Há um Século no CP

Os salários insuficientes dos funcionários postais

Da edição do dia 14 de junho de 1925, domingo, edição n. 140

Pequeno artigo refletia sobre o custo de vida dos funcionários dos serviços postais do Brasil, considerando a remuneração de diversas funções e o poder de compra de seus salários
Pequeno artigo refletia sobre o custo de vida dos funcionários dos serviços postais do Brasil, considerando a remuneração de diversas funções e o poder de compra de seus salários Foto : CP Memória

“Sabem quanto ganha um agente postal do interior, nesta premente época de carestia da vida? Cinco mil réis, quantia que, quando muito, representa o preço de um saco de feijão. O governo dirá que um saco é muita coisa para um único homem. Concordar-se-ia com a objeção se o funcionário só tivesse de comer essa espécie de grão, andasse nu como o paradisíaco companheiro de Eva e morasse dentro do sol, onde nunca lhe faltasse luz e onde a vela de sebo fosse um luxo. Sabem quanto recebe um condutor postal? Pouco mais de cem mil réis, que lhe dariam para dois sacos de feijão, se tivesse de carregar as malas às costas e não fosse obrigado a comprar um saco de milho para sustento da animaria que as carrega no lombo. Sabem qual é a remuneração de um avulso praticante dos Correios? Varia, conforme as sobras, isto é: de acordo com os descontos por faltas do pessoal efetivo. Ou vinte, ou trinta, ou quarenta mil réis, nunca passando de cinquenta nos meses de mais preguiça para uns e de igual trabalho para os que não podem ser preguiçosos. De quando em quando, este ou aquele agente comete um desfalque; este ou aquele condutor entrega os sacos vazios de correspondência com valor. Foi-se a economia que o governo esmiúça nos orçamentos. Indeniza as partes lesadas, pagando cem ou quinhentas vezes mais que o ordenado de um estafeta, ao qual manda confiar seus mesquinhos haveres, deixando-o passar miséria. Também, de vez em quando, este ou aquele funcionário avulso desaparece, levando cinco meses ou um ano de vencimentos como adiantamento de uma só vez. Mas não convirá que esse gênero de ‘pró rata’ sirva para os ratos…”

Falsários de títulos eleitorais

“‘A Noite’ denuncia que a polícia acaba de descobrir uma perfeita organização de falsários que dispunha de uma oficina completa, com carimbos e sinetes, para falsificar as firmas dos juízes, delegados, tabeliões, vigários e de qualquer autoridade civil, militar e eclesiástica. Dessa maneira, faziam eles inúmeras falsificações de toda espécie. A audácia dos falsificadores chegava ao ponto de, sabendo que em determinado ano fora registrado, para enterro, um feto, davam-lhe um nome qualquer e, aproveitando os nomes dos pais, por meio de uma certidão fabricada, faziam o feto possuidor dos legítimos direitos de cidadão, dando-lhe o título de eleitor do distrito. Já foram efetuadas algumas prisões e apreendida, em casa de um dos detentos, enorme quantidade de carimbos e sinetes. A polícia está agindo com segurança, pois muita gente está envolvida no caso, inclusive de certa categoria.

A Europa e o Marrocos

“Através de séculos já sem conta, não cessam as arremetidas da Europa Meridional contra Marrocos. Outrora, a Cristandade via na africana terra defrontante, quase ligada por Gibraltar — Coluna de Hércules da Antiguidade — a região dos hereges, a mourama sacrílega, que era preciso vencer, dominar, exterminar. A Lusitânia teve a parte inicial. Um rei cavalheiro, com exércitos de fina flor, marcou o termo dessa luta dos portugueses contra Fez e Tânger, selando, com sua morte inexplicável e com o desfazer de suas hostes flamejantes, uma página heroica da malfadada conquista portuguesa. O velho sonho cristão se crestara à adustez dos areais. Levantado o pó das dunas ao turbilhão da refrega, Dom Sebastião desaparecera como arrebatado por um mistério, que o envolveu para sempre na auréola de uma lenda messiânica. A Espanha herdou os percalços da cruzada, com alternativas de êxitos e insucessos que, pelos tempos adentro e pelos tempos afora, demoram a realização de um domínio, aspiração transformada em tormento sem fim. Aos espanhóis se juntaram os franceses. Lá estão, de há muito, lado a lado, unidos contra o inimigo comum, desunidos ao objetivo também parelho, participando de vitórias e reveses, contratempos que se prolongam. Nos últimos meses, a Espanha foi surpreendida com uma ofensiva que quase se fez uma expulsão. A França sorriu egoisticamente, satisfeita ou confiada, na ilusão de que os desastres fatais só tocariam, desta vez, aos vizinhos. Mas eis que o movimento, ultrapassando a esfera de ação espanhola, penetra, ainda mais violenta, a orla francesa. Painlevé, sobressaltado, voou até Marrocos, onde a recepção não foi das mais condignas… Pelo Velho Mundo passou um frêmito de assombro ante a extensão da linha de batalha: noventa longuíssimos quilômetros de front. Parecia que a Europa, com especiais engenhos e técnica de destruição humana, se transportara para a África. E continuam o espectro da Conflagração e o apavorado ódio ao militarismo. Em qualquer parte onde os vencedores europeus se vêem vencidos, aí estão os alemães, dizem, numa confissão comprometedora de seus créditos. Tão comprometedora quanto falsa, porque são eles os culpados, levando hindus, chineses, marroquinos e zulus para os campos de batalha do Antigo Continente, ensinando-os a fazer a guerra com requintes da… ciência. Bem dada, a lição frutificou em discípulos excelentes, como está se vendo…”

O dia 14 de junho na história

  • 1158 A cidade alemã de Munique é fundada por Henrique, duque da Saxônia e da Bavária, às margens do rio Isar.
  • 1775 O Exército Continental é criado, marcando o nascimento das Forças Armadas dos EUA.
  • 1777 Os EUA adotam oficialmente a “Stars and Stripes” como sua bandeira nacional.
  • 1800 O exército francês vence os austríacos na Batalha de Marengo, no norte da Itália, e Napoleão reconquista o país.
  • 1894 Nasce em Moquegua o escritor, sociólogo, historiador, jornalista e filósofo marxista peruano José Carlos Mariátegui.
  • 1900 O Havaí se torna um território dos EUA.
  • 1916 Morre em Pelotas o escritor e empresário João Simões de Lopes Neto, expoente da literatura regionalista, autor dos “Contos gauchescos” e “Lendas do Sul”.
  • 1920 Morre em Munique o sociólogo alemão Max Weber, autor de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.
  • 1926 Membro fundador da Liga das Nações, o Brasil se retira da organização internacional.
  • 1928 Nasce em Rosario o médico e revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara.
  • 1940 COmeça a ocupação nazista de Paris durante a Segunda Guerra Mundial.
  • 1940 728 prisioneiros políticos da cidade polonesa de Tarnów se tornam os primeiros ocupantes do campo de concentração de Auschwitz.
  • 1941 Começa a primeira grande onda de deportação em massa dos países bálticos ordenada pela URSS.
  • 1949 O macaco Albert II se torna o primeiro mamífero a viajar ao espaço ao tripular foguete V-2 à altitude de 134 quilômetros.
  • 1962 A Organização de Pesquisa Espacial Europeia é fundada em Paris; mais tarde se torna a Agência Espacial Europeia.
  • 1982 As forças argentinas posicionadas em Stanley, capital das Malvinas, se entregam ao exército britânico, encerrando a Guerra das Malvinas.
  • 1985 Cinco membros da Comunidade Econômica Europeia assinam o Acordo de Schengen estabelecendo área de trânsito livre, sem controles de fronteira.
  • 1986 Morre em Genebra o escritor, poeta e tradutor argentino Jorge Luis Borges.
  • 1992 A Conferência das Nações Unidos sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco ’92, é encerrada na capital fluminense.
  • 1995 Morre em Londres o músico irlandês Rory Gallagher, um dos maiores guitarristas da história.
  • 2017 Incêndio de 60 horas em edifício residencial em North Kensington, oeste de Londres, deixa 72 pessoas mortas.

O dia 15 de junho na história

  • 1300 A cidade basca de Bilbao é fundada.
  • 1667 A primeira transfusão de sangue conhecida é realizada pelo médico francês Jean-Baptiste Denys.
  • 1844 O químico amador americano Charles Goodyear recebe a patente da vulcanização, método de enrijecimento da borracha inventado por ele.
  • 1896 Abalo sísmico na costa do Japão ocasiona tsunami que destrói cerca de 9 mil casas e mata ao menos 22 mil pessoas.
  • 1919 Os aviadores militares britânicos John Alcock e Arthur Brown completam a primeira travessia transatlântica sem parada ao aterrizar na Irlanda.
  • 1920 Após plebiscitos populares, a região norte de Schleswig é transferida da Dinamarca à Alemanha.
  • 1920 Nasce em Roma o ator, comediante, cantor e compositor italiano Alberto Sordi.
  • 1944 O político canadense Tommy Douglas forma o primeiro governo socialista da América do Norte após vencer as eleições regionais de Saskatchewan.
  • 1962 O Acre é elevado a estado brasileiro.
  • 1964 Nasce em Frederiksberg o ex-jogador dinamarquês Michael Laudrup, um dos melhores de sua geração.
  • 1969 Nasce em Karlsruhe o ex-goleiro alemão Oliver Kahn, capitão da Alemanha na Copa de 2002.
  • 1970 Começa o julgamento de Charles Manson pelos assassinatos, entre eles o da atriz Sharon Tate, cometidos pelo seu culto no ano anterior.
  • 1972 Ulrike Meinhof, cofundadora da organização guerrilheira alemã Facção do Exército Vermelho, é capturada pela polícia em Langenhagen.
  • 1977 Realizadas as primeiras eleições democráticas na Espanha após a morte do ditador Francisco Franco.
  • 1985 O quadro “Danaë”, do pintor holandês Rembrandt, é atacada com ácido sulfúrico e sofre dois cortes a faca realizados por um homem posteriormente julgado insano.
  • 1992 Nasce em Nagrig o jogador egípcio Mohamed Salah, um dos melhores da atual geração.
  • 1996 O Exército Republicano Irlandês (IRA) explode caminhão-bomba no centro de Manchester, na Inglaterra, causando grande destruição e ferindo 200 pessoas.
  • 2019 Morre em Roma o diretor, produtor e político italiano Franco Zefirelli,
  • 2022 A Microsoft aposenta o Internet Explorer após 26 anos em favor de seu novo navegador, Microsoft Edge.


* O jornal não circulou na segunda-feira, dia 15 de junho de 1925


** A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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