Há um Século no CP

O Norte brasileiro como a grande esperança da economia nacional

Da edição de 3 de dezembro de 1925, quinta-feira, n. 287

Divulgador da economia do Norte afirmou que, após o intenso ciclo da passagem do século XIX para o XX, a revalorização da borracha impulsiona a região amazônica
Divulgador da economia do Norte afirmou que, após o intenso ciclo da passagem do século XIX para o XX, a revalorização da borracha impulsiona a região amazônica Foto : CP Memória

“Encontra-se há dias em Porto Alegre inteligente cavalheiro, sr. Francisco Antonio Vieira, que, em viagem de propaganda comercial, vem desde Manaus percorrendo o país.

Algo interessante nos poderia ele dizer acerca da situação econômica do norte, principalmente, e com mais razão, visto o sabermos um espírito ilustrado, observador e pertencente ao meio comercial.

E não perdemos o nosso tempo.

Que nos diz do norte, perguntamos de chofre.

— Do norte, respondeu-nos, só poderei falar-lhe entusiasmado acerca do Pará e Manaus, duas praças que se consideravam liquidadas e mortas estiveram longos anos por causa da desvalorização da borracha. Hoje, todavia, são as únicas que se encontram em prosperidade e desenvolvimento, pois que a borracha sobe e o açúcar desce... Não o açúcar apenas, mas todos os demais produtos do norte, como o cacau, o fumo, o algodão, e portanto Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Maranhão e demais Estados encontram-se naturalmente em aperturas financeiras.

— Mas subiu muito a borracha?

— Se subiu, diz-nos o sr. Vieira. Chegou a valer, por favor, uns 2.500 réis, e, em outubro último, quando me encontrava em Manaus, a sua cotação estava fixada em 11.500 réis. Em junho deste ano foi ela vendida a 17.000 réis, num total de 70 mil contos, saindo quase toda para a América do Norte. A castanha do Pará, que se pedia à compra a 15.000, ainda se agradecia, subira, em outubro, a 120.000 réis!

— São esses os únicos produtos valorizados nessas regiões?

— E a madeira ficará esquecida, observa-nos o nosso amável entrevistado. Pois esse é hoje um dos maiores fatores da exportação desses dois Estados. Tanto assim que todos os vapores do Lloyd Brasileiro carregam centenas de metros cúbicos de madeira para o litoral do país e para o Uruguai. E mais praticamente semanalmente os que aparecem não darão razão ao artigo!

O Lloyd, que tinha encostada toda a sua frota dos ex-alemães, agora a tem em movimento no serviço do transporte de madeira, e, não bastando esses vapores, contratou já a compra de mais dois na Europa.

Mas, além dos vapores do Lloyd, outros cargueiros de nacionalidades diferentes, três vapores italianos, dois ingleses e dois alemães, vão constantemente ao Pará e Manaus buscar, para a Europa, madeira e coco do Babaçu.

E, vendo o nosso espanto, o sr. Francisco Vieira diz-nos ainda:

— Creia que a subida do câmbio, entre nós, deve ter como principal fator a entrada pasmosa no mercado cambial desses dois Estados: Pará e Amazonas, com os quais, aliás, não se contava. É certo que devemos juntar-lhe os 30 milhões de sacos de café da safra passada, de S. Paulo, Rio e Minas. Natural, porém, que no mês corrente, no qual não há saídas de café, ou havendo-as, sejam insignificantes, o câmbio sofra qualquer alteração.

— Mas, apesar da perspectiva otimista referente a Manaus e Pará, observamos, o comércio nacional encontra-se retraído.

— Sem dúvida, e com justa razão, acode o sr. Vieira. A perturbação que se nota no comércio é a consequência das alternativas do câmbio. Delas resultam evidentemente a paralisação dos negócios e o receio de os fazer.

As oscilações cambiais interessam e afetam os comerciantes, os industriais, os agricultores, refletindo-se na economia nacional. Permanecendo, contudo, o movimento exportador do Pará e Manaus, como tudo indica venha a suceder, ele só o pode amparar e defender. Deixe o ‘Correio do Povo’ que declare julgar eu pessoalmente dever-se ao Banco do Brasil a culpa de muito desânimo que se observa nos meios comerciais. Ele não facilita nem ampara a agricultura e o comércio, estando, aliás, cheio de cambiais e tendo, em Londres, tão ilimitado crédito que pode sacar a descoberto o que bem entender. Estará, talvez, arrecadando para o pagamento da amortização da dívida externa, em 1927. Seja como for, se imitasse o ‘Banco da Nação’, na Argentina, o nosso comércio, a nossa indústria e a nossa agricultura estariam vivendo em absoluto desafogo.

Já à despedida, o sr. Francisco Vieira diz-nos ainda:

— A borracha, a madeira e a castanha, isto é, Pará e Amazonas, são a esperança da economia nacional.

Quem havia de o imaginar — concluímos nós.”

_

Revolta síria

“Dizem de Beirute que o sr. De Jouvenel [representante francês] rejeitou as ofertas de paz aos drusos, as quais compreendiam o estabelecimento do governo nacional sírio e a retirada das tropas francesas.”

“Quando embarcava para Beirute, o sr. De Jouvenel, novo comissário-geral da França na Síria, recebeu do ‘comité’ sírio-libanês uma lista de reivindicações desrazoáveis, inclusive o abandono do mandato na Síria, pela França. O sr. De Jouvenel respondeu que as condições eram inaceitáveis e que tais pedidos só podiam comprometer a obra da paz na Síria.”

_

O clima mineiro e a tuberculose

“Está provado por numerosos casos que o clima desta capital [Belo Horizonte] influi na paralisação da tuberculose em seu primeiro período. Um grupo de médicos e capitalistas pensa por isso fundar, com grandes recursos, um hotel e um sanatório destinados a estágio para as pessoas atingidas por aquele mal. Tal estabelecimento está orçado em 3.000:000$000.”

_

Atraso de salários

“Os auxiliares e estafetas do Telégrafo Nacional que servem em Porto Alegre há três meses que não conseguem sentir o cheiro dos seus magros vencimentos! A ordem de pagamento, contudo, há muito chegou a esta capital, faltando, dizem, o respectivo crédito, a dar-se crédito ao que muitos acreditam ser verdade. Enquanto, porém, não se preencher tal formalidade burocrática, esses pobres e esforçados cooperadores dum serviço exaustivo e de interesse geral, como seja o telégrafo, que passem necessidades, recorram ao crédito, os felizes que o tiverem, ou se entreguem, impelidos pelas circunstâncias, nas garras da agiotagem desenfreada. Ora, não é humano nem justo o descaso das estações oficiais por essa classe que, por ser modesta e não influir, talvez, na balança da política, tem tanto direito a receber o que lhe pertence, a tempo e horas, como os chefes e diretores gerais de qualquer serviço público. Convimos que o estômago dessa gente não seja elástico nem habituado esteja às iguarias que satisfazem os apetites gastronômicos dos que se consideram bem instalados na vida. Mas daí à supressão absoluta do alimento vai uma distância pasmosa. [...].”

. . . . . . . . . . . . . . .


Primeiras edições

Da edição de 3 de dezembro de 1895, terça-feira, n. 53

Coleta deficitária

“Fazemos hoje à intendência municipal uma reclamação sobre a remoção do lixo feita pelas carroças da limpeza pública. Em geral é esse serviço feito com a máxima irregularidade e, há muito tempo, parte do povo queixa-se contra essa irregularidade sem que seja atendido, pois as faltas e os abusos continuam sempre. Fazemos essa reclamação a pedido de vários moradores do arrabalde do Menino Deus. Queixam-se eles de que a carroça do lixo passa dias e dias sem visitar aquele bairro, ou pelo menos parte dele. Ora, o cisco assim acumulado vai pouco a pouco se putrefazendo, pestilenciando o ar e sendo, por consequência, causa poderosa de doenças que se propagam rápida e extraordinariamente, de degradação física e até de morte. Mas, pondo mesmo de parte essas coisas de saúde pública e os mais rudimentares preceitos de higiene, confessemos que é atroz deixar os moradores de uma certa parte da cidade sem as regalias a que têm direito, porquanto pagam, como todos os outros, os impostos decretados pelas leis municipais. Se a intendência tem empregados que não sabem cumprir os seus deveres e lhe comprometem os seus créditos, demita-os, substitua-os, contanto que o povo não sofra naquilo que de mais caro ele tem — a saúde. A municipalidade sustenta um grande número de fiscais. Pois bem. Faça ela com que esses fiscais fiscalizem de fato o serviço da remoção do lixo para que seja ele feito com a regularidade necessária à higiene pública.”

. . . . . . . . . . . . . . .

O dia 3 de dezembro na história

  • 1857 Nasce no norte da atual Ucrânia o escritor polonês-britânico Joseph Conrad, autor de “Coração das Trevas”.
  • 1894 Morre em Samoa, no Pacífico, o escritor escocês Robert Louis Stevenson, autor de “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”.
  • 1910 A iluminação de neon é demonstrada pela primeira vez pelo engenheiro francês George Claude em Paris.
  • 1902 Morre em Piracicaba o primeiro presidente civil da República brasileira, Prudente de Morais.
  • 1919 Morre o pintor francês Pierre-Auguste Renoir, um dos principais nomes do impressionismo.
  • 1920 Assinado o Tratado de Alexandropol, encerrando a Guerra Turco-Armena.
  • 1925 Assinado o acordo final entre o Estado Livre Irlandês, a Irlanda do Norte e o Reino Unido, formalizando a Partição da Irlanda.
  • 1930 Nasce em Paris o diretor, roteirista e crítico franco-suíço Jean-Luc Godard.
  • 1938 Publicado o Decreto de Utilização de Propriedade Judaica na Alemanha nazista, obrigando judeus a vender bens abaixo dos valores de mercado.
  • 1944 Inicia a Dekemvriana, período de confrontos em Atenas entre militantes de esquerda e forças governistas apoiadas pela Grã-Bretanha.
  • 1948 Nasce na Inglaterra o músico Ozzy Osbourne, líder da banda britânica de heavy metal Black Sabbath.
  • 1967 O primeiro transplante de coração é realizado na Cidade do Cabo, África do Sul.
  • 1979 O aiatolá Khomeini se torna Supremo Líder do Irã, a maior autoridade política e religiosa do país, durante a Revolução Iraniana.
  • 1984 Desastre de Bhopal: o vazamento do gás de isocianato de metila de uma fábrica da empresa Union Carbide na Índia causa a morte imediata de cerca de 3800 pessoas, cerca de 6000 posteriormente e a intoxicação de quase 500 mil.
  • 1984 Publicada no Japão a primeira edição do mangá Dragon Ball.
  • 1992 Em caráter de teste, a primeira mensagem de texto para um telefone móvel é enviada.
  • 1994 O primeiro PlayStation é lançado pela Sony no Japão.
  • 2000 Guga Kuerten vence Andre Agassi e se torna campeão do Master de Lisboa de tênis.
  • 2021 A cidade neozelandesa de Auckland sai do lockdown por vacinação completa contra a Covid-19.
  • 2024 A lei marcial é declarada na Coreia do Sul.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

Mais Lidas