Há um Século no CP

Mais um passo para a conquista da jornada de oito horas

Da edição de 24 de março de 1926, quarta-feira, n. 69

Após extensos debates, o dia de trabalho de 8 horas foi aprovado para operários dos transportes ferroviários
Após extensos debates, o dia de trabalho de 8 horas foi aprovado para operários dos transportes ferroviários Foto : CP Memória

“A Conferência Internacional do Trabalho, que está reunida, na qual tomam parte titulares da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Bélgica e da Itália, chegou a completo acordo sobre a interpretação a dar a vários artigos da Convenção de Washington. Nela foi estabelecido o dia de trabalho de oito horas, sobre o que havia sérias divergências. Causou excelente impressão nos círculos oficiais e nos meios proletários essa notícia quando divulgada pelos jornais, contando-se entre os beneficiados os funcionários e operários das estradas de ferro, cujas empresas não foram excluídas (pelo menos nenhuma declaração oficial há até agora a este respeito), da categoria de ‘indústrias’. A elas foi concedida a semana de trabalho de 56 horas, não havendo declarações em contrário. As companhias ferroviárias fazem parte das empresas beneficiadas por aquela concessão. Até ontem, havia certa dificuldade para as estradas de ferro manterem com absoluto rigor a semana de 48 horas, mas os ministros removeram o obstáculo, estabelecendo uma série de medidas que regularizam a questão dos trabalhos extraordinários remunerados, inclusive ‘os trabalhos preparatórios complementares’, que esclarecem ‘os casos de trabalho excepcional e urgente’. A Convenção não se estende aos serviços comuns de Correios e Telégrafos, mas os seus artigos abrangem todos os trabalhos de fabricação e de consertos de aparelhos e de instrumentos que tenham aplicação naqueles meios de comunicação. A Convenção contém o artigo número 5, que regula a indústria das construções. Esse artigo determina que, com prévia autorização do governo, pode-se, em casos especiais, aumentar o número das horas de trabalho, contanto que ao fim da semana a média não exceda de 48 horas. O dia das 8 horas pode ser alterado para os trabalhos chamados ‘intermitentes’, ainda assim com certas restrições. As medidas somente poderão beneficiar aos porteiros, aos vigias, aos bombeiros e aos operários que não se ocupem de produção propriamente dita, isto é, de ocupações que sejam interrompidas por longos períodos de inatividade e que não exijam grande atividade física, nem atenção longa e fatigante. A medida pode também ser aplicada a título precário nos casos de trabalho excepcionalmente acumulado ou imprevisto. Compete à legislação particular de cada país fixar o máximo das horas adicionais de trabalho que estas exceções autorizam. A Convenção de Washington determina que as horas suplementares de trabalho sejam pagas com mais vinte e cinco por cento que as horas de trabalho normal. A disposição era interpretada por diversos modos, mas a Conferência e o ministro do trabalho esclareceram por completo a situação, estabelecendo que esse aumento só deve ser pago pelas horas extras. Estão previstas as exceções provisórias e mencionadas, quando se trate de serviços acumulados, tendo sempre em conta que a média das horas de trabalho semanal não poderá, em caso nenhum, exceder de 48 horas. Esta interpretação será certamente aplicada com mais amplitude pelos países do continente europeu, onde seja costume trabalhar aos domingos.”

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Roubos na CB

“Já por diversas vezes nos temos ocupado da falta de policiamento na Cidade Baixa, onde a gatunagem campeia livremente, pondo em constantes sobressaltos os moradores dali. A rua da Concórdia [atual rua José do Patrocínio] é uma das que mais sofre com isso. Basta dizer que em todo o seu percurso não se nota sequer um agente policial. Os amigos do alheio disso se aproveitam para ‘agir’ de todo o modo, quer forçando as portas dos prédios, quer atacando os pacatos transeuntes, exigindo-lhes sob ameaça entregarem o dinheiro que trazem consigo. Quase que diariamente também os gatunos fazem uma ‘limpa’ nos galinheiros, sem a menor cerimônia. Ontem, diversos moradores da rua da Concórdia estiveram na redação desta folha, pondo-nos ao corrente de tudo que por ali se passa e pedindo, por nosso intermédio, imediatas providências dos poderes competentes. Uma dessas pessoas declarou-nos ainda que na rua Lopo Gonçalves, num lugar denominado ‘Chácara do Lopo’, se reúnem diariamente gente da pior espécie e em cujo lugar são vendidos os objetos furtados. Adiantou mais que nos fundos do prédio n. 181 C da mencionada rua foi encontrado um grande volume, contendo uma bolsa escolar, livros, estojos escolares e várias peças de roupas. [...] São estas, pois, as justas reclamações da população da Cidade Baixa, restando somente um pouco mais de boa vontade por parte das nossas autoridades para acabar de vez com a ladroagem que, segundo parece, resolveu fixar seu campo de ação nesta capital, até que a municipalidade se resolva a criar um verdadeiro corpo de agentes que possa zelar pelos interesses do público.”

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Primeiras edições

Da edição de 24 de março de 1896, terça-feira, n. 71

Surto

“No Mercado [Público de Porto Alegre] deu-se anteontem à noite grande desordem provocada por Estêvam de [...] que, armado de uma navalha, ameaçava e atacava os transeuntes. O desabusado [...] foi preso em flagrante pelos vigilantes noturnos. Estêvão resistiu à prisão que foi efetuada graças ao comparecimento da patrulha da Brigada Militar, que estava de serviço no mercado e que a muito custo conseguiu desarmá-lo e conduzi-lo à casa de correção. [...]”

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As ilhas submersas

“Como sabem os leitores, por comunicação telegráfica que anteontem publicamos, acabam de desaparecer em consequência de um terremoto as ilhas Juan Fernández. Essas ilhas demoravam no Oceano Pacífico Austral, 700 quilómetros da costa ocidental do Chile, a que pertenciam. Foram descobertas no século XVI pelo navegador espanhol Juan Fernández, que lhes deu o seu nome. Durante muito tempo estiveram elas desertas. Mais tarde, de 1704 a 1709, ali se instalou o célebre marinheiro escocês Alexander Selkirk, cujas aventuras, como os leitores devem saber, deram a Daniel Defoe assunto para o seu conhecido romance ‘Robinson Crusoé’. Os espanhóis aí se estabeleceram em 1750. O solo dessas ilhas era montanhoso, muito pedregoso e pouco fértil, prestando-se unicamente à cultura da vinha e da oliveira. A população, que toda ela desapareceu, era pequena e vivia quase que exclusivamente da pesca, abundantíssima nessa região, onde constituía a principal indústria dos seus habitantes. Essas ilhas eram de forma irregular e ofereciam vários portos naturais, entre os quais o Inglês, na costa sudeste, e o de Juan Fernández a oeste. Não é esta a primeira vez que tremores de terra, tão frequentes nas costas do Pacífico, submergem regiões distanciadas do continente. Mesmo perto das ilhas Juan Fernández já existiu uma outra que, em virtude de fenômeno semelhante, desapareceu em 1837.”

Esta notícia foi referida por outros veículos da época, mas se trata de uma inverdade provavelmente causada por equívoco de transmissão. O arquipélago Juan Fernández existe ainda hoje e faz parte do território chileno.

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O dia 24 de março na história

  • 1854 O presidente José Gregorio Monagas abole a escravidão na Venezuela.
  • 1874 Nasce em Budapeste o ilusionista e performer húngaro-americano Harry Houdini.
  • 1882 O médico e microbiologista alemão Robert Koch anuncia a descoberta da bactéria Mycobacterium tuberculosis, causadora da tuberculose.
  • 1897 Nasce em Dobzau, na Áustria-Hungria, o médico psicanalista Wilhelm Reich, propositor da bioenergética.
  • 1905 Morre em Amiens o escritor, poeta e dramaturgo francês Jules Verne, autor de “Volta ao Mundo em 80 Dias”.
  • 1921 Começa em Monte Carlo a Olimpíada Feminina, o primeiro evento internacional de esporte exclusivamente para mulheres.
  • 1926 Nasce em Leggiuno o dramaturgo italiano Dario Fo, prêmio Nobel de literatura em 1997.
  • 1927 Navios de guerra estrangeiros bombardeiam a cidade chinesa de Nanquim para defender os habitantes estrangeiros.
  • 1934 O congresso americano aprova lei que permite às Filipinas, então um território dos EUA, o auto-governo.
  • 1939 Falha o Putsch de Liechtenstein, tentativa de provocar a anexação do microestado europeu pela Alemanha nazista.
  • 1976 As Forças Armadas da Argentina derrubam o governo constitucional da presidente Isabel Perón e iniciam a ditadura militar que durará até 1983.
  • 1982 O presidente de Bangladesh, Abdus Sattar, é deposto em golpe liderado pelo general Hussain Ershad, que suspende a constituição e impõe a lei marcial.
  • 1989 Petroleiro da Exxon derrama cerca de 240 mil barris de óleo no Golfo do Alasca no maior desastre petrolífero dos EUA.
  • 1991 Ayrton Senna vence o icônico GP de Interlagos, em São Paulo, com problemas técnicos no carro e intenso desgaste físico.
  • 1999 A Otan inicia ataques na Iugoslávia durante a Guerra do Kosovo (sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU) na primeira vez que a aliança intervém em um país soberano.
  • 2008 O Butão, antes um reino, se torna oficialmente uma democracia e realiza sua primeira eleição geral.
  • 2016 Morre em Barcelona o ex-jogador e técnico holandês Johan Cruyff, um dos melhores da história.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios.