Há um Século no CP

Frustração do pós-guerra

A edição do dia 4 de junho de 1925, quinta-feira, edição n. 131, noticiava

O Correio do Povo refletia em artigo a situação frustrante da diplomacia europeia do pós-guerra. As políticas nacionais dos países do Velho Continente atuavam como complicadores em uma situação já delicada de discussões sobre reparações, militarização e equilíbrio internacional
O Correio do Povo refletia em artigo a situação frustrante da diplomacia europeia do pós-guerra. As políticas nacionais dos países do Velho Continente atuavam como complicadores em uma situação já delicada de discussões sobre reparações, militarização e equilíbrio internacional Foto : CP Memória

“O problema europeu do ‘pós-guerra’ parece decididamente que não encontrará solução, pelo menos nestes tempos mais próximos. E quando se pensa que a grande guerra terminou — nas suas hostilidades diretas, oficiais — em 1918, decorridos, portanto, sete longos anos desta data, escoados em reuniões e discussões que, nem por serem ardorosas, violentas por vezes, não deixaram nunca de redundar na mais decepcionante esterilidade — quando se pensa a sério nisso tudo é que, então, se desespera mesmo, irremediavelmente, da almejada e imperiosa solução. Já se disse, com muita precisão, que esta paz está mais custosa que a própria guerra. E, realmente, a verdade é grande e eloquente. O cenário político europeu, num perpétuo transmudar, tem enganado os críticos mais sagazes e os sociólogos mais eminentes. Não há cálculos, conclusões, previsões que ostentem resquício forte de robustez, versados embora no raciocínio honesto e no bom senso, frente à situação europeia. E os fatos, num sucessivo e espantoso desenrolar, têm-no assinalado com chocante, mas insopitável demonstração. Dir-se-ia até que a razão e a boa-vontade desertaram dos homens da Europa. Ainda há pouco se constatava, com entusiasmo estimulante de fé, o hiato de bonança que se afigurava levaria os estadistas do Velho Mundo à meta do bom-entendimento. E foi quando se testemunhou a eficiência singular da Conferência de Londres e a alvorada radiante da pacificação geral, universalmente consagrada no famoso Protocolo de Genebra, firmando os três princípios infalíveis: arbitragem, segurança, desarmamento. Vãs esperanças, porém, de débil acalentamento. E, num repente, tudo se modificou. A nau salvadora que seguia, calma e resoluta, mar bonançoso afora começou a navegar com desânimo, a braços com os escolhos que subitamente se lhe antolharam à passagem… Uma simples mudança de situações políticas determinou a cruel suspensão. E o conservantismo convencional substituiu o trabalhismo mirífico e idealista na direção política da Grã-Bretanha. Stanley Baldwin opôs o seu decisivo egoísmo político ao sentimentalismo ingênuo de Ramsay MacDonald, e venceu. E venceu de um modo geral: impôs a sua vontade à França, libertada, é certo, do nacionalismo ‘enragé’ e cego no extremismo de ‘la victoire’, mas que, vergada ao peso formidável de circunstâncias ponderáveis acumuladas, não pode hoje prescindir da assistência moral de sua ex-tradicional inimiga do outro lado da Mancha [...]”

Desmentido

“O dr. Borges de Medeiros, presidente do Estado, telegrafou ao coronel Ernesto Marques de Rocha, declarando que reprova formalmente qualquer iniciativa ou sugestão em torno do seu nome à presidência da República, feita em boletins distribuídos em Porto Alegre e outras localidades do Estado.”

Regresso a pé

“Um radiograma transmitido do navio ‘Fram’ informa que continua a falta absoluta de notícias de Amundsen. Outro despacho anterior informava que o explorador do Polo Norte se havia provido de tudo o necessário para um eventual regresso a pé do Cabo Columbia até Thule, na costa ocidental da Groenlândia. No caso de qualquer desacerto nos aeroplanos, obrigando os exploradores a regressarem a pé, estes terão que atravessar 13 graus de latitude, percorrendo a enorme distância de 1.600 quilômetros. Essa viagem não poderia ser feita em menos de trinta dias, devendo chegar ao Cabo Columbia em fins de junho. Mas, não lhes sendo possível percorrer os 900 quilômetros que separam o Cabo Columbia de Thule durante esta época, por ser a do degelo, os exploradores se veriam obrigados a passar o inverno próximo na Baía Discovery, regressando na primavera de 1926. O vapor ‘Fram’, segundo o que ficou combinado, esperará Amundsen durante seis semanas.”

A agitação chinesa

“O governo encarregou o Ministério das Relações Exteriores da redação de uma nota que será entregue ao corpo diplomático acreditado junto à China, protestando contra a atitude dos respectivos países e alegando que a polícia de Xangai não disparou suas armas contra os revoltosos. O Japão enviará dois delegados seus a Xangai para investigarem a situação.”

A situação de Xangai está piorando por causa da greve dos estudantes, em protesto contra as autoridades. O quarteirão das legações está guardado por destacamentos militares. Sete agitadores atiraram de um edifício contra a tropa americana. A situação na concessão internacional piorou ligeiramente.”

“Cinquenta marinheiros italianos e o destacamento americano, com uma vanguarda de dois mil homens, que estavam sendo esperados, desembarcaram hoje. Um voluntário americano foi ferido no movimento grevista, aumentando a atitude contra a China, cuja situação se agrava.”

“Foram convocados voluntários norte-americanos para manterem a ordem no Bairro Internacional de Xangai, devido à greve geral que ali irrompeu contra os estrangeiros. Segundo um telegrama do cônsul americano naquela cidade, já morreram nove estrangeiros nos conflitos promovidos pelos estudantes.”

Batismo de Tiradentes

“Um telegrama de Minas Gerais diz que foi encontrado, nos arquivos da matriz de São João del-Rei [em Minas Gerais], o registro do batismo de Tiradentes, com a data de novembro de 1746.”

Transporte ferroviário

“O Correio do Povo tem se ocupado, em seus últimos números, da crise determinada nas relações comerciais da capital com o interior pela falta de transporte ferroviário. Esta deficiência é, em parte, dependente do fato de se achar o material da Viação Férrea ao serviço das operações militares. Como quer que seja, essa explicação não atenua, evidentemente, os prejuízos do nosso comércio, nem remedia as perturbações da vida econômica do Estado determinadas por esse grave embaraço à circulação. As mercadorias preparadas para embarque, e que estão à espera de oportunidade para seguir o seu destino, representam valores avultados, que estão imobilizados. Só uma firma ferragista tem negócios anulados que representam o valor de mais de mil contos de réis. É enorme o número de notas de embarque que estão à espera de chamada. Felizmente, a Viação começou a tomar providências, e já se reiniciou o serviço de chamada, e é de presumir que dentro em pouco estejam descongestionadas as principais estações da Viação Férrea, a começar pela desta capital.”

Espertos nas feiras livres

“Na feira livre da praça Garibaldi, apareceu um indivíduo dizendo que a Intendência Municipal estava agora cobrando impostos diários aos que ali fossem vender as suas mercadorias. Assim, conforme a classe do vendedor, cobrou de 1$ a 3$, acrescentando, como pseudofuncionário municipal, que isso seria feito cada vez que funcionasse a feira. Como ao nosso conhecimento chegassem várias reclamações, por isso que os interessados ignoravam se a municipalidade decretara ou não os tais impostos, um dos nossos repórteres esteve ontem no gabinete do dr. Octávio Rocha, intendente, ouvindo-o a respeito. Disse-nos o edil municipal que nenhum imposto a Intendência Municipal está cobrando dos que mercadejam nas feiras livres, tanto para vender como pelo lugar que ocupam. Os vendedores têm apenas a seu cargo o transporte, da sua residência até a feira, das mercadorias que desejam vender e da armação da barraca. Estas são as despesas a cargo do vendedor, aliás de seu próprio interesse. Portanto, todo aquele que for às feiras cobrar impostos não passará de pseudocobrador municipal. E, mesmo se a municipalidade cobrasse algum imposto, seria preciso que o encarregado desse serviço desse ao interessado um recibo, pois ela nada costuma cobrar sem dar quitação, que servirá de garantia ao contribuinte.”

O dia 4 de junho na história

  • 1917 A primeira edição do Prêmio Pulitzer, entregue pela Columbia University de Nova Iorque, é entregue para expoentes do “jornalismo, artes e letras”.
  • 1920 Na sequência da Primeira Guerra, a Hungria perde 71% de seu território e 63% de sua população com a assinatura do Tratado de Trianon em Paris.
  • 1928 O presidente da República da China, Zhang Zuolin, é assassinado por agentes japoneses.
  • 1932 O oficial da Aeronáutica Marmaduke Grove lidera golpe de estado que estabelece a República Socialista do Chile.
  • 1932 Nasce em St. Louis o músico e compositor americano de jazz Oliver Nelson.
  • 1943 O presidente argentino Ramón Castillo é derrubado em golpe de estado organizado pela sociedade secreta militar nacionalista Grupo de Oficiales Unidos.
  • 1944 Roma é liberada pelo Quinto Exército dos EUA; as tropas alemãs conseguem se retirar para o norte.
  • 1961 Começa a Crise de Berlim: o líder soviético, Nikita Khrushchev, ameaça encerrar o acesso dos aliados a Berlim oriental.
  • 1970 O país insular polinésio de Tonga adquire independência da Grã-Bretanha.
  • 1971 Morre em Budapeste o filósofo e crítico literário húngaro Gyorgy Lukács.
  • 1975 Nasce em Los Angeles a atriz e cineasta americana Angelina Jolie.
  • 1976 Nasce em Butyn o líder oposicionista e ativista russo Alexey Navalny.
  • 1977 A companhia japonesa JVC apresenta em Chicago seu formato VHS para vídeo doméstico; eventualmente o modelo irá vencer a “guerra dos formatos” contra o Betamax, da Sony.
  • 1979 O oficial da Aeronáutica Jerry Rawlings assume o poder em Gana após golpe contra o general Fred Akuffo.
  • 1989 Ali Khamenei é eleito pela Assembleia dos Peritos como o novo líder supremo do Irã após a morte do revolucionário Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.
  • 1989 Os protestos na Praça da Paz Celestial em Pequim são suprimidos com força militar, deixando entre 241 e 10 mil mortos, segundo estimativas não oficiais.
  • 1989 O sindicato Solidariedade vence as eleições legislativas polonesas no primeiro pleito sem o monopólio do Partido Comunista.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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