Há um Século no CP

O perigo diário de uma cena “policial” pitoresca

Da edição de 19 de maio de 1926, quarta-feira, n. 116

Policial e transeunte perseguiram um cachorro pelas ruas do Menino Deus disparando tiros
Policial e transeunte perseguiram um cachorro pelas ruas do Menino Deus disparando tiros Foto : CP Memória

“Um cachorro, ontem, na Avenida 13 de Maio [atual avenida Getúlio Vargas], brincava ‘amistosamente’ com outro animal de sua raça quando, em uma das suas correrias, derrubou uma criança que, felizmente, nada sofreu além do susto, levantando-se lépida e risonha, a sacudir os vestidos e a limpar os joelhos, sujos da terra da calçada. E nesse ínterim, um guarda municipal, que estava de serviço à esquina da rua Marcílio Dias com essa Avenida, sentindo-se invadido por sentimentos bélicos, puxou do revólver e desatou correndo atrás do pobre cachorro! Para que a comédia não tivesse uma só personagem, o gesto ridículo desse guarda foi imitado por um ‘chauffeur’, ansioso, decerto, pela experiência da sua arma. E os dois corriam à porfia na caça do bicho, sob as gargalhadas dos transeuntes que presenciaram a cena, mas, pelo ar tétrico e desesperado com que essa carreira era feita e à qual as armas empunhadas emprestavam um tom de tragédia iminente, deveras assustava as senhoras que passavam, de todo estranhas à fita desenrolada. É neste ponto que incide o nosso comentário, pois torna-se perigoso e condenável que um mantenedor da ordem pública se utilize, à toa, da arma que lhe foi confiada para defesa do princípio da autoridade, e não para causar o pânico inútil entre o povo, arrastando, para cúmulo, o prestígio de que se deve possuir à chacota dos circunstantes. A atitude desse guarda é bem mais censurável que a do ‘chauffeur’, atitude agravada pelo fato de que deveria ter sido ele o primeiro a impedir a exibição da arma proibida nas mãos de um simples popular. Não houve desgraça, é certo, mas podia ter havido muitas. E, na hipótese do cachorro — causador indireto dessa comédia trágica — estar hidrófobo, nem mesmo assim se desculparia o desatino da carreira desses homens, de revólver em punho, tentando disparar ao acaso!”

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Da ‘Caixa Urbana’

“Recebemos a seguinte carta: ‘Rogo ao simpático ‘róseo’, dedicado defensor das prerrogativas deste povo ‘urbano’... e suburbano, a inserção da parada que aqui alinhavo. Morador da Estrada do Mato Grosso [atual avenida Bento Gonçalves], lá onde esta tangencia o Instituto Borges de Medeiros [atual Faculdade de Agronomia da UFRGS] — para lá me transporto ao cair da tarde e de lá venho de manhãzinha. Sou, pois, o Ahasverus [o “Judeu Errante”, personagem mítico da tradição cristã] daqueles sítios e palmilho aqueles caminhos que conheço como as palmas das mãos. No auto que me leva e que me traz, sofro diuturnamente a trepidação com que a péssima estrada me desloca as vísceras. Não sei se tenho ainda o fígado do lado direito ou se o coração tomou o lugar do estômago. É lamentável a situação daquela via! Há, ali, um ‘conservador’, mas este pode o ser nas ideias, mas nos atos é a maior negação que conheço para conservantismo. Sabe o sr. redator em que consiste o trabalho de conservação daquela estrada? Simplesmente nisto: meia dúzia de trabalhadores se ocupam em remover para o meio da estrada a terra pulverulenta acumulada nos valos marginais! Ora, esta prática [...] dá o seguinte resultado: no verão, a poeira entontecedora ao mais leve vento; no inverno, a lama pegajosa nuns pontos, diluída e escorregadia noutros, constantemente ameaçando a derrapagem dos autos e dificultando a tração animal nos declives. E dizer-se que essa estrada conduz a um estabelecimento da importância do Instituto B. de Medeiros, presumivelmente visitado pelos elementos de escol que aqui chegam ávidos por visitarem as grandezas da terra e que constatam que para lá chegar precisam de se meter no lodo até os tornozelos… Urge, sr. redator, que os ‘poderes públicos’ providenciem para a conservação, de fato, naquela estrada, imensamente transitada e que serve uma vastíssima zona povoada, além de servir de ligação à vila de Viamão, donde trafegam diariamente caminhões pejados de viajantes. Temos tido o prazer de encontrar na estrada algumas vezes o nosso edil, que, portanto, não desconhece o estado do caminho e a importância da região. Muito grato pela acolhida que o ‘Correio’ der a este sarapatel, sou Atento Leitor’.”

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Arroz

“As plantações — diz a última mensagem do presidente da República — foram enormemente prejudicadas no ano findo com o longo período de estiagem registrado em São Paulo, onde é maior a produção, e em Minas. No Rio Grande do Sul, que é o segundo Estado produtor e onde a cultura continua a ser feita por meio de irrigação, a falta de braços e de crédito atuou como elemento desfavorável à produção. Daí a necessidade que teve o governo de importar arroz estrangeiro para o consumo interno. Entretanto, depois do milho, café, algodão e cana, é hoje o arroz a cultura mais importante do país quanto ao volume e valor da produção. De grande importador de arroz que era em 1905, o Brasil, depois da guerra europeia [1914-1918], passou a figurar como exportador, tendo atingido a 95.157.645$000 o valor do produto exportado em 1920.”

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Política futurista

“Marinetti [Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), poeta italiano, editor e fundador do movimento Futurista], o apóstolo do futurismo, está a pregar ao gentio nacional o novo credo. Em verdade, já antes do formidável Marinetti, o sr. Graça Aranha, autor do Malazarte, dera no seio da Academia o grito de revolta, e não lhe faltaram sequazes, especialmente entre os intelectuais da paulicéia, onde pela segunda vez se proclama, com o intervalo de um século, a independência nacional. Pedro I e Graça Aranha são dois manos na história político-intelectual do Brasil e São Paulo, a terra destinada a esses arranques. Mas, enfim, nacionalismo à parte, Marinetti falou. Como o seu patrício César, chegou, viu e quase venceu. Mas o público do Rio, que é passadista e não entende de arte, com atitude sacrílega, apupou o apóstolo, que, do tablado de um teatro, pretendeu repetir não o sermão, mas o canto da Montanha, de cuja altura de três mil metros o autor precipitava os seus versos sem censura, em esticílios, sem rimas, sem coisa nenhuma daquilo que, no passado, desde Homero, constituía a arte de versejar. Desiludido da poesia, Marinetti investiu resolutamente pela política futurista. Nesse passo, o orador empolgou o auditório. Houve entre ambos uma corrente irresistível de simpatia, e os aplausos estrugiram. É que, em política, há muito que somos futuristas... tão futuristas que não nos entendemos e outros não nos entendem.”

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O dia 19 de maio na história

  • 1848 O México ratifica o Tratado de Guadalupe, encerrando a Guerra México-Americana, cedendo os territórios dos atuais estados da Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Colorado, Novo México e Wyoming.
  • 1864 Morre em New Hampshire o escritor americano Nathaniel Hawthorne, autor de “A Letra Escarlate”.
  • 1890 Nasce na Indochina Francesa o político e revolucionário comunista vietnamita Ho Chi Minh, primeiro presidente da República Democrática do Vietnã.
  • 1895 Morre o intelectual e nacionalista cubano José Martí, herói da independência de Cuba.
  • 1919 O militar Mustafa Kemal Atatürk desembarca na cidade costeira de Samsun, iniciando a Guerra de Independência Turca.
  • 1921 Respondendo ao grande influxo de imigrantes do sul e leste da Europa, o congresso americano aprova lei que estabelece quotas para a imigração.
  • 1925 Nasce na Indochina Francesa o revolucionário cambojano Pol Pot, líder do movimento comunista Khmer Vermelho e ditador do Camboja entre 1976 e 1979.
  • 1925 Nasce em Omaha o ativista muçulmano e revolucionário americano Malcolm X.
  • 1934 A organização política Zveno e o exército búlgaro executam golpe de Estado que instala Kimon Georgiev como novo primeiro-ministro.
  • 1945 Nasce em Londres o músico Pete Townshend, guitarrista da banda britânica The Who.
  • 1950 O Egito anuncia que o Canal de Suez está fechado para navios comerciais israelenses.
  • 1962 Marilyn Monroe canta o famoso “Happy Birthday” para John F. Kennedy na celebração de aniversário do presidente americano em Nova Iorque.
  • 1974 O liberal Valery Giscard D’Estaing vence o segundo turno das eleições presidenciais francesas, derrotando o socialista François Mitterrand.
  • 1979 Nasce em Flero o ex-jogador italiano Andrea Pirlo, campeão do mundo na Copa de 2006.
  • 1991 Os croatas decidem em plebiscito pela independência do país da Iugoslávia.
  • 1994 Morre em Nova Iorque a escritora, editora, socialite e ex-primeira-dama americana, Jacqueline Kennedy Onassis.
  • 1999 Estreia o quarto filme da série cinematográfica “Guerra nas Estrelas”: “A Ameaça Fantasma”, prequel da trilogia original.
  • 2007 O presidente da Romênia, Traian Basescu, retorna ao cargo após plebiscito popular descartar seu impeachment.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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