Há um Século no CP

Em que Brasil viveu seu maior escritor

* A edição de 19 de agosto de 1926 encontra-se indisponível. Recuperamos aqui texto da página 3 da edição de 3 de agosto de 1926

O intelectual Moyses Vellinho reflete sobre o alcance político e social da obra de Machado de Assis
O intelectual Moyses Vellinho reflete sobre o alcance político e social da obra de Machado de Assis Foto : CP Memória

“Como explicar o obstinado ceticismo em que se dessangram os livros de Machado de Assis — os da segunda fase? Donde o seu amargo desencanto? Simples capricho literário ou filosófico, sem raiz individual nem social? Ou produto exclusivo de fatores puramente pessoais? Tanto uma razão como outra foram já invocadas — a primeira, pelos seus maldizentes; a segunda, pelos que tentaram compreendê-lo com honestidade, buscando na sua sensibilidade doente o motivo das suas dúvidas e desesperos.

Uma pergunta, porém: se é exato que no indivíduo sobram as condições determinantes do seu gênio, como se tem afirmado, também não terão contribuído para a sua integração circunstâncias de meio e de tempo?

Se, de um lado, a sociedade em que viveu Machado de Assis não atuou imediatamente na sua formação espiritual, de outro lado, como veremos, sem forças que lhe opusesse e lhe desse direção diversa, foi-lhe propícia e até alimentou-a.

Sem ser solicitado para uma obra de afirmação e de fé, o autor de ‘Quincas Borba’ sentiu-se crescer dentro de si mesmo e deixou-se arrastar pela fatalidade do seu temperamento.

Rémy de Gourmont admirava-se de que tivesse surgido das florestas americanas um gênio tão límpido e tão sutil como o de Machado de Assis, que tecia apólogos dignos de Esopo e La Fontaine... O equívoco está na premissa. Machado de Assis não surgiu das florestas americanas. Machado de Assis veio foi do fim do segundo império... Foi nesse momento tão pouco americano da história nacional que amadureceu o seu espírito desconsolado. Foi então que pôde retrair-se, fechar-se dentro de si mesmo para construir uma das obras mais tristes da literatura universal. Fechou-se, retraiu-se, porque o ambiente social nada lhe pediu. Negou, porque o meio não lhe ofereceu motivos de confiança e exaltação.

Depois de uma imobilidade de meio século, plantada sobre o fervedouro democrático que sucedeu à abdicação de Pedro I, a sociedade brasileira apresentava o aspecto gasto e abatido das velhas sociedades. O sistema monárquico, precipitando a nossa organização política, deu-nos a ilusão de que vivíamos não num ambiente novo, sem compromissos com o passado, mas dentro de um tradicionalismo pacato e acomodatício. Estava quebrado o ritmo americano que devia presidir ao nosso desdobramento coletivo. Os nossos costumes tinham se conformado, sem relutância, com o estado de coisas e se espraiavam molemente numa espécie de mar morto. Nenhum movimento que sacudisse a pasmaceira geral. Nenhuma ideia nova brotada das vicissitudes do meio.

Enquanto outras pátrias jovens da América cumpriam dramaticamente o seu tumultuoso processo histórico, amassado com muito sangue — sangue de vidas e sangue de ideias —, o nosso destino político ia-se desdobrando preguiçosamente, confiado às intermináveis e melancólicas disputas entre dois partidos velhos desencantados. Não chegaram a provocar nenhuma repercussão social as intrigas ilustres que alvorotavam o nosso conspícuo parlamento. O que vemos então não é a intolerância fecunda, nascida da fé, da coragem, da força. O que vemos é a tendência para transigir, são as concessões recíprocas, descobrindo a debilidade e a íntima dissolução das correntes partidárias. Nessas marchas e contramarchas, o poder decai mais e mais do seu prestígio e autoridade. E em face dessa desagregação crescente, dir-se-ia que a sociedade se sentia envelhecer e também desagregar-se, ao mesmo tempo que não encontrava em si energia suficiente para um movimento de reação monárquica e menos ainda para um movimento republicano. ‘Era um estado de descrença’ — observa Oliveira Viana — ‘a que não tinha ainda sucedido nenhuma crença nova’. Displicência. Renúncia. Abdicação.

E o abolicionismo? O abolicionismo, com todo o seu barulho, representa apenas uma cruzada piedosa e não de exaltação nacional. Movimento do coração. Nada mais. Acidente humano e não brasileiro. Não deu para romper com o ceticismo dominante, porque pressupunha a existência de um mal — a própria escravidão — e ameaçava como seu bom sucesso golpear rudemente o sistema econômico do país.

De uma parte arrastados pelo sonho da libertação dos negros, de outra, solicitados pelos próprios interesses, vacilávamos, sofríamos duplamente. Portanto, ainda era o mesmo o estado geral de dúvida.

Mas, se fomos capazes dessa campanha sentimental, a vitória de 15 de Novembro, que se resume num golpe de força, não nos pertence: foi uma aventura de quartéis a que assistimos atônitos, sem nada compreender... Aliás, o próprio Machado de Assis revive, no ‘Esaú e Jacó’, com aquela graça e malícia que eram só dele, essa ‘época sem fisionomia’, como a definiu alguém.

Realmente, nenhum vinco que lhe marcasse o caráter. As ideias de então não eram mais do que o eco frouxo das ideias que no Velho Mundo se debatiam. Jogo precioso e inútil, a que os pais da pátria se entregavam numa volúpia de sonhadores. Pouco a pouco, estávamos reduzidos a um estado de quase insensibilidade coletiva. Nas vésperas de 89, pressentíamos, de certo, que um acontecimento qualquer ameaçava romper o marasmo geral. Talvez mesmo esperássemos esse acontecimento. Mas faltou-nos coragem para ir ao encontro dele e precipitá-lo.

Pelo contrário, tão a gosto nos sentíamos, mergulhados nesse medíocre alheamento, que, mesmo proclamado o regime republicano, ainda foi preciso longo tempo para nos deixarmos aperceber da nova ordem de coisas.

Pois foi aí, foi nesse meio incolor, mórbido, sem significação nacional, que se desenrolou o espírito amargurado de Machado de Assis. Que ambiente mais favorável para uma obra de isenção e de recolhimento? De rosto com uma sociedade sem imperativos, o autor das ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ não se filiou à ideologia indianista dos românticos, que, diga-se de passagem, ainda era uma expressão de descrença geral e escondia uma ironia inconsciente. De fato, só a profunda desilusão de tudo e de todos poderia ter inspirado esse movimento que pretendeu erguer o selvagem, felino e bronco, à altura de símbolo nacional. Possuído do mesmo desencanto, Machado de Assis preferiu isentar-se do seu meio e recolher-se para dentro de si mesmo, onde os fatos circunstantes, despidos das suas contingências, iam deitar a sua sombra e trair o seu fundo incorruptível e eterno. Mas, se assim fez, não foi para tecer uma obra de vaidade e de ódio, como quer o inofensivo sr. Luiz Murat, movido pela incompreensão ou por algum despeito retardatário. Machado de Assis recolheu-se para humanizar-se. Se zombou do homem foi por acreditar que assim feria não ao homem mesmo, ser sem autonomia, mas ao homem como criatura dos deuses. Ele sorria das nossas desgraças, porque entendia que elas provêm menos dos nossos erros do que da terrível sanha divina, acesa contra a espécie desde o primeiro pecado. Ele mesmo o disse: ‘que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras?...’. O certo é que, se Machado de Assis deixou de colaborar na causa brasileira, foi para dar-se a uma causa maior e talvez mais justa — a do homem contra a injustiça da lei universal. — Paulo Arinos [pseudônimo do jornalista, advogado, escritor e intelectual gaúcho Moysés de Moraes Vellinho]”

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O dia 19 de agosto na história

  • 14 Morre em Nola o primeiro imperador romano Augusto.
  • 1580 Morre em Maser, na República de Veneza, o arquiteto renascentista Andrea Palladio.
  • 1662 Morre em Paris o matemático, físico e inventor francês Blaise Pascal.
  • 1692 Cinco (de um total de 19) dos acusados de bruxaria no processo de Salem, na América colonial, são enforcados.
  • 1816 A ilha de Java, na atual Indonésia, retorna ao domínio holandês após 5 anos de controle britânico.
  • 1839 O processo fotográfico do daguerreótipo é publicado integralmente com instruções em Paris “livre para o mundo” como um presente do governo francês.
  • 1848 O New York Herald é o primeiro grande jornal o leste americano a reportar a descoberta de ouro na Califórnia.
  • 1849 Nasce em Recife o escritor, estadista e abolicionista Joaquim Nabuco.
  • 1881 Nasce em Livani-Vârnav, na Romênia, o compositor George Enescu.
  • 1883 Nasce em Saumur a estilista e empresária francesa Coco Chanel.
  • 1919 O Afeganistão declara independência após quase um século de controle britânico.
  • 1936 Morre assassinado em Alfacar durante a Guerra Civil Espanhola o poeta e dramaturgo Federico García Lorca.
  • 1944 Liberação de Paris: batalha iniciada nesse dia levou à rendição da última guarnição nazista na cidade.
  • 1944 As últimas tropas japonesas são expulsas da Índia.
  • 1945 A coalizão pela independência do Vietnã, liderada pelos comunistas, toma Hanói.
  • 1946 Nasce no Arkansas o advogado americano Bill Clinton, presidente dos EUA entre 1993 e 2001.
  • 1953 Os serviços secretos dos EUA e da Grã-Bretanha colaboram para a derrubada do primeiro-ministro eleito Mohammad Mossadegh no Irã, restabelecendo o xá Reza Pahlevi.
  • 1960 A URSS lança o satélite Korabl-Sputnik 2 em órbita com dois cães, 40 camundongos, 2 ratos e algumas plantas.
  • 1961 O presidente Jânio Quadros condecora o líder revolucionário Che Guevara com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.
  • 1969 A Embraer é fundada pelo governo federal.
  • 1969 Nasce em Massachusetts o ator, comediante, diretor e roteirista americano Matthew Perry, famoso pelo personagem Chandler da série “Friends”.
  • 1973 Nasce em Lecce o ex-jogador italiano Marco Materazzi, campeão do mundo com a Itália na Copa de 2006.
  • 1977 Morre em Los Angeles o ator, comediante, escritor e cantor americano Groucho Marx.
  • 1989 Centenas de alemães orientais cruzam a fronteira da Hungria com a Áustria durante o Piquenique Pan-Europeu, marcando uma brecha na Cortina de Ferro.
  • 1991 Golpe de Agosto: tentativa de golpe de estado por conservadores do Partido Comunista na URSS busca depor o presidente Mikhail Gorbatchóv.
  • 1994 Morre na Califórnia o químico e ativista americano Linus Pauling, vencedor do prêmio Nobel em 1954 e 1962.
  • 1995 Mike Tyson retorna aos ringues após cumprir 3 anos de detenção e vence Peter McNeeley em 89 segundos.
  • 1999 Manifestações massivas em Belgrado pedem a demissão de Slobodan Milosevic, presidente da Sérvia e Montenegro.
  • 2001 Michael Schumacher vence o GP da Hungria e se sagra campeão de Fórmula 1 pela quarta vez.
  • 2003 Ataque a bomba na sede da ONU em Bagdá mata o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello e outras 21 pessoas.
  • 2005 Começa o primeiro exercício militar conjunto entre a Rússia e a China.
  • 2021 O Talibã reproclama o Emirado Islâmico do Afeganistão após a retirada das tropas americanas do país.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios