Nelson Rodrigues abre assim uma das suas crônicas:
"Se me perguntassem qual a mais feia impostura da nossa época, eu daria a seguinte e fulminante resposta: — é a cínica promoção que se faz do jovem. Não há mais, como no passado, o conflito das gerações. Até os velhinhos nostálgicos, espectrais, da porta da Colombo, adulam a juventude."
Certamente o leitor quer saber se a abertura tem algo a ver com futebol.
Tem.
Recebi uma carta.
Há anos não recebia uma carta.
A letra trêmula era justificada na última linha:
"Desculpe os erros no português, pois já tenho 96 anos".
A missiva vem assinada por Waldemar Lugo.
Imagino que seja um velhinho nostálgico em assuntos do futebol.
Li a carta com espanto.
Lugo transforma as minhas críticas em doces elogios.
Sua frase mais amena é de que o time está uma bagunça.
Certamente ele viu jogar o Rolo Compressor.
Explica-se a nostalgia.
Lugo não adula os jogadores, piás se comparados a ele.
Com azedume, exige bom futebol e vitórias.
Pessimista, teme retornar para a Série B.
A carta é de um desabafo emocionado de um colorado autêntico, atento e ferido.
Talvez o grito do seu Lugo desperte este gigante chamado Inter do sono em que caiu já vai tempo.
