Há um Século no CP

Furacão devasta Cuba e deixa centenas de mortos

Da edição de 26 de outubro de 1926, terça-feira, n. 253

Os ventos chegaram a 240 km/h, causaram grande destruição em Havana e afundaram navio de guerra britânico
Os ventos chegaram a 240 km/h, causaram grande destruição em Havana e afundaram navio de guerra britânico Foto : CP Memória

“Às primeiras horas da manhã sabia-se haver morrido duzentas e cinquenta pessoas em uma área de vinte milhas ao redor desta capital [Havana]. A lista dos mortos representa apenas um esforço de cálculo e acham que esse número atingirá a mil no país inteiro. Os viajantes vindos a cavalo do interior calculam que os prejuízos materiais ultrapassaram a cinquenta milhões de dólares. O prefeito de Havana ordenou a instalação de cozinhas populares para o fornecimento de alimentos aos necessitados de vários pontos da cidade. As autoridades também estão tomando medidas preventivas contra os aproveitadores do momento. As notícias aqui recebidas dizem que são colossais os prejuízos nas colheitas de fumos. Anuncia-se a destruição do famoso parque oriental de corridas. Os açucareiros recusaram-se a indicar a extensão dos prejuízos nas plantações de cana, acreditando-se que são eles enormes.”

“Calcula-se que o número de mortos nesta capital e vizinhanças, em consequência do temporal que desabou no país, é de vinte e cinco, e o de feridos, de cento e cinquenta. Notícias de Key West [extremo sul da Flórida, EUA] dizem que a tempestade passou ali, não causando mortes, mas apenas ligeiros danos materiais.”

“O monumento de Maine [em homenagem às vítimas da explosão do navio de guerra USS Maine, em 1898, localizado no bairro El Vedado, em Havana] desabou, partindo-se em cinco lugares, em consequência dos temporais. O edifício de cinco andares da Fábrica Ford ficou descoberto. Cem escunas de pesca que se achavam na praia naufragaram. Dados não oficiais registram um total de doze mortos e de setenta e cinco feridos gravemente. Os bairros mais baixos desta capital estão inundados. Um tanque de petróleo, do outro lado da baía, incendiou-se. Noticia-se que um navio de frutas americano encalhou na costa do norte. Vários pequenos vapores de carreiras irregulares também ficaram encalhados. Na baía, os edifícios Carreno e Chevrolet foram demolidos. A cidade ficou às escuras e sem água.”

“Formidável furacão desabou ontem sobre esta capital e nos seus arredores. Até agora sabe-se que morreram trinta pessoas, sendo elevado o número de feridos. Muitos prédios desabaram. O governo ordenou severas medidas para punir os indivíduos que forem encontrados a saquear casas destruídas. As patrulhas da polícia e tropas percorrem as ruas de armas embaladas. Os prejuízos são superiores a cinco milhões de dólares.”

“As últimas notícias aqui [Londres] recebidas sobre as consequências do furacão que desabou nas ilhas Bermudas [território ultramarino da Grã-Bretanha no Atlântico Norte] dão como importantes os prejuízos materiais causados, não se sabendo, no entanto, que o cataclisma tenha produzido desgraças pessoais. Sabe-se ainda que o navio de guerra ‘Valerian’ naufragou ao largo daquelas ilhas, salvando-se unicamente oito homens da tripulação.”

“Segundo cálculos aproximados baseados em dados incompletos até agora recebidos, o número de mortos causados pelo ciclone sobe a 308, elevando-se a mais de três mil o de feridos e extraviados. Os prejuízos vão a mais de 120 milhões de dólares. As comunicações, restabelecidas lentamente, dizem que a tormenta varreu uma extensão de cem milhas entre Havana e a província de Matanzas, na ilha dos Pinhos.”

“Sabe-se que a chalupa de guerra britânica ‘Valerian’ naufragou nas costas de Cuba devido a um furacão desencadeado ontem. ‘Valerian’ tinha a seu bordo uma guarnição de cem homens; entretanto, uma notícia divulgada pelo almirantado afirma que apenas 20 deles conseguiram salvar-se.”

“O navio ‘Valerian’ levava entre a guarnição 9 inferiores, um maquinista e um oficial de artilharia. O almirantado informa que se salvaram 20 homens, mas nega-se a fornecer notícias complementares.”

“Em consequência do furacão que desabou sobre esta região [Bermuda], pouco sofreu o bairro comercial. O Teatro da Ópera, de Saint George, cujo edifício é de cantaria, foi quase demolido.”

“Dizem das ilhas Bermudas que o navio de guerra britânico ‘Valerian’, de 1.150 toneladas, afundou em consequência de um furacão que varreu a costa de Cuba, causando consideráveis estragos. Da tripulação salvaram-se vários homens, inclusive o capitão do navio.”

O furacão Havana-Bermuda de 1926 se formou na costa leste da Costa Rica em 14 de outubro daquele ano e se dissipou duas semanas depois após se dirigir para o norte, atravessando a porção oeste da ilha de Cuba (onde se localiza Havana), costear a Flórida e as Bahamas e chegar até o arquipélago das Bermudas. A velocidade dos ventos atingiu 240 km/h. Foram registradas 709 mortes, a maior parte em Cuba, mas também no território britânico.

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Conde Frola

“Causou magnífica impressão aqui [São Paulo], onde o caso provocou enorme interesse principalmente entre a colônia italiana, a resolução do sr. presidente da República em consentir que o jornalista antifascista conde Francisco Frola permaneça tranquilo em nosso território nacional, embora a intervenção contrária da embaixada italiana que pleiteava que o conde Frola voltasse preso à Itália.”

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Terremotos

“O terremoto de Leninakan, na Armênia, causou centenas de mortes e milhares de feridos. É grande o número dos que ficaram sem teto, pois muitíssimas casas foram destruídas.”

“Na manhã de hoje foi sentido um violento tremor de terra na região de Leninakan [antiga cidade de Alexandropol, atual cidade de Guiumri, segunda maior cidade do país]. Muitas aldeias foram inteiramente destruídas. Até agora, conforme assinalam as últimas informações, foram encontrados 300 mortos e numerosos feridos.”

“O sr. Charles Vickery, secretário-geral de comissão de socorros nos países do Extremo Oriente, recebeu um telegrama procedente da sede da comissão em Erivan [Erevã, capital armênia] informando que na noite de sexta-feira sentiu-se na Armênia um terrível terremoto, continuando as trepidações terrestres durante todo o dia de hoje. O telegrama informa ainda que os abalos foram mais intensos em Leninakan e nas regiões próximas, onde se registraram centenas de mortes, saindo milhares de pessoas feridas e sem teto.”

“As notícias recebidas nesta capital sobre o terremoto na Armênia dizem que os edifícios da comissão norte-americana de socorros em Leninakan ficaram muito danificados. As crianças do respectivo orfanato e os membros das missões de socorros dormem ao relento. Todo o pessoal americano, inclusive médicos e enfermeiros, foi posto em atividade para prestar auxílio às populações atingidas, entre as quais existem muitas pessoas feridas. Todas as tendas disponíveis foram cedidas aos flagelados. Nas padarias, o pessoal necessário está produzindo grande quantidade de pão para os necessitados. Foram imediatamente destinadas quantias elevadas para fazer frente à emergência.”

“No dia 22 do corrente, foram sentidos violentos tremores de terra em Alexandropol [Leninakan, atual Guiumri] causando 300 mortos, sendo ainda destruídas 12 povoações.”

“Foi sentido hoje, às 11 horas, um forte terremoto que abalou esta capital [Santiago do Chile], causando pânico.”

O Terremoto de Kars ocorreu em 22 de outubro de 1926, tendo como epicentro a região de fronteira entre os atuais territórios da Armênia e da Turquia, a oeste da cidade de Guiumri. Atingiu a intensidade IX (violento) na escala Mercalli, sendo sentido na capital armênia, na Geórgia e até mesmo na cidade russa de Sochi, na costa do Mar Negro. No total, 360 pessoas perderam a vida.

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Chimarrão

“Realizou-se anteontem, às 8 horas, na Avenida Napolitana [atual avenida Olinda, bairro São Geraldo] n. 19, um curioso desafio. Tratava-se de saber qual de dois contendores tomava maior quantidade de chimarrão em determinado tempo. Foram concorrentes os srs. Waldomiro Lopes e Almiro Silva e juízes os srs. Antonio Pereira e João José. O primeiro tempo foi das 8 horas ao meio-dia e 5 minutos e o segundo das 20 horas às 3 horas da madrugada, vencendo o sr. Almiro Silva o primeiro tempo com 2 litros a mais e o segundo tempo por 1,5 litro, perfazendo um total de 3,5 litros, sendo vencedor com 11 litros nos dois tempos. O sr. Waldemar Lopes tomou 9,5 litros.”

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“Herói desconhecido”

“O gesto do personagem desconhecido que sub-repticiamente penetrou, sábado último, na Faculdade de Direito, furtando audaciosamente as cadernetas de frequência, conseguiu despertar a admirável ‘verve’ humorística dos estudantes. Entenderam os acadêmicos de Direito que deviam glorificar o ‘herói desconhecido’ que com essa sua atitude tentou realizar, num lapso de tempo, o que eles sem resultado gastaram muitos meses, dirigindo memoriais para o Rio, além de muitas outras diligências. Assim, desde sábado vêm-se realizando entre os acadêmicos de Direito, que tiveram a graciosa solidariedade dos seus colegas das outras escolas superiores, várias homenagens do incógnito prestidigitador das cadernetas. No primeiro dia consagrado ao abnegado, que, se não é estudante efetivo, é já honorário pela vontade dos acadêmicos de Direito, efetuou-se uma concorrida reunião na Confeitaria Colombo, onde falaram diversos estudantes, inclusive da Faculdade de Medicina. E anteontem, no mesmo local, realizou-se nova manifestação ao ‘herói desconhecido’ e esta com uma concorrência mais numerosa de estudantes. Chegamos ao ‘Colombo’ quando, com a respeitabilidade de seu volumoso corpo, um acadêmico tomava a palavra para escolher o presidente da reunião que ia começar. Essa proposta agradou em cheio. O acadêmico escolhido é considerado como um dos reis do humorismo no meio da classe, o que lhe assegurava completo êxito no desempenho das suas funções. Falou depois um acadêmico de ‘larga visão’ que, com sucesso, fez o estudo psicológico e moral do delinquente (o ‘herói desconhecido’), classificando-o de ‘herói, sábio e santo’. A seguir, levantou-se um representante da ‘magia negra’. E à luz dessa ciência, o acadêmico explicou a atuação oculta do ‘herói desconhecido’. Logo após, falou um elevado constitucionalista, que justificou em face do artigo 6° da Constituição Brasileira a intervenção do ‘herói’ nos negócios peculiares à frequência obrigatória. Improvisou, em seguida, o panegírico ao ‘herói’ outro pequeno acadêmico, que usa grossos óculos. Frisou o orador que ‘o herói desconhecido’, afrontando os varões de ferro da Faculdade, igualou aos varões assinalados da epopeia, ingressando definitivamente na galeria dos ilustres desconhecidos da Pátria. Depois de outras considerações, terminou fundamentando a proposta de que se levantasse, na praça pública da admiração dos acadêmicos, o monumento moral dos seus aplausos. Registrou-se nessa ocasião um aplaudido aparte do presidente, que se mostrou ‘extraordinário’ do princípio ao fim da sessão. Os trabalhos foram assistidos por numerosa assistência de curiosos que enchiam todas as dependências do ‘Colombo’. A assistência compensou generosamente as horas de alegria que o ‘estudante desconhecido’, por intermédio dos seus colegas, lhe proporcionou, auxiliando-os a pagar a despesa. Hoje, prosseguirão os festejos em homenagem ao ‘herói desconhecido’. À tarde, será efetuada uma passeata pelas principais ruas da cidade, com uma prévia visita aos srs. Bopp, Sassen e Cia. [famosa cervejaria da Capital]. Os acadêmicos prometem, além de muitas surpresas, o ‘enterro’ da frequência obrigatória. Tomarão parte na ‘cerimônia’ os colegas das outras escolas. Promovida por grande número de sócios, será convocada uma sessão do Centro dos Acadêmicos de Direito, a fim de se tratar da frequência obrigatória.”

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O dia 26 de outubro na história

  • 1860 A Expedição dos Mil, importante evento da unificação italiana, termina com Giuseppe Garibaldi apresentando suas conquistas ao rei Vittorio Emanuele.
  • 1863 A Football Association, federação de futebol inglesa, é fundada em Londres.
  • 1871 O presidente da Libéria, Edward James Roye, é deposto em golpe de Estado.
  • 1890 Inauguração da “mais alta ponte ferroviária do mundo” à época, o Viaduto Malleco, no Chile.
  • 1890 Morre em Florença o escritor, humorista e jornalista italiano Carlo Collodi, autor do “Pinocchio”.
  • 1912 Os otomanos perdem as cidades de Tessalônica e Skopje durante a Primeira Guerra dos Bálcãs.
  • 1917 O Brasil declara guerra às Potências Centrais na Primeira Guerra.
  • 1937 A Alemanha nazista inicia a expulsão de 18 mil judeus poloneses.
  • 1942 Nasce no Rio de Janeiro o músico e compositor Milton Nascimento.
  • 1957 Morre na Alemanha Ocidental o escritor, jornalista, político, poeta e filósofo grego Nikos Kazantzakis, autor de “Zorba, o grego”.
  • 1959 Nasce em Isallavi o ex-presidente da Bolívia Evo Morales.
  • 1967 Mohammad Reza Pahlevi se proclama imperador do Irã.
  • 1976 Morre no Rio de Janeiro o pintor modernista, desenhista e ilustrador Emiliano Di Cavalcanti.
  • 1977 A contaminação de um cidadão somali é considerada pela OMS como o último caso natural de varíola do mundo, erradicada pela vacinação.
  • 1979 O presidente sul-coreano Park Chung Hee é assassinado pelo chefe do Serviço de Inteligência Nacional, Kim Jae-gyu.
  • 1985 O governo australiano devolve a propriedade do famoso monolito Uluru, localizado no centro do país, aos aborígenes Pitjantjatjara.
  • 1994 A Jordânia e Israel assinam o tratado de paz de Wadi Araba.
  • 1995 O Mossad, serviço secreto israelense, mata o líder da organização Jihad Islâmica na Palestina, Fathi Shaqaqi, em seu hotel, em Malta.
  • 2001 O presidente americano George W. Bush assina o Ato Patriota, decreto que permite medidas de vigilância e investigação de suspeitos de terrorismo.
  • 2002 Chega ao desfecho a crise do teatro Dubrovka, em Moscou, com cerca de 50 terroristas e 150 reféns mortos após a invasão da polícia.
  • 2012 A Microsoft lança o sistema operacional Windows 8.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios