Há um Século no CP

Intelectual britânica analisa o congresso feminista realizado em Paris

Da edição de 8 de julho de 1926, quinta-feira, n. 159

O congresso reuniu em Paris grupos de reivindicação do sufrágio feminino de todo o mundo
O congresso reuniu em Paris grupos de reivindicação do sufrágio feminino de todo o mundo Foto : CP Memória

“[...] Hoje, em Paris — cidade consagrada por excelência ao aspecto de brinquedo das mulheres —, inaugura-se um grande Congresso Internacional de Mulheres, cujos membros, em suas nove décimas partes, gozam dos direitos de cidadão, sendo que mais de nove décimos se dedicam a sérios trabalhos em classes diferentes.

Quem pretenderia que, por isso, tivessem elas sacrificado seus encantos femininos? Já se foi o tempo em que as salas de gabardine azul, as botinas de tacão alto e os chapéus que já passaram de moda, postos de través sobre enormes narizes, eram os sinais das ‘emancipadas’. Houve uma época em que as mulheres, ofendidas à ideia de que somente deviam ser belas, se afrontavam deliberadamente. Esse tempo já passou.

As mulheres se vestem, no presente, melhor do que nunca. O progresso do vestido, tanto em sua beleza como na variedade dos modelos para as diversas ocasiões em que devem ser usados, em sua comodidade para serem postos e tirados, caminha ‘pari passu’ com a emancipação feminina. A saia curta é um emblema da liberdade, que não se abandonará, por certo, tão depressa, da mesma forma que os cabelos soltos. Não são porventura as mulheres mais jovens hoje do que nos fins do século passado? E quem as acha menos atraentes?

Em qualquer dos casos, Paris demonstra um grande respeito por elas. A Universidade abriu-lhes as portas para suas deliberações, que se celebrarão na Sorbona. O ‘maire’ [prefeito] de Paris e um ministro do gabinete francês dar-lhes-ão as boas-vindas em nome da cidade e da nação na sessão inaugural. Ser-lhes-á oferecida uma função de gala na Ópera, em honra das congressistas, e ser-lhes-ão dedicadas outras festas, para manifestações públicas, uma das quais se realizará exclusivamente por homens, entre eles estando Benes, se bem que a assembleia seja presidida pela senhora Corbett Ashby.

Uma sessão será consagrada ao pedido da concessão dos direitos políticos à mulher nos países em que elas ainda são mantidas total ou parcialmente incapazes. Haverá uma reunião pela paz e outra pela Liga das Nações.

Entre os oradores, nessas sessões especiais figuram mulheres que são membros de diversos parlamentos europeus e norte-americanos, diretoras de empresas, advogadas, médicas, mestras, cientistas, escritoras, artistas, etc.

Por si mesmas, as delegadas já demonstram tudo o que têm feito; mas nenhuma está disposta a dar-se por satisfeita somente com isso. O movimento feminista não foi combatido pelos homens, nem tende a favorecer um determinado país.

Desde 1902 se celebram conferências internacionais e a atual é a décima. A anterior realizou-se em Roma e a escolha das cidades em que elas se verificam foi bem apropriada, porque os povos latinos mostraram menos adiantamento do que os outros neste ponto. Na França, as mulheres ainda não gozam do voto. O Senado ainda guarda a passagem da ponte, se bem que já se sinta que, debaixo dos pés, a construção oscile e quiçá o Congresso possa, afinal, abatê-la.

Na Itália, o Congresso de Roma conseguiu a promessa de que em breve se concederia à mulher o direito eleitoral, como já o têm nos assuntos municipais. Estes congressos tratam, com efeito, de difundir o pensamento feminino, como não há muito ocorreu na Grã-Bretanha, ensinando lógica aos homens.

Em todas as partes onde as mulheres conseguiram essa situação, quer individual, quer nacional, usam de toda sua influência para assegurar às suas irmãs o reconhecimento de seus direitos. A missão dessas assembleias consiste principalmente na substanciação dessas ideias entre as próprias mulheres pela permuta de opiniões e o mútuo contato, de modo que possam trabalhar pelo anseio comum, com mais inteligência e eficácia.

‘As mulheres — dizia Mary MacArthur, uma de suas ‘leaders’ mais prestigiosas — não são todas conciliadoras, como não são todas formosas.’ O erro mais grave é considerá-las iguais em todos os aspectos. Nos congressos tem de haver discussão, do mesmo modo que unidade e cooperação. Por exemplo, no que se refere à dotação familiar, miss Eleanor Rathbone, que acaba de obter um triunfo na Comissão Real da Hulha, há de, por certo, pôr toda sua influência a favor de sua adoção.

No entanto, esse voto não significará muito enquanto os diferentes grupos nacionais não o submeterem a estudo, porque até agora as mulheres não trataram dele. Muitas delegadas hão de aderir ao grupo na eficácia econômica da proposta. Outras não hão de ver a conveniência de introduzir essa cláusula no programa ‘feminista’, visto que o movimento internacional se torna cada dia mais de caráter igualitário, como é natural em autoridade e responsabilidade.

Outro ponto que há de suscitar grandes debates é o da ‘legislação protetora’. Em geral, as mulheres da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos estão a favor deste princípio, porque a experiência demonstra que as regulamentações legais sobre o trabalho feminino foram um importante fator na legislação industrial e comercial e serviram para consolidar a ação das Trade Unions [sindicatos].

Por outro lado, o grupo dinamarquês se mostra duvidoso a esse respeito; mesmo nos casos em que a limitação das condições do trabalho feminino seja aceita pelas empresas. Igualmente se espera que o Partido Feminista dos Estados Unidos há de opor-se a esse voto e, se se aceita, pedirá que se o considere como delegação independente; também um ponto duvidoso, visto que só pode aceitar-se a filiação dos grupos por nacionalidades, a não ser que o Congresso decida o contrário.

O conjunto das mulheres dos diferentes Estados da União organizou-se na Liga Americana das Mulheres Votantes, presidida pela heróica Chapman Catt, atual fundadora da Internacional. O Partido Feminista é uma associação numericamente pequena, que só pode contribuir, mui relativamente, nos trabalhos do Congresso.

Outros temas importantes são os do princípio que estabelece para um trabalho igual, e a admissão da mulher em atividades até agora reservadas, como o serviço diplomático, a fim de estabelecer a igualdade de nível moral e intelectual entre ambos os sexos. Sobre este tópico apresentará uma distinta representante da Argentina, a mm. Paulina Luisi, um estudo e uma informação. — Mary Agnes Hamilton

A autora deste artigo, traduzido especialmente para o Correio do Povo, é a jornalista, escritora e política trabalhista inglesa Mary Hamilton (1882 - 1966). O evento em questão foi a 10ª Conferência da Aliança Internacional pelo Sufrágio das Mulheres, realizado em Paris entre 30 de maio e 6 de junho de 1926.

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Naufrágio alcoólico

“Há pouco, naufragou no Reno, a pequena distância desta cidade [Colônia, na Alemanha], um vapor com carregamento de vinho. Depois de haver afundado o navio, vieram à tona d'água muitos barris e outros vasilhames com bebidas alcoólicas. Alguns barris foram retirados d'água, mas, como o número dos pretendentes fosse muito elevado, travou-se entre eles renhida luta, no correr da qual foram mortos dois populares e dois caíram ao rio, morrendo afogados. Cerca de vinte foram recolhidos ao hospital, gravemente feridos. Duas das pessoas que beberam do conteúdo dos barris morreram intoxicadas pelo álcool.”

“Cinco pessoas morreram e vinte foram recolhidas ao hospital em consequência da orgia alcoólica que resultou do naufrágio de uma embarcação carregada de vinho. Dois homens caíram ao rio, dois pereceram afogados, dois morreram de ‘delirium tremens’ e um morreu lutando para se apoderar do vinho.”

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Conspiração

“Os jornais publicam telegramas de Kovno [Kaunas, segunda maior cidade da Lituânia], dizendo que se descobriu uma organização secreta fascista que conspirava para assassinar os membros do novo governo socialista da Lituânia. Foram presos vários conspiradores, mas outros conseguiram fugir para o território da Polônia.”

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Desabamento

“[...] desde o dia 26 do mês findo vêm se dando grandes desabamentos nas galerias do poço 3 das minas da Companhia Estrada de Ferro e Minas de S. Jerônimo. Por esse motivo, foram logo suspensos os trabalhos de exploração, sendo retirado todo o material das galerias, bem como todas as máquinas. Assim, será o poço totalmente abandonado, causando isso prejuízos, pois nele estavam montadas as instalações da lavagem de carvão. [...]”


O dia 8 de julho na história

  • 1497 O navegador português Vasco da Gama começa sua pioneira viagem com destino à Índia contornando o continente africano.
  • 1889 Publicada a primeira edição do jornal americano The Wall Street Journal.
  • 1932 O índice Dow Jones atinge seu nível mais baixo durante a Grande Depressão, fechando em 41,22 pontos.
  • 1947 Relatos da queda de um OVNI em Roswell, Novo México, EUA, são veiculados na mídia americana.
  • 1966 O rei Mwambutsa IV Bangiriceng do Burundi é deposto pelo seu filho, príncipe Charles Ndizi.
  • 1972 O serviço secreto israelense, Mossad, mata o escritor palestino Ghassan Kanafani.
  • 1978 Incêndio destrói praticamente todo o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
  • 1982 Após tentativa frustrada de assassinar o presidente iraquiano Saddam Hussein, começa a execução de centenas de xiitas da cidade de Dujail.
  • 1990 A Alemanha Ocidental vence a Argentina por 1 a 0 em Roma e conquista o tricampeonato da Copa do Mundo.
  • 1999 Lançado na Grã-Bretanha o terceiro livro da série Harry potter, “Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban”.
  • 2000 Lançado na Grã-Bretanha o quarto livro da série Harry Potter, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”.
  • 2011 A Atlantis é lançada para a última missão da era dos ônibus espaciais.
  • 2014 Israel lança ofensiva em Gaza após o sequestro e assassinato de três adolescentes israelenses.
  • 2014 A Seleção sofre goleada histórica de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo e é eliminada em partida disputada no Mineirão, em Belo Horizonte.
  • 2022 O ex-primeiro-ministro e deputado japonês Shinzo Abe é assassinado a tiros em Nara, durante comício eleitoral.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios