘foot-ball’ é um inferno...”

_

O dia 11 de novembro na história

  • 1750 Começa em Lhasa, capital do Tibet, revolta contra a dinastia chinesa Qing pelo assassinato do novo regente Gyurme Namgyal.
  • 1821 Nasce em Moscou o escritor Fiódor Dostoiévski, autor, entre outros, de “Os Irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo”.
  • 1831 O carpinteiro Nat Turner é enforcado na Virginia após incitar uma revolta de escravos.
  • 1855 Terremoto destrói a região de Edo (Tóquio), no Japão, causando a morte de 7 a 10 mil pessoas.
  • 1855 Morre em Copenhague o teólogo, filósofo e poeta dinamarquês Soren Kierkegaard.
  • 1918 A Alemanha assina o armistício com os Aliados na Picardia, França, encerrando a Primeira Guerra Mundial.
  • 1918 Primeiro dia (simbólico) da independência da Polônia: Józef Piłsudski assume o poder supremo militar no país.
  • 1922 Nasce em Indianápolis o escritor americano Kurt Vonnegut, autor de “Matadouro 5” e “Café da manhã dos campeões”.
  • 1923 Adolf Hitler é preso em Munique acusado de alta traição pela sua participação no Putsch da Cervejaria.
  • 1960 Golpe militar contra o presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, é esmagado.
  • 1965 O primeiro-ministro da Rodésia do Sul, Ian Smith, declara unilateralmente a independência da colônia britânica, sem obter reconhecimento.
  • 1974 Nasce em Los Angeles o ator e produtor americano Leonardo DiCaprio.
  • 1975 Angola obtém a independência de Portugal como estado socialista.
  • 1982 Columbia, a primeira missão do programa de ônibus espaciais da NASA, é lançada no Centro Espacial Kennedy.
  • 2004 Morre na França o líder palestino Yasser Arafat.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

Mais Lidas