“A data de hoje assinala nos fastos da marinha nacional um episódio glorioso da Guerra do Paraguai — a Batalha Naval do Riachuelo. Feito d’armas brilhante, em que se cobriu de glórias a esquadra brasileira sob o comando do bravo almirante Barroso, que, num lance supremo de audácia, manobra com o navio-capitânia, cuja proa se transforma em formidável aríete, destroçando as unidades inimigas. Façanha essa imitada pelo almirante austríaco Tegetthoff na Batalha de Lissa [referência à batalha naval ocorrida em 20 de julho de 1866 entre o Império Austríaco e a Itália durante a Terceira Guerra de Independência italiana na costa croata do Mar Adriático; Wilhelm von Tegetthoff liderou a vitória austríaca]. Enlevado por um sonho falaz, o ditador do Paraguai, Francisco Solano López, pensou instituir nas plagas da América do Sul uma política de conquistas, inspirada nos planos geniais daquele que, com a ponta do gládio, transformou a face política da velha Europa no começo do século XIX. Era a ave rasteira com remígios de águia, mas que nunca chega a pairar nas alturas, onde ela, sobranceira, domina com o olhar horizontes dilatados. Dizem os historiógrafos que o ditador do Paraguai, quando se achava em Paris, ia quase que diariamente aos Invalides visitar o túmulo do grande Napoleão. É possível que dessas visitas lhe resultasse uma autossugestão, ante os surtos do gênio de quem se igualou a César e Aníbal. [...]
Surge, enfim, o dia 11 de junho. Ninguém espera o inimigo; os nossos vasos de guerra estão com os seus fogos abafados, ali tranquilamente ancorados. Era um domingo. Às 9 horas da manhã, preparavam-se os oficiais para içar a bandeira. Nesse momento, o vigia do mastro de proa da canhoneira Mearim grita: ‘Esquadra inimiga pela proa!’ O comandante desse navio, Elisiário Barbosa, manda içar o sinal — ‘inimigo à vista’. Este sinal é percebido imediatamente pelo navio-chefe Amazonas, que deu logo ordem para despertar os fogos abafados. Com efeito, era a esquadra inimiga que avançava, a toda força, em linha, rebocando seis chatas, as baterias flutuantes. A bordo dos nossos navios, todos chegam a posto e a artilharia é guarnecida sem perda de tempo.
O navio iça o sinal de ‘suspender e preparar para combate’. A esquadra inimiga se aproxima, e o canhoneio começa; a Belmonte, testa da coluna, o inicia. De passagem, o inimigo despeja os seus canhões sobre os nossos vasos. [...]
O navio-chefe, a Amazonas, entretida em bater os canhões de Bruguez e a metralhar ainda alguns navios inimigos, percebe, por entre o denso fumo da batalha, a abordagem da Parnahyba e então avança à toda força em direção aos inimigos que a abordam e, os nossos bravos, que os combatem, prestes a desaparecerem na explosão, avistam a proteção providencial que se aproxima e rompem em vivas. O prático da Amazonas, Bernardino Gustavino, cognominado pelo chefe Barroso ‘o prático dos práticos’, dirigiu com admirável sangue frio o glorioso navio-chefe. O governo brasileiro, dando parte ao parlamento dos acontecimentos do Rio da Prata, refere-se à Batalha Naval do Riachuelo, e dessa referência colhemos as seguintes palavras: ‘Os belos feitos da nossa marinha realçam pela apreciação insuspeita das grandes potências. O combate de Riachuelo, ato de bravura, ousadia e inteligência de um chefe venerável e de alguns jovens comandantes, mereceu descrição minuciosa e a crítica profissional dos principais jornais da Europa. Jamais se vira, desde o emprego do vapor nas evoluções navais (em teatro tão singular), esquadra contra esquadra disputando a vitória’. O Brasil instituiu uma medalha para os bravos que pelejaram em Riachuelo, e alguns navios receberam os nomes dos que ali gloriosamente sucumbiram. [...]”
A Batalha do Riachuelo foi combatida no dia 11 de junho de 1865 em braço do rio Paraná próximo a Corrientes, na província argentina de mesmo nome, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) — conflito que reuniu a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai de Solano López. Na primeira fase da guerra, o Paraguai acumulou diversas vitórias. A vitória do Riachuelo representou o início de uma virada em favor dos aliados. A Armada Imperial Brasileira era comandada pelo Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva e reunia quase 2300 homens em 9 navios de guerra. A esquadra paraguaia contava com quase 1500 combatentes em 7 navios e 6 chatas (sem autopropulsão). Do lado derrotado foram 351 mortos e 104 brasileiros perderam a vida. A batalha representou a data magna da Marinha do Brasil. O espaço privilegiado que o Correio dedicou aos 60 anos da batalha demonstra a importância que a data mantinha no imaginário nacional.
Lutas na China
“Hoje [dia 10], em monstruoso comício, os estudantes distribuíram milhares de prospectos, dizendo ser o caso de Xangai a mais brutal atrocidade registrada nos anais da história. O comandante da Região Militar pediu ao ministro da Itália que aconselhasse o pessoal das legações e aos súditos estrangeiros no sentido de evitarem seu comparecimento às manifestações. O ministro italiano respondeu que o governo é que, se receia consequências, deveria proibir tais manifestações.”
“Foi proclamada a greve geral [em Cantão, atual Guangzhou]. Os estrangeiros evacuaram a zona perigosa.”
“Continua o tiroteio, que já se faz sentir há mais de sessenta horas. Entretanto, o número de vítimas é relativamente pequeno, devido aos adversários estarem entrincheirados.”
“Telegramas recebidos de Cantão dizem que continua o combate entre os revoltosos yananenses, que estão de posse da cidade, e as forças do governo, que se acham estacionadas na ilha de Llonam. As duas forças fazem uso de metralhadoras. Os yananenses ainda não foram derrotados. As autoridades procuram com insistência os russos bolchevistas, muitos dos quais se refugiaram no distrito de Tung-Shan, sob a bandeira alemã.”
“Alguns grevistas recomeçaram o trabalho, entre os quais muitos padeiros. Os voluntários chineses atiraram contra os operários de uma usina belga que se recusavam a aderir à greve, matando um e ferindo vários deles.”
“A Associação dos Banqueiros Chineses prometeu aos estudantes apoiá-los e ajudá-los no boycott contra os bilhetes do Banco Britânico-Japonês.”
“Os chineses atiraram contra os trabalhadores que se negaram a aderir à greve geral. Do conflito, resultaram um morto e vários feridos.”
“Os agitadores estão se esforçando para estender a greve.”
Disputa pelo símbolo nacional
“O comitê do Reichstag rejeitou a resolução nacionalista a favor da adoção das antigas cores nacionais da bandeira.”
“A comissão respectiva do Reichstag repeliu a proposta dos nacionalistas de ser readotada a bandeira imperial.”
A bandeira imperial da Alemanha esteve em vigor entre 1867 e 1919, durante o Primeiro Reich, e consistia em faixas horizontais preta, branca e vermelha. Com a proclamação da República de Weimar, a ordem das faixas foi redistribuída e a branca é substituída pelo “ouro”, recuperando bandeiras mais antigas compostas de faixas horizontais preta, vermelha e amarela. A proposta nacionalista veiculada na notícia tem o objetivo de readotar um claro símbolo monarquista do Império Alemão. A bandeira preta, branca e vermelha será utilizada inalterada pelo nazismo entre 1933 e 1935, sendo substituída pela bandeira de campo vermelho, círculo branco e suástica em preto.
Baforadas
“O sr. Plínio Marques, deputado e médico pelo Paraná, apresentou em plenário uma importante indicação, pedindo que seja permitido aos representantes do povo fumarem nas bancadas durante as sessões. O espírito da indicação é o mais democrático possível. Além disso, é uma distração inocente que não atenta contra a autoridade da Câmara. O ato de fumar deixou, há muito, de ser a ostentação desrespeitosa de um vício de que a gente se abstinha, como prova de consideração, diante das pessoas mais velhas e senhoras. Estas mesmas, em conivência com o homem, não desdenham de premer entre os lábios um elegante cigarro, nem temem estragar o hálito com o cheiro do tabaco. Só quem tem o hábito de fumar sabe o quanto custa passar longas horas com privação de um delicioso Pour la Noblesse ou de um saboroso Angela. Essa abstenção forçada pode ser causa de irritações funestas, de mau humor perigoso, de pessimismos negros. A indicação do Sr. Plínio Marques, sob sua aparência frívola, tem um alto alcance moral. O cigarro é um sedativo, calma as irritações agudas do ânimo, é um derivativo salutar para a cólera acumulada. Quem sabe que mudanças profundas não se operarão nos hábitos parlamentares brasileiros no dia em que os Srs. deputados puderem livremente dar uma boa "tragada"? Além disso, passam-se nas sessões da Câmara coisas bem menos corteses. E se é permitido a um deputado, sem ofensa, aplicar desaforos a um colega de bancada, porque lhe será proibido atirar-lhe às faces uma simples baforada de fumo?”
O dia 11 de junho na história
- 323 a.C. Morre na Babilônia o rei macedônio e conquistador Alexandre, o Grande.
- 1788 O explorador russo Gerasim Izmailov atinge o Alasca, iniciando o estabelecimento de colônias russas.
- 1805 Incêndio de proporções gigantescas destrói grande parte da cidade americana de Detroit.
- 1892 O Limelight Department, um dos primeiros estúdios cinematográficos do mundo, é fundado em Melbourne, Austrália.
- 1895 A “primeira corrida automotiva” da história, Paris-Bordeaux-Paris, acontece na França.
- 1903 Oficiais sérvios invadem o palácio real de Belgrado e matam o rei Alexandre I e a rainha Draga em golpe de Estado.
- 1910 Nasce em Saint-André-de-Cubzac o oficial naval, oceanógrafo e cineasta francês Jacques Cousteau.
- 1935 O engenheiro elétrico e inventor americano Edwin Armstrong faz a primeira demonstração pública da transmissão FM em Nova Jérsei.
- 1937 A URSS executa 8 líderes militares durante o Grande Expurgo ordenado por Stalin.
- 1939 Nasce em Milton o ex-piloto, apresentador e empresário escocês Jackie Stewart, tricampeão mundial de Fórmula 1.
- 1955 83 espectadores são mortos e ao menos cem ficam feridas após violenta colisão durante as 24 Horas de Le Mans, na França; é o acidente automobilístico mais mortal da história.
- 1959 Nasce em Oxfordshire o ator, comediante, músico e escritor inglês Hugh Laurie, famoso pelo personagem principal da série televisiva “House”.
- 1962 Nasce em Passo do Sobrado, interior gaúcho, o treinador Mano Menezes, ex-Seleção Brasileira e atual técnico do Grêmio.
- 1963 O governador do Alabama, George Wallace, bloqueia a entrada de dois estudantes negros que se matriculariam. Mais tarde, Vivian Malone James Hood, acompanhados por soldados da Guarda Nacional, conseguem se registrar.
- 1963 O monge budista Thích Quảng Đức ateia fogo a si próprio em Saigon para protestar contra a falta de liberdade religiosa no Vietnã do Sul.
- 1964 Nasce em Avignon o ex-piloto francês Jean Alesi.
- 1974 Morre no Rio o militar Eurico Gaspar Dutra, presidente da República de 1946 a 1951.
- 1982 Estreia nos EUA o clássico filme “E.T. O Extraterrestre”, dirigido por Steven Spielberg.
- 2010 Começa na África do Sul a 19ª edição da Copa do Mundo de futebol, a primeira no continente africano.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios
