“Foi coroado de grande imponência o concurso oficial de blocos e cordões, promovido pelo Bloco Não Sai, realizado ontem à noite, no Theatro Apollo. Foi uma festa brilhantíssima, sob todos os aspectos. Incalculável massa de povo tomou literalmente as amplas dependências do Apollo, em cujas proximidades estacionou, desde cedo, vertiginosa multidão de pessoas que não conseguiram entrada no teatro.
Às 21 horas, na estação do Riacho, teve lugar, como complemento da grande festa, a recepção a deus Momo, com a comparência de todos os blocos e cordões inscritos no concurso e muito povo. Após a chegada do soberano da Folia, dirigiram-se os blocos para o local onde, momentos após, devia ferir-se a renhida e empolgante luta carnavalesca, que constituiu, sem dúvida, um belo prenúncio do carnaval de 1926. Ao Theatro Apollo, desde o escurecer, começou a afluir uma compacta multidão que, aos poucos, se ia avolumando de tal forma que, não existindo mais lugar no vasto recinto daquele centro de diversões, foi proibida a venda de entradas. O povo, então, começou a encher as escadarias da Santa Casa e a frente do teatro para aplaudir os concorrentes ao concurso. Estes chegaram cerca das 22 horas, acompanhando S. M. o deus Momo, fazendo então a sua entrada no Apollo debaixo das aclamações de seus torcedores. Verificou-se, por ocasião da entrada, que haviam deixado de comparecer os seguintes blocos: Fidalgos, Temidos e Quem Ri de Nós Tem Necessidade. O primeiro destes, porém, por intermédio de uma comissão, justificou a sua ausência com o fato de não terem ficado terminadas as suas fantasias. S. M., o deus Momo, ocupando um dos camarotes, acompanhado pelo seu séquito, dirigiu a palavra aos vassalos do Reinado da Folia.
As comissões julgadoras foram, então, ocupar os lugares que lhes haviam sido destinados para que se pudesse dar início ao concurso. Para o julgamento da parte de canto e composições musicais fora constituída uma comissão dos seguintes profissionais, todos professores do Conservatório de Música: Assuero Garritano, Amadeu Luchesi, Radamés Gnattali, Sotero Cosme, Armando Albuquerque e Oscar Simm. O julgamento das fantasias, lanternas e remeleixo foi feito por uma comissão composta de representantes da imprensa.
O concurso foi iniciado às 22 horas. Cada um dos blocos e cordões concorrentes, de acordo com o regulamento caprichosamente organizado pelo congresso carnavalesco, executava uma marcha, um samba e uma canção, retirando-se em seguida do palco para dar lugar ao outro concorrente. Por esta forma se exibiram, respectivamente, os seguintes concorrentes: ‘Passa Fome Anda Gordo’, ‘Tesouras’, ‘Batutas’, ‘Vampiros’, ‘Chora na Esquina’ e ‘Atravessados’.
Terminada a exibição dos concorrentes, recolheram-se as comissões julgadoras à secretaria do Teatro Apollo, de onde depois saíram para proclamar o resultado, que foi o seguinte:
Fantasias:
1º lugar, Atravessados, com 37 pontos.
2º lugar, Vampiros, com 34.
3º lugar, Batutas, com 22.
4º lugar, Tesouras, com 20.
5º lugar, Chora na Esquina, com 15.
6º lugar, Passa Fome Anda Gordo, com 8.
Lanternas:
1º lugar, Vampiros, com 48 pontos.
2º lugar, Atravessados, com 39.
3º lugar, Chora na Esquina, com 20.
4º lugar, Tesouras, com 15.
5º lugar, Passa Fome e Anda Gordo, com 6.
Remeleixo:
1º lugar, Tesouras, com 40 pontos.
2º lugar, Vampiros, com 37.
3º lugar, Atravessados, com 23.
3º lugar, Chora na Esquina, com 23.
4º lugar, Passa Fome e Anda Gordo, com 10.
5º lugar, Batutas, com 6.
Canto:
1º lugar, Vampiros, com 204 pontos.
2º lugar, Batutas, com 183.
3º lugar, Tesouras, com 163.
4º lugar, Atravessados, com 162.
5º lugar, Chora na Esquina, com 158.
6º lugar, Passa Fome e Anda Gordo, com 135.
Este resultado foi proclamado de uma das sacadas do Apollo, sendo recebido com prolongadas salvas de palmas pelos torcedores e componentes dos concorrentes que, formados, o esperavam na rua. Os Vampiros, que venceram merecidamente o concurso de canto, desfilaram após a luta pela rua dos Andradas, acompanhados de grande número de admiradores. Estacionaram eles em frente da nossa redação, onde foram entusiasticamente aplaudidos nos vários números que executaram.”
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Denominação de ruas
“Como é do conhecimento público, o dr. Octavio Rocha, intendente municipal, por atos baixados em 30 de setembro e 23 e 27 de outubro do ano passado, resolveu, por motivos então publicados pela imprensa, dar denominação às ruas que, partindo da face norte da praça Senador Florêncio, vão terminar na Avenida do Porto [atual Avenida Mauá]. A primeira dessas ruas, a partir de oeste para leste, no alinhamento da rua 7 de Setembro, passou a denominar-se ‘Rua Capitão Montanha’; a segunda, partindo da mesma direção, ‘Avenida Sepulveda’, e a terceira, de leste para oeste, ‘Cassiano do Nascimento’. Ontem, nos lugares indicados, foram colocadas as placas com a nomenclatura das referidas ruas, as quais são de ferro esmaltado, com fundo azul e letras brancas. Também, no dia 30 de setembro do ano passado, o intendente municipal resolveu suprimir o antigo nome ‘Pontas de Paris’, dado a um trecho de rua que, em sentido transversal, nasce da rua Voluntários da Pátria, estendendo-se uma quadra, quer para a direita, quer para a esquerda, visto o prolongamento da atual e também antiga rua Garibaldi ter encontrado, em linha mais ou menos reta, o referido trecho de rua, passando assim a prevalecer o nome de ‘Rua Garibaldi’ em toda a extensão. A mudança das placas com os dizeres ‘Pontas de Paris’ foi feita anteontem.”
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Primeiras edições
Da edição de 29 de janeiro de 1896, quarta-feira, n. 24
Dourada
“Os leitores conhecem a Dourada? Isto é, nunca ouviram falar na Delfina [...], que ilustra e perlustra o tradicional beco do Poço [na região do cruzamento das atuais Borges de Medeiros e Jerônimo Coelho]? Ouviram, com certeza, pois faz bem pouco tempo que ela levou a uma tentativa de suicídio certo pintor ingênuo que caiu na asneira de se apaixonar por ela. Mas... o caso é este: a Dourada, aliás na forma do costume, fez ofensas à moral pública e foi, por isso, mandada trancafiar no xilindró.”
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Dívida
“O governo alemão intimou o da Venezuela ao pagamento da dívida das estradas de ferro daquela República, julgando-se que o general Crespo, presidente da Venezuela, não pagará essa dívida.”
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O dia 29 de janeiro na história
- 1845 O poema narrativo “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, é publicado pelo The Evening Mirror, de Nova Iorque.
- 1860 Nasce em Taganrog o escritor, contista, dramaturgo e médico russo Anton Tchekhov.
- 1886 O primeiro automóvel movido a gasolina é patenteado pelo engenheiro alemão Karl Benz.
- 1954 Nasce no Mississippi a apresentadora, atriz, escritora e empreendedora americana Oprah Winfrey.
- 1964 Os IX Jogos Olímpicos de Inverno são abertos oficialmente em Innsbruck, na Áustria.
- 1965 A banda britânica The Who faz sua primeira aparição na TV no programa Ready Steady Go!.
- 1966 Nasce no Rio de Janeiro o ex-jogador, campeão mundial com a Seleção em 1994, e político Romário de Souza Faria.
- 1996 O presidente Jacques Chirac anuncia o “fim definitivo” dos testes nucleares franceses.
- 2002 O presidente americano George W. Bush define “os regimes que patrocinam o terror” como “Eixo do Mal”, em referência a Iraque, Irã e Coreia do Norte.
- 2005 O primeiro voo comercial direto entre a China e Taiwan desde 1949 aterriza em Taipei; logo depois, voo taiwanês aterriza em Pequim.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios.
