“Um grande pânico se estabeleceu ontem na Praça Senador Florêncio, pânico que se ia estendendo aos espectadores dos cinemas Central e Guarany e cujas consequências, sobretudo neste último, poderiam resultar verdadeiramente calamitosas, pois que se encontrava àquelas horas com a sua lotação esgotada! Esse pânico, que alvoroçou todas as imediações da referida praça, foi causado por uma desavença entre elementos na nossa polícia administrativa e soldados da Brigada Militar, os quais, sem mais respeito pela vida das pessoas que por ali transitavam ou nos seus bancos se encontravam sentadas, começaram, de parte a parte, num tiroteio desenfreado. Parece-nos que à população, indiferente à animosidade que exista entre esses antagônicos elementos, não pertencerá o encargo de sofrer-lhe as consequências. Seria o cúmulo dos absurdos e das desumanidades. A cena desagradabilíssima de ontem, contudo, não pode nem deve repetir-se. Ela, por todas as formas, só trará consequências desastrosas para todos e, para o próprio governo do Estado e suas superiores autoridades, a sua repetição, pelo menos, não nos parece abonadora nem edificante, atraindo os comentários apaixonados e fortes da imprensa de outros Estados. Restrinja-se a liberdade do porte de armas, a civis ou mesmo a militares, quando não estejam no exercício de suas funções, e teremos certamente muitos crimes evitados, como evitadas as tristes e lamentáveis ocorrências da força, peso o valor da de ontem à noite.
Por volta das 21:30 horas, na Travessa Paysandu [atual rua Caldas Júnior], dois soldados pertencentes ao 4º regimento de infantaria da Brigada Militar, com sede em Pelotas, que aqui se encontram presentemente, achavam-se palestrando com algumas mulheres, moradoras numa pensão ali localizada. Nesse ínterim, o agente n. 169, de nome João M. Soriano, de serviço nas imediações, ciente das ordens em vigor de não permitir, isto é, até às 23 horas, que pessoa alguma converse com mulheres da vida fácil na porta de suas residências, pediu aos referidos soldados, por meios suasórios, que se retirassem. Estes, longe de obedecer à intimação, começaram a proferir impropérios ao agente, o qual se viu na contingência de lhes dar voz de prisão. Novamente, os soldados se negaram a obedecer à ordem. O agente 169, levando o apito à boca, chamou por socorro, vindo então em seu auxílio os agentes 163, Ataulpho Augusto Engestolf, e 79, João Rodrigues dos Santos. Afinal, resolveram os soldados se entregar à prisão. Ao chegarem, porém, nas proximidades da Rua dos Andradas, alegaram eles que só os acompanhariam se os deixassem seguir pela calçada. Ante essa imposição e como os dois soldados procurassem escapulir, os agentes, para amedrontá-los, sacaram de seus revólveres, resolvendo os presos, em vista disso, seguirem para o meio da rua. E assim rumaram eles em direção à delegacia central, sempre protestando contra a prisão, até chegarem nas proximidades da estação da Força e Luz.
Um sargento pertencente ao regimento do qual fazem parte os dois soldados surgiu nessa ocasião e, segundo afirmam algumas testemunhas do fato, tentou libertar os seus camaradas, chegando ao ponto de desrespeitar os agentes. Um dos policiais declarou então que custasse o que custasse haviam de conduzir os presos à presença do delegado de plantão, o qual certamente mandaria avisar ao comandante do regimento sobre o ocorrido, entregando os presos em questão. Houve então protestos de ambas as partes, travando-se acalorada discussão, só serenando com a chegada do tenente Hamilton Leão, que faz parte do 4º regimento de infantaria. Este oficial calmamente tratou de resolver a contenda. Quando o fato estava em vias de ser solucionado, o agente 163 recebeu, de um sargento pertencente à referida milícia, um forte soco nas costas. O policial, exaltando-se, desferiu uma bofetada no aludido oficial, sendo muito comentada essa sua atitude pelos populares ali presentes. Daí originou-se, pois, forte tiroteio, sendo trocados vinte e tantos tiros, aproximadamente. Como era natural, o fato causou grande pânico, pois àquela hora grande era o movimento de famílias que por ali transitavam.
Com os estampidos, correram ao local o inspetor Marinho José da Silva e o auxiliar Pascoal Parulla, fiscal geral do policiamento, o qual pôs termo ao tiroteio, recomendando calma. Felizmente, apesar dos tiros disparados, não foi registrada nenhuma desgraça pessoal. O auxiliar Parulla manteve o ato dos seus subordinados e, mandando chamar a ‘Viúva Alegre’, fez recolher os soldados à delegacia central, ao mesmo tempo que convidava as testemunhas do fato, assim como o tenente Leão, a comparecerem à presença do 2º delegado de plantão.
Na polícia central, as testemunhas se dividiram em duas facções, dando umas razão aos soldados e outras aos policiais, resultando daí não ter sido ainda averiguado de onde partiu o primeiro tiro. Momentos depois, estiveram na delegacia central os drs. Valentim Aragon, subchefe de polícia, e Pompílio de Almeida. Estas autoridades, depois de ouvirem demoradamente os presentes, enviaram ao quartel da Brigada Militar os soldados turbulentos, fazendo recolher ao xadrez o guarda 163, Ataulpho Augusto Engestolff, por ter o mesmo faltado com o devido respeito ao tenente Hamilton Leão.”
. . . . . . . . . . . . . . .
Primeiras edições
Da edição de 20 de dezembro de 1895, sexta-feira, n. 68
Mediação
“O Senado e a Câmara aprovaram unanimemente uma moção congratulatória dirigida ao parlamento dos Estados Unidos a propósito do procedimento de Cleveland [presidente americano] no conflito diplomático da Venezuela com a Inglaterra. No Senado, propôs a moção o dr. Ramiro Barcellos, e na Câmara foi ela apresentada pelo sr. Francisco Glycerio.”
“Foi nomeada pelos Estados Unidos uma comissão de demarcação de limites entre Venezuela e a Guiana Inglesa. Para ocorrer às despesas com esse serviço foram votados cem mil dólares.”
. . . . . . . . . . . . . . .
O dia 20 de dezembro na história
- 1832 O navio britânico Clio chega ao assentamento de Port Egmont para tomar posse das Ilhas Malvinas.
- 1848 Luís Napoleão toma posse como primeiro (e único) presidente da Segunda República Francesa.
- 1917 A Cheka, a primeira polícia secreta soviética, é fundada.
- 1924 Adolf Hitler é liberado da prisão de Landsberg, na Bavária.
- 1940 O personagem Capitão América faz sua primeira aparição nos gibis.
- 1960 O movimento Front Nacional para Libertação do Vietnã do Sul, conhecido como Viet Cong, é formalmente instituído.
- 1968 O serial killer “Zodíaco” mata suas primeiras duas vítimas na Califórnia; sua identidade nunca foi confirmada.
- 1973 O primeiro-ministro espanhol Luis Carrero Blanco morre em atentado executado pela organização nacionalista basca ETA, em Madri.
- 1989 Os EUA invadem o Panamá para depor o governante, general Manuel Noriega.
- 1996 Morre o astrônomo, astrofísico, cosmologista e divulgador científico americano Carl Sagan.
- 1999 O território de Macau é devolvido à China por Portugal após mais de quatro séculos de domínio colonial.
O dia 21 de dezembro na história
- 1375 Morre na Toscana o escritor, poeta e humanista Giovanni Boccaccio, autor do “Decameron”.
- 1598 Os mapuches infringem uma pesada derrota às tropas espanholas no sul do Chile na Batalha de Curalaba.
- 1620 Marco da história dos EUA, os primeiros puritanos (“Peregrinos”) chegam a bordo do Mayflower à costa de Massachusetts.
- 1907 O exército chileno massacra cerca de 2 mil adultos e crianças durante greve de mineiros de salinas em Iquique, no norte do país.
- 1913 O primeiro jogo de palavra-cruzada, inventado por Arthur Wynne, é publicado pelo jornal New York World.
- 1919 A anarquista Emma Goldman é deportada dos EUA para a Rússia.
- 1937 Estreia em Los Angeles o primeiro filme longa-metragem animado, “Branca de Neve e os Sete Anões”.
- 1940 Nasce em Baltimore o músico americano Frank Zappa.
- 1980 Morre no Rio de Janeiro o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues.
- 1991 Líderes de 11 repúblicas soviéticas autônomas assinam o Protocolo de Alma-Ata, estabelecendo a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), desintegrando a URSS.
- 1995 A cidade de Belém, na CIsjordânia, passa do controle israelense para o palestino.
- 2012 Fim de ciclo de cerca de 5126 anos pelo calendário mesoamericano é interpretado como evento cataclísmico, motivando festividades de espiritualistas ao redor do globo.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios
