Há um Século no CP

Protecionismo e hipocrisia: a imagem do comércio americano na Europa

* Devido ao feriado de Finados, o Correio não circulou no dia 3 de novembro de 1926. Recuperamos aqui texto da edição de 26 de outubro

Jornalista de negócios americano apontou o protecionismo como o principal problema comercial dos EUA
Jornalista de negócios americano apontou o protecionismo como o principal problema comercial dos EUA Foto : CP Memória

“(Comunicado da Agência Havas) Nova York, agosto. No decurso de uma viagem na Europa Central, o diretor do ‘New York Journal of Commerce’, sr. Parker Willis, procedeu a longo e minucioso inquérito sobre a opinião europeia a respeito dos Estados Unidos. O resultado desse inquérito fez objeto de uma série de correspondências que despertaram aqui o mais vivo interesse. O sr. Parker Willis reconhece que nos círculos com os quais esteve em contato é geral o sentimento de desconfiança para com os Estados Unidos. Essa desconfiança, segundo o autor, não procede de causas propriamente políticas, ou pelo menos origina-se sobretudo da política econômica e comercial seguida em Washington, política que é taxada de ‘egoísta e de vistas curtas’. O sr. Parker Willis cita o caso da oposição feita nas esferas oficiais dos Estados Unidos ao recente empréstimo da potassa, empréstimo de que os banqueiros norte-americanos não puderam participar senão por intermédio de Londres. A ação do trust do cobre na Polônia e na Alemanha era objeto de severas críticas e não constituía a única no gênero: ‘Para uma dúzia de produtos, os preços pagos pelo consumidor europeu dependem das manobras de organizações que têm suas sedes nos Estados Unidos’. Nessas condições, a cólera manifestada por Washington a propósito do monopólio britânico da borracha tinha suscitado, segundo o diretor do ‘Journal of Commerce’, indignação e sarcasmos. Não que interesses britânicos excitassem grande simpatia na Europa, mas porque as acusações de Washington eram exageradas e porque, mesmo quando não o fossem, ninguém poderia acreditar na sinceridade da indignação manifestada nos Estados Unidos contra práticas ali tão usuais e corriqueiras.

O escritor americano não hesita em afirmar que tais manifestações, inspiradas em motivos de mera política interna e visando impressionar o público dos Estados Unidos, são de natureza a causar o maior dano aos interesses desse país no exterior. Mas, continua o sr. Willis, esses propósitos no ar e essa política barata ainda prejudicam menos que o protecionismo hipócrita que se baseia no falso pretexto de medidas sanitárias e outras do mesmo jaez. Nada mais edificante do que um inquérito na Holanda entre os produtores de bulbos excluídos do mercado americano porque a administração reconheceu oficialmente que uma moléstia torna perigosa a importação de tulipas. ‘Esses produtores sabem perfeitamente que as suas plantas são sãs e entram sem inconveniente por toda parte menos nos Estados Unidos. Mas também não ignoram que a campanha contra a entrada dos bulbos holandeses está sendo movida nos Estados Unidos há muitos anos.’ Não é menor, segundo o sr. Parker Willis, o pasmo dos produtores de queijos e conservas em França, diante da atitude das autoridades norte-americanas, ‘que toleram a venda de Camemberts e patês franceses’ de fabrico norte-americano, ao mesmo tempo que se mostram tão preocupados em impedir a venda em França de ‘produtos americanos’ de autenticidade não menos duvidosa’. Igual espírito de protecionismo disfarçado ditara medidas que se pretendeu impor a outros países e que nunca seriam toleradas nos Estados Unidos, como por exemplo a faculdade ao agente do Tesouro de verificar o custo da produção mediante exame da escritura comercial. ‘Tal pretensão — confessa o escritor do ‘New York Journal of Commerce’ — não se escudava em nenhum precedente e, se alguém nos fizesse semelhante pedido, seria repelido com indignação. O que não impede que persistamos em levar por diante esse plano e com esse procedimento nos tornemos objeto de ódios e ressentimentos.’

O autor refere-se ainda à questão da tarifa propriamente dita: essa tarifa tinha dado à Europa durante muitos anos motivos de queixa dos Estados Unidos. Agora as coisas tinham mudado. A maioria dos países europeus, bem como a própria Inglaterra, adotaram o regime protecionista. A proteção como princípio de política econômica não sofria mais controvérsia. Uma coisa, porém, era aceitar o princípio e outra sujeitar-se a modalidades como as que decorrem da tarifa norte-americana. As proibições vinham ainda por cima sobrecarregar as disposições da tarifa. ‘A Europa — pondera o autor — percebe a contradição que existe entre esse protecionismo excessivo e a eterna insistência pelo pagamento das dívidas; contradição também com o esforço dos financistas americanos para colocarem na Europa empréstimos com juros altos. É fora de dúvida que a liquidação das dívidas vai colocar em situação crítica a balança do comércio. Como conciliar as importações de matérias-primas que a maioria dos países europeus pedem aos Estados Unidos com um ativo da balança suficiente para pagar os juros da dívida? Como sair deste dilema? Amontoando empréstimos sobre empréstimos? Seria correr à ruína; cumpre, portanto, densar a corrente de exportações para os Estados Unidos. Ademais, as decisões tomadas pela administração norte-americana costumam provocar represálias, com que o norte-americano sofre; foi o que sucedeu com o direito sobre os passaportes que o cidadão dos Estados Unidos em viagem na Europa adquire de forma cumulativa.’”

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O dia 3 de novembro na história

  • 1333 O rio Arno alaga a cidade de Florença, causando grandes danos.
  • 1615 Os portugueses concluem a expulsão dos franceses do Maranhão.
  • 1881 Começa o levante Mapuche no centro-sul do Chile contra a ocupação da Araucanía pelo exército da república.
  • 1898 A França se retira do sul do Sudão, encerrando o Incidente de Fashoda, quando a o choque com a ocupação imperialista britânica quase ocasionou uma guerra.
  • 1901 Nasce em Paris o escritor, teórico da arte, ministro da cultura e membro da Resistência francesa André Malraux.
  • 1903 O Panamá se separa da Colômbia com o incentivo dos EUA.
  • 1907 Fundado no centro do Rio o hospital Souza Aguiar, considerado o maior pronto-socorro da América Latina.
  • 1918 A Revolução Alemã começa com a tomada do porto de Kiel por cerca de 40 mil marinheiros.
  • 1930 Getúlio Vargas se torna o Chefe do Governo Provisório após o golpe de 24 de Outubro.
  • 1931 Nasce em Roma a atriz italiana Monica Vitti.
  • 1936 Franklin D. Roosevelt é eleito presidente dos EUA com mais de 60% do voto popular.
  • 1945 Nasce em Nördlingen o jogador Gerd Müller, atacante histórico do Bayer de Munique e da seleção alemã.
  • 1949 Morre em Nova Iorque o empresário e filantropo americano Solomon Guggenheim, fundador do museu homônimo.
  • 1954 Morre em Nice o artista visual francês Henri Matisse.
  • 1956 Durante a Crise de Suez, as Forças de Defesa de Israel massacram 275 palestinos na cidade de Khan Yunis e no campo de refugiados vizinho, na Faixa de Gaza.
  • 1956 Novo governo é formado na Hungria durante a Revolução Húngara contra as autoridades comunistas.
  • 1957 A URSS lança o Sputnik 2 e coloca em órbita o primeiro animal, a cadela Laika.
  • 1957 Morre na Pensilvânia o psicanalista austríaco Wilhelm Reich.
  • 1964 O democrata Lyndon Johnson é eleito presidente americano com 61% dos votos.
  • 1978 O país insular de Dominica obtém sua independência do Reino Unido.
  • 1979 Cinco membros do Partido Comunista dos Trabalhadores dos EUA são assassinados e outros 7 são feridos por integrantes da Ku Klux Klan e neonazistas em Greensboro, Carolina do Norte.
  • 1986 A revista libanesa Ash-Shiraa noticia que os EUA venderam secretamente armas para o Irã a fim de garantir a libertação de 7 reféns americanos e financiar o grupo rebelde Contras da Nicarágua.
  • 1986 Os Estados Federados da Micronésia e as Ilhas Marshall obtêm independência dos EUA.
  • 1988 Mercenários tâmeis do Sri Lanka tentam derrubar o governo das Maldivas; a pedido do presidente do país, as Forças Militares da Índia sufocam o golpe.
  • 1992 O democrata Bill Clinton vence o republicano George W. Bush com 43% contra 37,5% dos votos e se torna presidente dos EUA.
  • 1998 Morre em Los Angeles o cartunista e escritor Bob Kane, um dos criadores do personagem Batman.
  • 2014 One World Trade Center é oficialmente inaugurado em Nova Iorque, substituindo as Torres Gêmeas derrubadas nos ataques de 11 de setembro de 2001.
  • 2020 Ocorre a votação para a eleição presidencial americana entre Donald Trump e Joe Biden; o resultado será conhecido apenas 4 dias depois.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios