Há um Século no CP

Um relato das condições da estrada Porto Alegre-Caxias

Da edição de 12 de novembro de 1925, quinta-feira, n. 269

Em reportagem histórica, o Correio do Povo faz o primeiro relato de uma viagem de automóvel entre a Capital e a Serra Gaúcha
Em reportagem histórica, o Correio do Povo faz o primeiro relato de uma viagem de automóvel entre a Capital e a Serra Gaúcha Foto : CP Memória

“O automobilismo está tomando grande impulso no Rio Grande do Sul. Rara é a cidade que, mensalmente, não aumenta o seu número de veículos. Por toda parte, nota-se uma febre na compra de automóveis, desta ou daquela marca. Maior seria este movimento em prol do automobilismo se se melhorassem as estradas de rodagem, as quais se apresentam intransitáveis a qualquer espécie de veículo. O sr. H. Bernet, agente dos automóveis ‘Overland’, convidou dois nossos companheiros a fazerem uma viagem à cidade de Caxias, tendo daqui partido na manhã de sábado último. A excursão automobilística, em cerca de sete horas, decorreu magnificamente, não se tendo gasto menos tempo porque, na viagem, os viajantes aproveitaram a ocasião para visitar a granja daquele comerciante. O ‘Overland’ venceu galhardamente os 180 quilômetros que separam esta capital da Pérola das Colônias, com uma marcha de 20 a 30 quilômetros. Gastou pouco combustível e não se registrou sequer sombra de acidente, não havendo nada que pudesse empanar a viagem. O elegante veículo, deixando esta capital, passou por Canoas, Sapucaia, S. Leopoldo, S. Sebastião do Caí, ponte da Feliz, Alto da Feliz, Boêmia, Nova Milano, Nova Vicenza e Forqueta, até atingir Caxias às 16 horas do mesmo dia em que daqui partira. E não somente o Overland fez a sua viagem daqui à bela cidade, cognominada também a ‘capital da região colonial italiana’: veículos de outras marcas também fizeram magníficas excursões, vindo isto demonstrar que as comunicações Porto Alegre–Caxias podem ser feitas em automóvel.

Não se faz mister a descrição dos imponentíssimos panoramas que se descortinam em toda a viagem, principalmente quando depois de atingida a ponte da Feliz. A vegetação é das mais variadas cores, tendo, para salientar esta ou aquela zona, a grande variedade de plantações.

Aproveitamos a excursão não só para visitar, por primeira vez em tal condução, uma rica região do Estado, mas para constatar o estado das estradas de rodagem. Fácil nos foi a satisfação de nosso desejo e devemos, aqui, ser eco das inúmeras reclamações feitas por pessoas que, seguidamente, realizam a travessia em automóvel de Porto Alegre a Caxias. Ao sair de Porto Alegre, encontra-se uma estrada em péssimas condições. Referimo-nos à denominada ‘Canoas’, porque atravessa esta localidade, fazendo parte do município de Gravataí. O trecho, em péssimas condições, vem da frente da estação do Gravataí e termina em frente à parada denominada Esteio, situada nas proximidades de Sapucaia. É impossível descrever o seu estado. Depois de toda chuva forte, são precisos alguns dias de bom tempo para poder transpô-la, porque do contrário um automóvel corre o perigo de ficar atolado.

Em épocas de estiagem então há grandes buracos e enorme quantidade de pedras salientes, que geralmente furam os pneumáticos. Aos municípios de Porto Alegre e de Gravataí cabe a iniciativa de melhoramentos indispensáveis neste trecho da estrada a fim de evitar que ela inconscientemente seja a pior inimiga dos automobilistas.

Passado o trecho péssimo que vai até à parada Esteio, prosseguimos a viagem, sempre com a atenção presa no estado lastimável em que se encontra a estrada. Assim, de Esteio a S. Leopoldo, o auto corre facilmente, em qualquer marcha e no meio de frondosas árvores, plantadas nas margens da estrada. Quanto à viagem de S. Leopoldo a S. Sebastião do Cahy, decorre regularmente, havendo trechos com muita areia, defeito que, afinal, não pode ser eliminado. O automóvel não anda com grande marcha, mas não tem oportunidade de sofrer qualquer desarranjo, devido ao areal espesso e generalizado. Uma coisa, porém, se faz necessária: a construção de uma ponte sobre o rio Cadeia, que é atualmente vadeado por meio de uma barca.

Chegamos a S. Sebastião do Cahy, outrora próspera vila e hoje em certa decadência. Estávamos pouco cansados, pois, ao realizar o trecho entre S. Leopoldo e o Cahy, reconfortamo-nos dos fortes choques sofridos no trajeto Porto Alegre–Parada do Esteio. E, ao chegarmos, pintaram-nos com cores negras o trecho que tínhamos a percorrer. Eram pouco mais de duas léguas. Achamos pouco exagerado, mas confiamos em que as boas molas do ‘Overland’ nos salvariam das fortes batidas resultantes do mau estado da estrada. E, após breve refeição, retomamos o automóvel e prosseguimos viagem.

Passadas algumas centenas de metros, certificamo-nos de que as queixas eram justíssimas. Nem acreditaríamos que jamais uma estrada pudesse estar em tão manifesto abandono, não oferecendo sequer garantia de tráfego a qualquer espécie de transporte.

Tais são os buracos e as pedras pontiagudas aqui e ali, que, antes de se chegar à ponte da Feliz, tem-se a impressão de se estar atravessando um conglomerado de ‘cachoeiras…’. O nosso automóvel jogava como um navio quando acossado por forte temporal. Felizmente, abalroamos pouco, e nenhum dos viajantes ‘deu carga ao mar…’. Pelo caminho, encontramos mais de um automóvel, mais de uma carreta puxada por fogosos animais e, das bocas dos respectivos condutores, somente ouvíamos lamúrias contra o mau estado da estrada. Realmente, as queixas eram verídicas, e a impressão que tivemos foi além da expectativa pessimista.

Durante duas longuíssimas horas, viajamos desconsolados, com vontade até de interromper a viagem. Mas éramos obrigados, custasse o que custasse, a chegar à cidade de Caxias. E, passadas umas duas horas, atingimos a da Feliz. Fizemos ainda um pequeno trecho em condições más, até que entramos…

na estrada Júlio de Castilhos

...que começa pouco além do lugar denominado Alto da Feliz. O nosso auto parou um pouco. Desembarcamos, para descansar das ‘avarias’ e solavancos que recebemos até atingir aquela localidade. Tragamos alguns copos de água cristalina, expelida por uma vertente situada à margem da estrada.

Retomamos o automóvel e prosseguimos viagem. O ‘Overland’ agora não corria mais sobre ‘cachoeiras’: viajava numa estrada completamente macadamizada, havendo trechos que pareciam até asfaltados. E, nas suas margens, há plantados, a pequenas distâncias, vistosos plátanos, tendo-se por isso a impressão de viajar numa avenida e não numa estrada, em plena região colonial.

Consideramos, mais de uma vez, se o nosso sistema rodoviário fosse todo como o da estrada Júlio de Castilhos, milhares de automóveis cruzariam facilmente o Rio Grande do Sul em todas as direções, e a viagem Porto Alegre–Caxias se faria entre quatro ou cinco horas.

Que magnífica excursão! As duas cidades mais se aproximariam, comercial e industrialmente. Não haveria necessidade de se fechar um mortal num trem cerca de dez horas para atingir a ‘Pérola das Colônias’ ou a capital do Estado. Ninguém sofreria a mínima ‘avaria’, e os fabricantes de automóveis estariam de parabéns, porque teriam as suas vendas duplicadas ou triplicadas…

Parámos mais de uma vez, não por mau funcionamento do motor. De certo ponto da estrada, há panoramas encantadores que obrigam o viajante a interromper a viagem para melhor apreciá-los. Há também numerosas fontes de água, saída de uma rocha situada na encosta da estrada, e de uma grande cascata, onde todos os viajantes procuram matar a sede. E, sob os mais francos elogios ao estado da estrada Júlio de Castilhos, continuamos a viagem, passando por Boêmia, Nova Milano e Nova Vicenza, ponto em que tomamos outra estrada de rodagem, em direção a Caxias. Esta última não é igual àquela do governo do Estado, mas está bem cuidada, sendo de lamentar que tenha muitas curvas, defeito aliás provindo de sua construção antiquada.

Antes de atingir Caxias, passamos por Forqueta, estação da estrada de ferro, e onde, como em Nova Vicenza, notamos grande movimento comercial. Por último, o ‘Overland’ passou pela estrada em construção nas proximidades de Caxias e que, desde já, presta bons serviços.

Por toda parte onde passamos, nas casas que visitamos, nos negócios em que estivemos, só ouvíamos bradar: ‘Queremos estradas! Estradas!’. Então lembramo-nos da frase daquele almirante, dizendo que o futuro do Brasil estava ‘no rumo ao mar’. Parodiando essas palavras, diremos que o futuro do Rio Grande está na dotação de um sistema rodoviário idêntico ao da estrada denominada Júlio de Castilhos.”

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Atentado

“O hotel Dragoni, onde foi preso o ex-deputado Zaniboni, está situado quase em frente ao palácio Chigi, onde o primeiro-ministro costuma assistir ao desfile dos cortejos patrióticos. Os funcionários da polícia penetraram no quarto ocupado pelo ex-deputado Zaniboni, no referido hotel, onde o encontraram a vestir-se. Dois funcionários apoderaram-se imediatamente da pessoa do ex-deputado Zaniboni. Outros funcionários verificaram que, em uma janela que dá para a praça situada em frente ao palácio Chigi, havia um fuzil carregado, apontado em direção exata à sacada onde o sr. Mussolini havia assistido à passagem do cortejo, depois de uma cerimônia religiosa. O ex-deputado Zaniboni trazia o uniforme de major das tropas alpinas e havia feito a barba. Um automóvel o esperava ao redor do hotel, preparado para uma longa viagem, com víveres, vários revólveres e munições.”

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Primeiras edições

Da edição de 12 de novembro de 1895, terça-feira, n. 36

Contrabando

“Foram ontem apreendidas, nas proximidades do serro de Bagé, quatro carretas conduzindo 112 sacos de feijão procedente do Estado Oriental [Uruguai] e classificado como contrabando pelo chefe da guarda aduaneira. O apreensor foi o guarda João Tavares.”

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Greve

“Acham-se desde ontem em greve os operários ferreiros, serralheiros, fundidores, etc. A parede não é geral, mas há estabelecimentos que foram abandonados por quase todo o pessoal. Os grevistas pedem redução das horas de trabalho diário.”

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Mortalidade zero

“Se o estado sanitário de uma cidade deve ser aferido pela estatística da mortalidade, devemos concluir que o de Porto Alegre é excelente, pois não ocorreu ontem falecimento algum.”

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O dia 12 de novembro na história

  • 1840 Nasce em Paris o escultor francês Auguste Rodin, autor de “O Pensador”.
  • 1912 O rei Jorge I da Grécia entra triunfalmente em Tessalônica após a liberação da cidade da dominação otomana que durava 482 anos.
  • 1918 A Áustria se torna uma república, dissolvendo definitivamente a monarquia constitucional da Áustria-Hungria.
  • 1920 O Reino da Itália e o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos assinam o Tratado de Rapallo, redefinindo territórios da costa adriática.
  • 1927 Leon Trotsky é expulso do Partido Comunista soviético, deixando Josef Stálin com o controle isolado da URSS.
  • 1929 Nasce na Filadélfia a atriz americana e princesa de Mônaco Grace Kelly.
  • 1933 Referendo confirma a retirada da Alemanha nazista da Liga das Nações.
  • 1934 Nasce em Recife o jogador Vavá, campeão do mundo com a Seleção nas Copas de 1958 e 1962.
  • 1938 A icônica ponte da Baía de San Francisco é aberta ao tráfego.
  • 1938 Decreto segrega oficialmente os judeus da vida econômica na Alemanha nazista impedindo-os de comprar e vender bens e serviços e de trabalhar no comércio.
  • 1945 Nasce em Toronto o músico canadense-americano Neil Young.
  • 1954 A estação de processamento e controle de imigração de Ellis Island, em Nova Iorque, encerra suas operações.
  • 1956 Cerca de 110 refugiados palestinos são assassinados por forças israelenses em Rafah durante a invasão da Faixa de Gaza em meio à Crise de Suez.
  • 1961 Nasce em Onesti a ginasta romena Nadia Comaneci, a primeira a receber nota 10 nos jogos olímpicos.
  • 1961 Nasce em Montevidéu o ex-jogador uruguaio Enzo Francescoli.
  • 1969 O jornalista Seymour Hersh divulga as ações criminosas do exército americano no Massacre de My Lai, durante a guerra do Vietnã.
  • 1970 O ciclone tropical Bhola atinge o atual Bangladesh e o estado indiano de Bengala Ocidental, matando entre 300 mil e 500 mil pessoas em um dos maiores desastres naturais da história.
  • 1979 O presidente americano, Jimmy Carter, suspende a importação de petróleo do Irã em resposta à Crise dos Reféns.
  • 2001 Com a aproximação das tropas da Aliança do Norte, o Talibã abandona Cabul, capital afegã.
  • 2011 Silvio Berlusconi apresenta a sua renúncia como primeiro-ministro da Itália.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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