“O ardor e o entusiasmo com o que vinha sendo disputado o campeonato estadual de ‘foot-ball’ do corrente ano, sob auspícios da Federação Rio-Grandense de Desportos, fazia que a última prova previsse constituir, como sucedeu, um verdadeiro acontecimento esportivo. Pode-se dizer que, nos dois últimos dias, o nosso mundo esportivo esteve com a sua atenção preocupada para o torneio de domingo. Justificava-se esse interesse. Representantes de dois grandes centros esportivos do Estado iriam medir suas forças. De um lado estava o veterano Grêmio Porto-Alegrense, atual detentor do campeonato da veterana APAD; e, do outro, o não menos valoroso Grêmio Esportivo Bagé, da cidade do mesmo nome, e campeão da zona sul. Todos opinavam pela vitória do Bagé. E por quê? Porque seu quadro, constituído de jogadores internacionais, vinha precedido de grande renome, confirmado em importantíssimas provas. Os bageenses, orgulhosos também com a sua recente vitória sobre os santanenses, estavam confiantes. E, como diz o velho brocardo: ‘Voz do povo, voz de Deus’, os rapazes da ‘Princesa da Fronteira’ confirmaram o que se vinha dizendo há alguns dias: saberiam se bater com ardor, saberiam demonstrar o seu bom jogo, levantando assim o campeonato do corrente ano. Cobriram-se de glórias! Venceram porque jogaram melhor e estiveram mais calmos e, assim, conseguiram a vitória. [...] E não podíamos regatear elogios à gloriosa jornada de domingo, em que saiu triunfante o Grêmio Bagé. Vamos, agora, falar do clube que nos representou, o veterano Grêmio Porto-Alegrense. No seu quadro trabalhou muito, seus ‘players’ tudo fizeram no sentido de não se deixarem vencer. Mas, falando francamente, os onze gremistas não estiveram tão homogêneos como os onze bageenses. Faltou-lhes uma atuação mais técnica, mais sangue-frio, um remate em condições. O resultado destes e de outros contratempos foi o Grêmio Bagé tirar melhor proveito da sua atuação. Tivessem os gremistas arrematado como em outras provas, tivessem se mantido calmos em seus postos, e a sorte lhes teria sido outra. E, não obstante estarem alguns ‘players’ indispostos, o Grêmio não se pode queixar da sua representação no atual campeonato. Coube-lhe o título de vice-campeão. [...]
Os últimos cinco minutos foram empregados totalmente pelos bageenses no desenvolvimento de um belo jogo, chegando Macarrão a cometer ‘penalty’, que o juiz não viu. E, debaixo da forte pressão dos que já se julgavam senhores do campeonato estadual do corrente ano, terminou o grande ‘match’ com este resultado:
Grêmio Bagé: 2 ‘goals’
Grêmio Porto-alegrense: 1 ‘goal’
Terminara a luta quando eram precisamente 18 horas. Confirmaram-se os prognósticos com a vitória magnífica e técnica dos onze de Bagé. [...] Estava terminada a tarde esportiva. O povo foi-se retirando, satisfeito por haver passado a tarde escura de domingo. E algumas dezenas de pessoas que ficaram no campo discutiam o resultado do jogo, ameaçando-se de se porem em conflito. Felizmente, a paciência de Jó dos agentes e inspetores da polícia evitou que estes torcedores chegassem a vias de fato. Para finalizar, temos mais uma vez a dizer que se devem empenhar os melhores esforços para se evitar qualquer discussão, em campo e fora dele. As reclamações devem ser feitas dentro de boas maneiras.
A vitória dos bageenses repercutiu simpaticamente em nossos meios esportivos. Repetimos, foi ela produto de um jogo mais técnico, mais homogêneo. Todo o seu quadro trabalhou merecendo por tal feito parelho, todos os onze, francos elogios. Entretanto, não podemos deixar de salientar Júlio, que se revelou um grande arqueiro; Antonio e Fortunato, dois ‘backs’ firmes; Moreira, como esforçado ‘center-half’. E, por último, o trio atacante constituído de Pasqualito, Oliveira e Argeu, tendo o primeiro destes no primeiro tempo abusado do jogo de ‘dribling’. Quanto aos demais, elogios merecem pela forma como se conduziram. Enfim, foi uma vitória completa a obtida, na tarde de domingo, pelo Grêmio Esportivo Bagé. [...]”
_
Revolta síria
“Os insurretos, cujas forças são calculadas de 20 a 25.000 homens, se estabeleceram no quartel-general em Hambeyer. Teme-se, aqui, que os ‘mitawalis’, que possuem 25.000 fuzis, se unam aos revoltosos. Os franceses receberam somente mil soldados de reforço nos últimos quinze dias. Reina muita ansiedade e inquietação nas colônias estrangeiras, especialmente na italiana, que deseja que os navios de guerra dessa nacionalidade, que se acham próximos, venham para aqui. Continua chegando muita gente procedente de Damasco, onde se teme que se venha a produzir outro levante.”
“Despachos procedentes de Sidon dizem que Cayla, governador de Grão Lithang, realiza uma excursão no interior do país, recomendando aos cristãos que marchem contra os drusos, cujas forças aumentam diariamente. Crê-se que esta resistência seja a causa das incursões e incêndios nas aldeias cristãs, método este adotado pelos drusos, a fim de fazer com que as cidades e aldeias dos cristãos permaneçam neutras, pagando, todavia, os tributos em dinheiro à vista ou em armas. E, se resistem, prende-se-lhes fogo, como aconteceu com Kawkaba, Jedeideh e Nebetieb.”
“Os europeus daqui [Beirute] condenam a atitude dos franceses, mandando os cidadãos cristãos ao largo das costas do Mediterrâneo e os enviando para fazer frente ao avanço dos drusos. É opinião geral que, desse modo, tende-se a reavivar os velhos prejuízos e ódios religiosos. Os chefes muçulmanos nos dizem que têm dado estritas ordens ao seu povo para não molestar os cristãos, mas insistem em afirmar que não podem dispensar-lhes garantias, a menos que os franceses deixem de armar voluntários cristãos. Os sacerdotes muçulmanos, quando predicam nas mesquitas, pedem aos crentes que permaneçam leais aos franceses, sendo, porém, esses conselhos recebidos com gritos hostis. [...]”
_
O Brasil nas convenções
“O relatório que acaba de ser publicado pela Secretaria da Liga das Nações dando o estado atual das assinaturas das ratificações das convenções internacionais lançadas pela Liga mostra que o Brasil tem sido sempre o primeiro país a esforçar-se por melhorar as relações internacionais. Foi o Brasil a primeira nação a assinar o pacto e, não somente, o Protocolo da Corte de Justiça, de Haia, como também a cláusula de opção, aceitando a jurisdição compulsória desta Corte. O Brasil, até agora, assinou doze convenções da Liga, inclusive todos os tratados com os quais pôde demonstrar o seu adiantado espírito de colaboração internacional. Entre esses tratados, contam-se: um relativo ao regime das estradas de ferro internacionais; outro, ao regime dos portos marítimos internacionais; outro, sobre a supressão do tráfico do ópio e das drogas estupefacientes; a proibição do emprego dos gases asfixiantes, dos germes das moléstias da guerra; o Protocolo da Corte de Haia; o protocolo destinado a resolver as disputas internacionais; e a simplicidade das formalidades alfandegárias.”
_
Primeiras edições
Da edição de 23 de novembro de 1895, sábado, n. 45
Violento incêndio
“Ontem ao meio-dia, pouco mais ou menos, manifestou-se incêndio na fábrica de móveis de propriedade do sr. Daniel Collin e estabelecida à rua Ramiro Barcelos n. 126. Segundo se presume, o fogo foi ateado por um fósforo que, atirado imprudentemente ao chão por um dos empregados daquela fábrica, caiu por uma fresta do assoalho, indo incendiar cavacos que se achavam no porão. Mal teve conhecimento do fato, compareceram imediatamente ao local uma força da Brigada Militar, comandada por um capitão, e o corpo de bombeiros, que nada mais teve a fazer do que obstar que o fogo se propagasse às casas contíguas. O incêndio lavrou com extraordinária rapidez, reduzindo tudo a cinzas em pouco tempo. A fábrica tinha grande quantidade de móveis e madeiras e estava segura na Companhia Porto-Alegrense, bem como o prédio, em 30:000$000. Ambos eram de propriedade do sr. Daniel Collin. Uma criada deste senhor, que estava trabalhando no interior da casa, quando pressentiu o fogo, correu para a porta da rua a fim de sair. Infelizmente, porém, o incêndio já lavrava com uma intensidade aterradora e ela não pôde transpor a porta. Correu então ao pavimento superior do prédio e, da sacada, atirou-se à rua, sendo aparada pelo povo que se achava apinhado no passeio. [...]”
_
Da edição de 24 de novembro de 1895, domingo, n. 46
“Correio Médico”
“O Correio do Povo precisa, por todos os modos, corresponder às crescentes e animadoras simpatias que o cercam e o encorajam. Para isso, não temos poupado esforços de toda a ordem, procurando fazer do Correio do Povo uma folha moderna, leve, interessante, de feição inteiramente nova, apartada, enfim, dos acanhados moldes em que, por longo tempo, estacionou a nossa imprensa. E não temos feito mais do que honrar as palavras do nosso programa quando tomamos o compromisso de criar um jornal verdadeiramente popular, destinado a ser lido e procurado por todos, indistintamente. Agora que mais se avoluma, dia a dia, essa benéfica corrente de espontânea estima, obrigados nos julgamos a redobrar de vigor no empenho de bem corresponder aos incentivos que nos chegam de toda parte. Assim, resolvemos adicionar às muitas que já mantemos mais uma seção, e esta de real interesse, como os leitores vão ver. Tem ela por título: “Correio Médico”, e destina-se ao seguinte. As pessoas que tiverem pago as suas assinaturas de ano do Correio do Povo terão direito a duas consultas médicas, que lhes serão dadas gratuitamente. As assinaturas de semestre dão direito a uma consulta. Essas consultas serão feitas em carta fechada, com endereço ao Correio Médico desta folha. O consultante deverá assinar o seu nome, dando também o número do recibo de sua assinatura do nosso jornal, para evitar abusos e confusões, certos de que guardaremos sobre o assunto o mais absoluto sigilo. As respostas serão dadas nesta mesma seção, com a maior clareza e discrição. Para poder preencher cabalmente os fins a que se destina esta seção, o Correio do Povo foi honrado com o cavalheiresco oferecimento de um dos mais competentes clínicos de Porto Alegre. Auxiliados pelo valioso concurso desse distinto profissional, estamos certos de prestar aos nossos assinantes serviços de real valia. Assim, pois, além das múltiplas vantagens que o Correio do Povo garante aos seus assinantes, dando-lhes uma folha digna do nosso meio, repleta de seções variadas e úteis, dá-lhes também a faculdade de consultar, cômoda e gratuitamente, um médico de aptidões comprovadas.”
_
O dia 24 de novembro na história
- 1631 A cidade de Olinda, no atual estado de Pernambuco, é invadida e saqueada pelos holandeses.
- 1632 Nasce em Amsterdã o filósofo holandês Baruch Spinoza.
- 1713 Nasce em Clonmel o clérigo e escritor anglo-irlandês Laurence Sterne, autor de “Tristam Shandy”.
- 1826 Nasce em Florença o escritor italiano Carlo Collodi, autor do “Pinóquio”.
- 1859 O livro fundador da biologia evolucionária, “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, é publicado em Londres.
- 1940 A Primeira República Eslovaca assina o Pacto Tripartite e se alinha aos países do Eixo durante a Segunda Guerra.
- 1957 Morre na capital mexicana o pintor e escultor Diego Rivera.
- 1963 Lee Harvey Oswald, alegado assassino do presidente americano John F. Kennedy, é morto em transmissão ao vivo pela televisão por Jack Ruby.
- 1965 Joseph-Désiré Mobutu toma o poder na República Democrática do Congo e permanece presidente por mais de 30 anos, até ser destituído em 1997.
- 1971 Dan Cooper sequestra um avião e se lança de paraquedas com os 200 mil dólares do resgate sobre o estado americano de Washington; nunca foi encontrado.
- 1974 Ossos fossilizados de Australopithecus afarensis, de 3,2 milhões de anos, batizados Lucy, são descobertos na Etiópia pelo paleoantropólogo americano Donald Johnson.
- 1989 A demissão de todo o alto escalão do Partido Comunista da Tchecoslováquia decreta o fim efetivo do governo comunista no país.
- 2016 O governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinam acordo de paz, encerrando mais de 50 anos de guerra civil.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios
