Há um Século no CP

Um arrazoado sobre a utilidade dos parlamentares

Da edição do dia 28 de agosto de 1925, sexta-feira, edição n. 204

O Correio do Povo considerava a pertinência de uma representação legislativa mais enxuta, dada a sua real contribuição para o país
O Correio do Povo considerava a pertinência de uma representação legislativa mais enxuta, dada a sua real contribuição para o país Foto : CP Memória

“Se alguma medida útil fosse possível alvitrar em relação ao legislativo para aproveitar a vaga da reforma, seria indiscutivelmente reduzir o número de representantes da Nação. A Câmara é um aparelho caro, que funciona pouco e mal, embora absorva muito. Grande parte dos descalabros nacionais devemo-los a ela. Para os que têm outra origem, a Câmara não nos dá o remédio: mostra-se impotente. A razão principal da sua existência, que é a elaboração da lei de meios, figura em último lugar no rol das suas preocupações. A sua subserviência ao executivo tornou-a numa excrescência incômoda. Na pele da República a Câmara tem a inocuidade sebácea de um lobinho. É indicar a vantagem, para o erário e para o decoro público, de reduzir ao mínimo possível o número desses cidadãos que se ornam, coletivamente, pomposos de poder legislativo, os quais, afinal de contas, não têm nenhum poder e que, com raras exceções, são incapazes de legislar ou de traçar um simples regulamento para um clube recreativo. Alegar que os deputados são representantes do povo, que este cresceu desde o advento da República, é de uma candidez angélica. O povo é, na política nacional, menos que uma figura de retórica. Eles são simples homens da confiança dos chefes políticos que os indicam. O seu mandato não tem caráter popular. Raros dentre eles se poderiam fazer eleger pelo prestígio próprio, o que os coloca numa situação de validos dos respectivos criadores. Apesar disso, houve um deputado que se lembrou de apresentar uma emenda ao projeto de reforma, elevando o mínimo de representantes por Estado. Perdoe-se-lhe pela intenção. Este, ao menos, não é egoísta.”

Contra a piroplasmose

“Depois de porfiados estudos, o dr. Domingo I. Zeni, cientista uruguaio, chegou à conquista de um grande marco no terreno das conquistas científicas e econômicas das indústrias rurais. É de grande alcance a aplicação desse preparado do dr. Zeni, ficando resolvido o difícil problema do melhoramento do gado na zona carrapateira. O dr. Alexandre Gallinal, espírito otimista e progressista, imediatamente soube aproveitar o processo do dr. Zeni, confiando-lhe a imunização de uma grande parte de suas mais valiosas fazendas, atacando zonas onde, com mais violência, aparecia o carrapato. Assim, logrou vender um grande número de cabeças de gado, para o Brasil, para a Argentina e para outras regiões do próprio Uruguai, num montante de 6.800 rezes, coisa jamais possível antes da aplicação do processo Zeni. Em zonas em que fracassaram os maiores esforços de acatadas sumidades, bacteriologistas e técnicos de fama mundial, vem triunfando o dr. Zeni, o silencioso e esforçado trabalhador, graças ao seu preparo. Merece, pois, os nossos melhores incitamentos e todo o nosso aplauso o trabalho do dr. Zeni, que, após 16 anos de acurados estudos e difíceis pesquisas, vê brilhantemente coroada de êxito a sua obra, de resultados vantajosos para a indústria pecuária.”

Arte ucraniana

“Valeu por um raro êxito a estreia, ontem, no teatro S. Pedro, dos coros ucranianos, que vieram revelar à nossa plateia um interessante, e para nós, novo filão de arte, com a originalidade dos seus cantos e a sua esplêndida organização artística. Indiscutível é o seu valor como massa coral, subordinada à mais perfeita disciplina, que dá a mais nítida impressão de unidade, mercê de combinações harmônicas em que os vários elementos vocais, sem prejuízo dos seus característicos individuais, se fundem num conjunto de grande valor estético, sempre interessante, e, por vezes, de surpreendente beleza. Dependeu, sem dúvida, dessa unidade de execução, e das delicadezas de interpretação, em que se tornam sensíveis as mais leves nuanças, o contágio de emoção que derramou pela plateia, a aplaudir, com espontaneidade, todas as páginas executadas, sublinhando as melhores por um entusiasmo maior. Essa música, em que se expande o mistério da alma eslava, com a sua poesia e o seu misticismo ingênito, impressiona e por vezes arrebata. Está neste caso a ‘Ave Maria’, em que o acompanhamento coral, a ‘bocca chiusa’, na sua estrutura harmônica, mais ainda que frase melódica, impregnada de doce religiosidade, se desdobra amplamente sobre uma fórmula litúrgica bem característica. De resto, a senhora Bobroff fez o solo compenetrada do sentimento místico da música, utilizando com muita segurança os efeitos de intensidade, com pianíssimos esplêndidos e ‘filaturas’ de uma bela suavidade. Outros números do programa, além desse, causaram igualmente emoção profunda, merecendo destaque, como ‘Povera viue’, de Steizenko, e ‘Barichpol’, de ‘Koschitz’, pelo acento de melancolia. Outros ainda, pelo que têm de característico, de bizarro, na sua intenção interpretativa ou descritiva, ou pelo caráter faceto ou cômico, despertaram aplausos merecidos. Nesse conjunto de vinte e nove cantores destacam-se vozes de excelente qualidade, sobressaindo-se pelo seu caráter o grupo de vozes graves, entre os elementos masculinos, e, entre os femininos, as sopranos. Ficam nessas linhas apenas uma impressão rápida e de última hora sobre esse conjunto que com a sua primeira exibição assegurou o êxito da curta temporada em Porto Alegre. Segundo fomos informados, um extravio de bagagens prejudicou, em parte, a apresentação da companhia, sob o ponto de vista da sua indumentária.”

O dia 28 de agosto na história

  • 489 Os ostrogodos, liderados por Teodorico, invadem a Itália.
  • 1521 Captura de Belgrado pelas tropas turcas do sultão Suleiman, o Magnífico.
  • 1749 Nasce em Frankfurt o polímata alemão Johann Wolfgang von Goethe.
  • 1833 O Ato de Abolição da Escravatura recebe aprovação real, tornado ilegal (com exceções) a aquisição ou a propriedade e escravos no Império Britânico.
  • 1845 Publicada a primeira edição da revista Scientific American.
  • 1849 Veneza se rende à Áustria após um mês de cerco e de se declarar independente.
  • 1879 Cetshwayo, último rei dos Zulus, é capturado pelos britânicos.
  • 1909 Um grupo de militares gregos de nível médio iniciam o Golpe de Goudi, inaugurando um novo sistema político.
  • 1916 A Alemanha declara guerra à Romênia; a Itália declara guerra à Alemanha.
  • 1917 Dez sufragistas que protestavam em frente à Casa Branca em defesa do voto feminino são presas.
  • 1921 O Exército Vermelho dissolve a Makhnovshchina, movimento que buscava a implantação do anarco-comunismo no sul e leste da Ucrânia.
  • 1924 A oposição na Geórgia lança sem sucesso o Levante de Agosto contra o domínio soviético.
  • 1936 A Alemanha nazista inicia as prisões em massa em campos de concentração das Testemunhas de Jeová.
  • 1937 A Toyota Motors se torna uma companhia independente.
  • 1941 A primeira edição do noticiário radiofônico Repórter Esso vai ao ar.
  • 1944 Liberação das cidades francesas de Marselha e Toulon.
  • 1955 O adolescente afro-americano Emmett Till é sequestrado, linchado e baleado no Mississippi por assobiar para uma mulher branca, catalisando o nascente movimento de direitos civis.
  • 1963 Martin Luther King Jr. faz o famoso discurso “I Have a Dream” durante a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade.
  • 1969 Nasce na Califórnia o ator, comediante e músico americano Jack Black.
  • 1981 Morre em Viena o ex-jogador e técnico húngaro Béla Guttmann, histórico treinador do Benfica e do São Paulo.
  • 1988 Três aviões das Frecce Tricolori italianas colidem no ar em Rammstein, Alemanha, e os fragmentos que caem sobre multidão de cerca de 300 mil pessoas deixam 75 mortos.
  • 2009 Noel Gallagher anuncia sua saída da banda britânica Oasis, levando ao fim do grupo.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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